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O segredo de Miguel Cardoso para potenciar o talento de Rúben Ribeiro e Francisco Geraldes

Caso Guedes foi encerrado com um golo e... um abraço forte!

• Foto: Ricardo Jr
RECORD - Como se faz a gestão de dois génios e duas personalidades complicadas, como são as de Rúben Ribeiro e Francisco Geraldes, criando condições para que, além do talento que possuem, criassem uma química entre ambos?

MIGUEL CARDOSO - Fazendo-os perceber que o coletivo os poderia fazer ainda melhores. Que eles já eram o que eram antes de terem aquela oportunidade coletiva. O Francisco já era Francisco antes de chegar ao Rio Ave, o Rúben já era Rúben antes de chegar ao Rio Ave. Nunca tinham tido é a oportunidade serem Rúben naquele contexto e Francisco naquele contexto. E fazê-los acreditar que o Francisco e o Rúben daquele contexto poderiam ser muito melhores do que tinham sido até então. Jogadores como eles só se conseguem conquistar com propostas de jogo que os apaixonem. Porque ele são jogadores que exaltam o que de melhor têm nos seus melhores momentos emocionais. E foi isso que procure fazer. Foram brutais dois momentos que aconteceram com ambos: um quando consigo, através da intervenção do doutor Miguel Ribeiro, que o Francisco venha para o Rio Ave e ele me diz "eu aceito vir com uma condição, você fazer de mim melhor do que aquilo que eu sou". O Chico teve esta consciência brutal de me pedir isto. E eu digo-lhe, Chico, eu vou fazer contigo aquilo que vou fazer com os outros. E ele diz-me, "ok, mas eu quero que procure ao limite, em mim, isso mesmo". E esse compromisso foi assumido. E houve momentos em que ele nem sequer jogou, quando eu entendi que não jogar era melhor para ele percorrer esse caminho. É um miúdo fantástico, como todos os outros em geral.

R - E quanto ao Rúben Ribeiro?


MC - O Rúben é um talento. Por isso disse a dada altura que tanto o Rúben como o Geraldes eram um bocadinho como o Salvador Sobral. Incompreendido até ir para Kiev, ganhar a Eurovisão e passar a ser querido e amado em Portugal, sem esquecer as críticas antes de ter ido para lá. O Rúben era um bocadinho assim, um bocadinho patinho feio. Uma jóia de um rapaz, e falo pelo que vi em 2017/18, um exemplo de balneário e de comportamento. Quando derrapou, eu penalizei-o naturalmente. Houve um momento, num jogo de pré-temporada, em que o Rúben é carregado como é brutalmente durante muitos jogos e nunca me esqueço do jogo em Braga, em que sofreu 14 faltas, e reage com uma sapatada. O árbitro dá-lhe cartão amarelo e eu interrompo o jogo e digo, desculpe mas vou fazer uma substituição porque o Rúben não é cartão amarelo, é cartão vermelho. E tirei-o do campo. Depois fui à procura dele, conversámos e ele percebeu que aos 30 anos ainda há muita coisa para viver. E que a pessoa que estava à frente dele nunca lhe iria falar mentira e iria falar verdade. Claro que foi preciso construir e negociar com ele um espaço de comunicação. A partir da sua criação, tudo ficou mais fácil com o Rúben. Sem esquecer algumas questões: quando falar com ele, como, porquê, onde? Nem todos somos iguais. Os jogadores são diferentes e temos de perceber onde os situamos e onde nos situamos quando falamos com eles. Há jogadores que posso repreender à frente dos outros, e eles elevam o seu nível de treino, e há outros em que se o fizer, eles fecham-se e baixam drasticamente.

R
- Há um momento muito marcante da temporada que foi o caso Guedes. O jogador desafiou a sua autoridade e teve o apoio dos adeptos. Como lidou com essa crise?

MC -Um treinador tem de estar preparado para essas situações. E por o treinador estar preparado é que agiu daquela forma. O Guedes, que é uma jóia de um rapaz, com um caráter e forma de ser apaixonantes, é de facto muito bom menino, sabe perfeitamente, porque estava imbuído do que são os valores da nossa equipa, sabia que na lista dos batedores de penáltis (nos jogos de campeonato existem três e na Taça de Portugal estavam todos os jogadores...) era o 8.º designado entre todos. Há uma coisa que é fundamental nós percebermos, é que o líder de um grupo nunca pode sacrificar a intenção do grupo pela intenção do indivíduo. Mas já o individuo tem todo o direito de pedir ajuda ao grupo para viver uma intenção particular, o que não aconteceu. Refleti bastante sobre isso. A substituição do Guedes é feita não por ele falhar o penálti, dado que dou ordem ao Gelson Dala para aquecer ainda antes dele rematar, e isto porque o Guedes percebeu muito bem que eu estava a dar ordem para ser o Pelé a cobrar. E o próprio Pelé dirigiu-se a ele. Até aí, poderia haver, mas a partir daí não há outro caminho. A partir do momento em que mando o Gelson aquecer, ele tem de ser substituído. Uma coisa é certa, a gestão do meu grupo foi sempre feita à custa de regras muito claras. A gestão do meu grupo foi sempre feita pela partilha de valores comuns. O que é importante não foi o que aconteceu, e disse-o ao Guedes, no dia a seguir quando conversámos. Envolvi o diretor geral do clube na minha estratégia e disse ao doutor Miguel Ribeiro: vamos marcar um almoço amanhã, ligas ao Guedes e, como se eu não soubesse, dizes-lhe que venha tomar café connosco e tenha a oportunidade de me pedir desculpa. Combinámos isto, ao mesmo tempo combinámos com o diretor de comunicação, Marco Aurélio Carvalho, que estaria disponível caso quiséssemos utilizá-lo para alguma coisa, e nem foi preciso isso acontecer. O Guedes, no dia a seguir, de manhã, quando Miguel Ribeiro lhe liga estava em Vila do Conde e veio ao estádio. E perguntei-lhe claramente: "tu queres ser aquilo que te aconteceu ou queres ser aquilo que tu és?" E ele disse, "míster, tenho a consciência plena de que aquilo que fiz não está certo". A partir deste momento todas as questões são simples. Porque para mim não há questão alguma, porque o Guedes entende que tem de falar ao grupo porque quebrou as regras do próprio grupo para cumprir um propósito individual, e ao mesmo tempo pôs em causa as questões do clube. Por isso teria de falar com os colegas, com o presidente, e depois cumprir com algo que para mim é muito claro: os jogadores podem até ofender os treinadores. Toda a gente tem direito a ter um contexto emocional negativo. A ter uma reação e um comportamento negativo. Tem direito de o analisar e a obrigação de perceber que quando uma ofensa é pública, a sua desculpa tem de ser pública. Se a ofensa é privada, a desculpa pode ser privada. Combinámos que faria uma declaração ao site do clube, onde assumiria as suas intenções. Fê-lo muito responsavelmente. Foi tudo falado em grupo, completamente tranquilo. Teve oportunidade de jogar no encontro seguinte, fez golo e deu-me um abraço. Eu dei-lhe um abraço muito forte. Senti-me muito contente naquele momento. Isso só reforçou o que eram os valores do grupo.

Por Vítor Pinto
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