João Carlos Pereira, o estudante insaciável na Coimbra dos doutores

João Carlos Pereira, o estudante insaciável na Coimbra dos doutores
João Carlos Pereira, o estudante insaciável na Coimbra dos doutores • Foto: Carlos Jorge Monteiro
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"Coimbra, cidade do conhecimento". Quem costuma circular na A1 sabe de cor o "slogan" turístico que convida o viajante a abrir as malas nas repúblicas dos estudantes, a espreitar pelas ruas dos doutores, a deter-se simplesmente nas margens do Mondego. João Carlos Pereira, o jovem treinador da Académica, já foi tentado por todas estas razões e o seu perfil reflecte isso mesmo.

Pisa o acelerador na auto-estrada da informação, confessa-se um aluno em permanência, tem a licenciatura em Relações Empresariais e... já fez agitar as águas graças a um conjunto de resultados que voltou a colocar os homens de negro em boa maré. Até o "fantasma do lar" (sete derrotas em casa!) parece convencido a mudar-se perante o novo estado de espírito que chegou pela mão do técnico que não consegue ter nenhuma superstição impenetrável.

"Quando era jogador habituei-me a entrar em campo com o pé direito. Hoje em dia... esqueço-me por vezes de o fazer...", assume, sem que isso o faça recuar quando tem de pisar o território mental que estabelece as fronteiras do relacionamento com os jogadores. Por sua vontade, a Académica teria na equipa técnica um psicólogo. "O futebol tende cada vez mais para a especialização, para a admissão nos quadros técnicos de treinadores dos defesas, dos avançados... Acredito na especialização sem que ela possa confundir-se com fragmentação. Para mim, uma equipa é sempre o somatório das individualidades", explica.

"Como ganhar usando a cabeça" não foi por acaso a última obra de psicologia desportiva a merecer a atenção de João Carlos Pereira, que aos 32 anos percebeu que o maior contributo do seu curso para o universo do futebol estava na capacidade de aproveitamento dos recursos. "Em duas palavras, na capacidade de organização", diz, deixando logo escapar os motivos que sustentam o fascínio por outro livro que ocupou a mesa de cabeceira. "Li coisas muito interessantes sobre tudo isto numa obra diferente, mas cujo contributo é significativo. Refiro-me ao 'More than a game', de Phil Jackson".

Inspirado nos conceitos do treinador que na NBA já tem uma colecção de nove "anéis", João Carlos Pereira sabe que a aliança com o sucesso no futebol pode deslizar por entre os dedos mais facilmente que a areia das praias de São Pedro de Moel, o lugar que em Portugal o ajudou a fingir que estava de frente para a baía de Luanda, a cidade onde nasceu há 38 anos. "Vim para cá com quatro anos. Sei que no futebol como na vida não há verdades absolutas. Se no final da época por alguma razão não continuar na Académica, acredito que algures existirá um espaço para poder continuar o meu trabalho", conclui alguém que em Coimbra ou em Angola nunca deixa de ser um viajante consciente de que o saber, afinal de contas, não ocupa mesmo um... único lugar.

O menino benfiquista de Luanda

Como treinador, João Carlos Pereira começou por orientar o Marinhense, que na segunda época fez subir à II B, onde permaneceu fiel às origens durante mais duas temporadas, antes de se comprometer com o Sporting de Pombal. Nos leões esteve ao leme outras duas épocas e finalmente no início da actual temporada foi recrutado para a equipa técnica liderada por Artur Jorge. Estreou-se como treinador principal da Académica na 20ª jornada da actual edição da SuperLiga, sucedendo a Vítor Oliveira e logo na véspera da deslocação à Luz, onde perdeu por 2-0 frente ao clube que era do seu coração em Angola, onde nasceu a 11 de Abril de 1965 e de onde saiu aos quatro anos por força da inadaptação do seu pai, antigo vidreiro, ao clima de Luanda. Hoje, João Carlos Pereira é pai de dois meninos (o Francisco e o Guilherme), está divorciado, mas continua com uma das suas paixões de sempre: viajar. Adorou o contraste cultural proporcionado pelas férias em Marrocos, mas não troca ementa nenhuma, nem sequer um prato de muamba, por um peixinho grelhado.

Lesão nos ligamentos influenciou 'adeus'

Uma lesão nos ligamentos cruzados do joelho também levou João Carlos Pereira a abandonar o profissionalismo aos 25 anos. Esteve sete anos no futebol amador, que serviu para lhe ocupar o tempo depois das aulas na Universidade Católica de Leiria. Aos 32 anos, quando concluiu a licenciatura, pendurou as botas no Marinhense, o seu primeiro clube. Seguiram-se Académica, Moreirense, Trofense, Mirense e Marrazes no trajecto do ala-esquerdo.

Como jogador, um ídolo chamado Maradona...

De alcunhas não se lembra e praxe enquanto treinador principal da Académica é coisa que também não tem nos registos, conforme revelou num tom de voz calmo e seguro, característico de quem gosta de escolher as palavras sem ter medo delas. O que lhe provoca pavor é o... trânsito e talvez por isso tinha como ídolo um craque que passava pelos adversários como se fosse um peão a serpentear pelos milhares de táxis de Nova Iorque: Diego Maradona...

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