José Afonso: «Belenenses tem limitações mas pode ser campeão»

JOSÉ Afonso é o homem do momento no Restelo. Nos últimos jogos apontou três golos, afinal aquilo que se lhe pede, e diz ter confirmado todas as boas referências que tinha sobre o Belenenses. Já adaptado, não hesita em colocar a fasquia, surpreendentemente, alta.

A manifestação de confiança surgiu a propósito de Jardel, jogador que substituiu no Grémio de Porto Alegre, e sobre a possível contribuição deste último para a conquista do título em Alvalade. "O Belenenses também está na briga", apressou-se desde logo a ressalvar o dianteiro azul, não deixando de surpreender. A explicação veio a seguir. "Porque não chegar à conquista do título? O campeonato está disputado e as equipas pequenas estão a crescer. O Belenenses tem limitações, mas pode ser campeão. Todos nos ajudamos uns aos outros. Temos garra, determinação e toque de bola. Digo, por isso, que é possível concretizar essa meta se todos conseguirem levar para dentro de campo a amizade que nos une fora dele e que nos fortalece. Quando a força é grande, é complicado derrotarem-nos. O objectivo é muito difícil, mas não o coloco de parte."

O brasileiro sente que pode tornar-se numa peça importante na campanha do Belenenses e afiança que a "jogar regularmente" pode apontar "uma média de quinze golos por época". "Quero fazer o maior número de golos e levar o clube o mais longe possível", sublinha José Afonso, um jogador a quem uma experiência na Europa surgiu demasiado tarde, mas que não quis desperdiçar.

"A minha transferência aconteceu por intermédio de Baidek, que eu conhecia de Porto Alegre. Disse-me que o Marinho Peres estava interessado e deu-me óptimas referências do Belenenses. Havia clubes brasileiros na corrida, mas não hesitei em aceitar o desafio, porque se tratava de uma experiência nova. Graças a Deus comprovei tudo o que me tinham dito."

A adaptação não podia estar a processar-se melhor, segundo garante o gigante do Restelo, que não esquece o papel de todos os compatriotas. "A existência de muitos brasileiros facilitou. Também já conhecia o Marinho Peres, que é uma pessoa sincera e honesta. No início, foi um pouco difícil, mas agora tudo está a caminhar para a normalidade."

Finalmente, no que se refere à sua enorme estatura - 1,92 m -, o artilheiro não nega que é "alvo de algumas brincadeiras, mas sadias". "Uns dizem que não tenho mobilidade, mas a verdade é que tenho uma boa "arrancada" e sei que posso dar muito mais ao Belenenses, visto que ainda não estou a cem por cento", conclui.

Da lavoura ao «Belém» numa década

José Afonso é natural de Conceição do Castelo, uma cidade interior do Estado de Espírito Santo, no Brasil e nasceu para o futebol apenas aos... dezanove anos, quando já nada o fazia prever.

Descendente de uma família humilde, mas "a quem nunca faltou nada, devido à força de vontade do pai", José Afonso frisa que, apesar de não ser rico, antes pelo contrário, teve "uma infância feliz". "Sempre tive amigos, sempre pude brincar e jogar futebol na condição de amador. Tive de abandonar os estudos, porque a minha cidade era subdesenvolvida. Tinha de ir a pé e, como nessa altura era preciso trabalhar na lavoura, não tinha outra alternativa."

O actual artilheiro do Belenenses carregava então "sacos com sessenta quilos de café", razão pela qual foi operado à coluna anos mais tarde, quando já estava no Grémio. "Os médicos disseram-me que arcava com muitos pesos. Perdi um ano de futebol, mas hoje estou completamente curado", assegura.

O futebol surgiu já em idade avançada. Aos dezanove anos. José Afonso explica como: "O presidente do Rio Branco, um clube local, pediu-me para fazer testes numa altura em que eu não tinha em mente ser jogador profissional. Acedi e o treinador gostou. Foi aí que começou a minha trajectória futebolística." A verdade é que nem tudo foram rosas. "Cheguei a desistir, porque pensava em sustentar a família e ganhava o ordenado mínimo. A lavoura dava mais. Contudo, a família e os amigos deram-me força e retomei a actividade."

A partir do momento em que se dedicou por completo ao futebol a ascensão foi rápida. Após passagens por clubes de menor dimensão no Brasil, chegou ao Grémio e hoje está a fazer a sua primeira experiência europeia, no Belenenses. "Entre os meus companheiros, poucos acreditam na minha hitória. Acontece um caso em cem semelhante ao meu, mas hoje estou feliz e posso dizer que represento um grande clube. No final da época, logo se vê o que é que é melhor para mim."

«Golo é uma alucinação»

Um golo tem sempre um significado especial para qualquer jogador, especialmente para aqueles que têm por missão específica marcá-los, ou seja, os ponta-de-lança.

Em Portugal, por exemplo, o antigo jogador do FC Porto, Fernando Gomes disse: "Um golo é como um orgasmo." Para José Afonso, marcar um golo "é uma alucinação."

O avançado brasileiro do Belenenses sente-se bem a marcar golos e desde que assumiu a titularidade na equipa tem feito jus ao estatuto de artilheiro e espera manter-se constante nas próximas jornadas do campeonato.

"É claro que pretendo voltar a marcar, se possível em todos os encontros, mas mais importante do que isso são as vitórias do Belenenses. Se não for eu a marcar, que seja um dos meus companheiros."

«A pomba simboliza paz»

No encontro frente ao Salgueiros, José Afonso festejou o golo obtido, juntando ambas as mãos, como se fossem asas a voar. "Um gesto espontâneo" com objectivo definido, como explicou.

"O gesto que fiz representa uma pomba da paz. Foi a maneira que encontrei para tentar transmitir um pouco de paz ao mundo, que vive dias de terror com os constantes ataques americanos ao Afeganistão, que se sucedem aos atentados terroristas em Nova Iorque."

José Afonso lembra, no entanto, que "não são apenas os acontecimentos mais mediáticos do momemento" que o levaram a festejar o golo daquela maneira. "Tentei simbolizar a paz, o carinho e a confraternização e é isso que quero ver no mundo, onde existem muitos inocentes a sofrer e a morrer por causa das guerras."

Operação obrigou a paragem de um ano

José Afonso foi contratado pelo Grémio de Porto Alegre exactamente na altura em que Jardel abandonava o clube gaúcho para se transferir para o FC Porto. O processo não decorreu, no entanto, como o ponta-de-lança previra, uma vez que teve de ser submetido a uma intervenção cirúrgica à coluna, que o obrigou a perder um ano.

O avançado azul considera, apesar de tudo, que a sua passagem pelo Grémio, clube ao qual ainda se encontra ligado, foi positiva. "Preparava-me para render o Jardel, mas apareceram-me dores nas costas que me impediram-me de jogar. Fui operado à coluna pelos melhores médicos. Disseram-me que estaria apto em cinco meses, o que não aconteceu e estive uma época inteira parado. Posteriormente fiz golos, fui feliz e hoje estou totalmente recuperado e sem qualquer problema."

Os três tentos já marcados

BEIRA-MAR: 1º GOLO

"Tratou-se do meu primeiro golo em Portugal ao serviço do Belenenses num encontro que não nos correu nada bem. Fiquei muito satisfeito com a obtenção do tento, mas não com o resultado de 1-5 que nos foi desfavorável. Não posso, porém, deixar de dizer que para mim foi algo de extremamente importante, apesar de não ter contribuído para inverter a tendência negativa que já se verificava nessa altura. Deu-me a tranquilidade que eu necessitava para continuar a trabalhar da melhor maneira e ganhar confiança, não só para ajudar o Belenenses como para encarar as partidas que iam seguir-se."

FC PORTO: 2º GOLO

"Outro tento bastante importante para mim e para o clube. Desta vez, ajudei a equipa a conquistar os três pontos em disputa. No final, eu saí fortalecido, assim como aconteceu com todo o grupo de trabalho, que tinha sido derrotado na jornada anterior pelo Beira-Mar. Por outro lado, e independentemente de ter ajudado a equipa a conseguir a vitória, é preciso não esquecer que o meu golo contribuiu para um triunfo muito significativo em termos históricos, porque o Belenenses já não ganhava nas Antas há vinte e sete anos. Tudo correu muito bem."

SALGUEIROS: 3º GOLO

"Este foi um jogo diferente, porque a minha exibição não foi positiva. Atacámos muito e tentámos marcar durante toda a partida, mas cometemos alguns erros e o golo só surgiu perto do final. A oportunidade surgiu, eu estava bem colocado e marquei, dando a vitória ao Belenenses. Tal como os outros, este foi um tento muito importante, que mostrou alguma regularidade da minha parte dentro da área contrária. Em conclusão, gostava de dizer que os três tentos que apontei foram fundamentais e a minha intenção é continuar a marcar para ajudar o Belenenses."

«Quero continuar a marcar no jogo frente ao Alverca»

Depois de três jogos consecutivos a facturar para o clube do Restelo, José Afonso pretende manter as "performances" no próximo encontro. "Em primeiro lugar está o Belenenses. É preciso mais uma vitória para a equipa, mas eu quero continuar a marcar golos. É isso que dá alegria a um ponta-de-lança."

«Pedi para não voltar a jogar a central»

"Pedi ao Marinho Peres para não voltar a meter-me nessas enrascadas." Foi assim que José Afonso comentou o facto de ter actuado a central frente ao Benfica. "Pensei que era pontual, mas fui ficando e até participei na jogada do empate. Estava com enorme vontade de ajudar e entrei cheio de confiança, mas espero que a história não se repita."

Fama de Zeca Afonso conhecida à chegada

O dianteiro brasileiro do Belenenses tem como homónimo um dos maiores cantores de intervenção em Portugal, exactamente Zeca Afonso. "No primeiro almoço com a Direcção do clube, o presidente falou-me dele e até sugeriu que usasse o mesmo nome, mas eu recusei, porque as pessoas iriam estranhar. Sei que foi um grande cantor em Portugal."

QUEM É QUEM

Nome: José Afonso Moreira Ferreira

Data de nascimento: 7 de Novembro de 1971, em Conceição do Castelo (Espírito Santo)

Clubes: Rio Pardo (Espírito Santo), Comercial (E. Santo), Rio Branco (E. Santo), Cruzeiro (Minas Gerais), Rio Branco (S. Paulo), Linhares (E. Santo), Gremio (Porto Alegre), U. S. João (Araras - S. Paulo), Botafogo (Ribeirão Preto), América Mineiro (M. Gerais), Atlético Paranaense (Paraná) e Belenenses.

Títulos: Duas vezes campeão Capichaba (E. Santo); campeão do Brasil (Gremio), campeão gaúcho (Gremio), Copa do Brasil (Gremio), Copa Sul (Grémio), campeão Sul-Minas (América Mineiro), campeão Paranaense (Atlético Paranaense)

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