Nelo Vingada: «O maior desafio como treinador»
RECORD – Esperava estar agora sentado no sofá, em casa, tão tranquilo, quando ainda falta uma jornada para o final da SuperLiga?
NELO VINGADA – Para ser sincero, não. Não era esta a classificação que idealizava e tão-pouco imaginava que fosse possível chegar à 32ª jornada com a manutenção garantida. Quanto mais ter, na mesma jornada, três pontos de avanço sobre o Gil, o último acima da linha de água, e nove sobre as três equipas que vão ser despromovidas. Sabia que tínhamos dois jogos decisivos, com o Beira-Mar, em Aveiro, e com o Moreirense, em Coimbra. Mas não foi necessário esperar pelo encontro com o Moreirense, uma vez que ficou assegurada a permanência na jornada anterior.
RECORD – É verdade que o tempo lhe deu razão mas o que motivou a sua decisão de rejeitar o Beira-Mar por troca com a Académica?
NELO VINGADA – O meu contrato profissional com o Zamalek acabou, em termos formais, em Julho de 2004. Pouco depois, já em Portugal, recebi uma proposta para orientar uma equipa da SuperLiga…
RECORD – Qual?
NELO VINGADA - Gostaria que o nome do clube se mantivesse num plano reservado…
RECORD – Então escolheu Coimbra por que razão?
NELO VINGADA – Antes ainda tive oportunidade de trabalhar na Coreia do Sul…
RECORD – E que motivos o levaram a rejeitar a proposta coreana?
NELO VINGADA – Era distante geograficamente e a minha vontade, depois de ter passado algum tempo fora, era de permanecer em Portugal. Foi então que surgiram dois convites formais em Dezembro. Primeiro o Beira-Mar e dois dias depois a Académica. E, para responder à pergunta, não posso esquecer que Coimbra e a Académica produzem em mim um encanto especial. Repare que foi pela mão de Mário Wilson que cheguei, pela primeira vez, em 1982, à Académica. Criei laços fortes com a cidade e com o clube e não esconde que treinar a Académica era um dos meus desejos.
RECORD – E não se assustou com a classificação?
NELO VINGADA – Estávamos na 15ª jornada, faltavam ainda 19 jogos e sabia que dependíamos apenas de nós. Por outro lado, via-se que a Académica tinha um grupo de jogadores com grande vontade de evoluir, de trabalhar e de salvar o clube da despromoção. Depois, era possível reforçar a equipa em algumas posições, dotá-la de maior equilíbrio e a verdade é que foi isso mesmo que aconteceu. A Académica começou a crescer e iniciou uma cavalgada impressionante em que esteve 12 jogos consecutivos a pontuar.
RECORD – Passou muitas noites sem dormir?
NELO VINGADA – Algumas. Durante algum tempo, foram horas e horas a pensar naquela que poderia ser, eventualmente, a melhor solução para a equipa. Quando cheguei, os jogadores estavam resignados, queixavam-se da sorte – e, de facto, nada lhes corria bem nessa fase.
RECORD – Teve, então, uma vida muito difícil…
NELO VINGADA – Posso-lhe dizer que este foi, enquanto treinador, o meu maior desafio. É verdade que quando peguei no Marítimo, em 1998/99, a equipa estava no último lugar mas reconheço que nessa altura foi bem mais fácil. Sou o tipo de treinador que dança conforme a música que toca e ao contrário do que muita gente possa pensar não sou defensivo.
RECORD – E na próxima época, como será? Mais um ano a sofrer?
NELO VINGADA – Temos um projecto para a próxima época que pretende proporcionar à equipa uma maior tranquilidade. Talvez seja possível juntar o pragmatismo dos pontos a um futebol mais espectacular…
RECORD - Com que jogadores?
NELO VINGADA - É fundamental manter o núcleo duro da equipa e apostar em quatro ou cinco jogadores de verdadeira qualidade que venham preencher determinadas lacunas no plantel. As soluções que todas as equipas procuram…
RECORD - E o que está a ser feito nesse sentido?
NELO VINGADA - Logo após o jogo com o Beira-Mar começámos a desenvolver contactos e neste momento faltam apenas pormenores institucionais para colocar o preto no branco.
RECORD – Para que posições?
NELO VINGADA - O mais importante é encontrar jogadores de qualidade e não para este ou para aquele lugar. Mas talvez seja contratado um jogador para cada sector.
RECORD – Sendo assim, quer dizer que vamos ter a Académica a lutar pelas competições europeias?
NELO VINGADA – O mais importante é consolidar o estatuto da Académica como equipa da SuperLiga. Nos últimos três anos o clube tem passado por grandes dificuldades para se salvar. O ano passado foi na última jornada, este ano foi quando ainda faltavam dois jogos para o final da prova. Era bom que a Académica atingisse um patamar como aquele que já foi alcançado pelo Marítimo, pelo Sp. Braga, pelo V. Guimarães. Uma vez adquirida a estabilidade, num ano bom a Académica pode olhar ainda mais para cima na classificação; pode superar-se e conseguir a qualificação para uma competição europeia.
RECORD – Amanhã defronta o FC Porto. Tem a noção do papel que a Académica pode vir a desempenhar?
NELO VINGADA – Eu diria que os Óscares não são apenas para os actores principais. Aqueles que têm papéis secundários também recebem um galardão. O nosso já foi ganho com a manutenção mas isso não nos impede de entrar no Estádio do Dragão com vontade de ganhar outro.
RECORD – Mas sabe que não é fácil motivar os jogadores…
NELO VINGADA - É verdade que depois do jogo houve um período de descompressão que, por acaso, coincidiu com a queima das fitas. Repare que foram quatro meses a acumular tensão, a viver em permanente angústia, com o coração nas mãos. Mas temos de fazer uma demonstração clara e inequívoca do nosso profissionalismo. A equipa vai ter de se reencontrar porque só uma Académica ao seu melhor nível pode tentar parar o FC Porto.
RECORD - Vai utilizar juniores?
NELO VINGADA - Não! Foram chamados durante a semana para treinar com os seniores por uma questão de incentivo à formação. Claro que temos alguns problemas, haverá pelo menos duas baixas em relação à equipa anterior e é natural que um ou outro jovem possa vir a ser chamado. Seja como for, no Dragão vamos continuar a ser pragmáticos e a defender. Mas também teremos de ser atrevidos. Não vai ser fácil para o FC Porto.
Equipa satélite é forte hipótese
RECORD – O projecto para uma equipa satélite ainda está nos horizontes da Académica?
NELO VINGADA – Está. Uma vez que o enquadramento legal nos permite essa alternativa, a Académica está a pensar na criação de um clube satélite, que, forçosamente, terá de ser próximo do ponto de vista geográfico. Seria um espaço importante para a evolução dos mais novos e uma forma da Académica poder emagrecer o plantel.
R – Com quantos jogadores pretende trabalhar na próxima temporada?
NV– 23 ou 34 no máximo.
R – Qual é a relação da Académica com a cidade e com os estudantes?
NV – Depois dos três grandes, do V. Guimarães, que tem, de facto, a capacidade para atrair os seus adeptos, e o Sp. Braga, esta época, a Académica consegue sempre arrastar um grande número de simpatizantes nos jogos fora. Há uma relação muito especial entre a cidade e o clube e os estudantes são uma peça fundamental na engrenagem da equipa e na prossecução dos nossos objectivos.
Técnico feliz num clube muito especial
RECORD – Ainda tem disponibilidade mental para mais alguma experiência no estrangeiro?
NELO VINGADA – Já estive três vezes a trabalhar no estrangeiro e, se recuar dez anos, admito que estaria longe de imaginar uma situação destas. Depois dos Jogos Olímpicos, em 1996, houve um litígio com a FPF e fui mesmo obrigado a emigrar. Seguiram-se outras experiências, sempre enriquecedoras, mas também uma grande vontade de regressar ao futebol português. Hoje, estou mais velho e a idade vai refinando as nossas ideias, a nossa vontade. E a minha vontade passava – e passa – por trabalhar em Portugal e por consolidar um estatuto no nosso futebol.
R – Na Académica?
NV – E por que não? Quem não gostaria de treinar a Académica? Sei que muita gente gostaria de viver a experiência que estou a viver. A Académica é um clube muito especial, porque há sensações que apenas existem na Académica.