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Humilde, brioso, autêntico. Foi assim, como diz quem conheceu Vicente Lucas como homem e jogador, o adeus dado esta quinta-feira no Estádio do Restelo perante cerca de um milhar de adeptos. Depois da missa de corpo presente na Capela do Mosteiro dos Jerónimos, onde se procedeu ao velório do "homem que 'secou' Pelé", como ficou conhecido na sequência da exibição memorável que conseguiu no Portugal-Brasil no Mundial de 1966, em Inglaterra, procedeu-se ao cortejo fúnebre até ao recinto onde fez carreira de Cruz de Cristo ao peito.
"O Vicente encarna uma série de valores que são cada vez mais raros de encontrar no desporto e, portanto, é uma referência incontornável. Eu digo sempre que o Vicente, quanto maior era, mais pequeno se fazia. E isso é apanágio das lendas, daqueles que são imortais", declarou Patrick Morais de Carvalho, presidente do Belenenses, no centro do relvado, aos jornalistas. Sobre a eventualidade de, num momento de dor, o grupo encontrar um alento suplementar para honrar a memória do ídolo agora desaparecido, vaticinou: "O Vicente vai ser o décimo segundo jogador em Coimbra e em todos os jogos até final da temporada. Ele era alguém que estava sempre muito próximo da equipa, vinha cá ver praticamente todos os jogos aqui no Estádio do Restelo, acompanhava muito, tinha alguma interação com os jogadores, com os treinadores e com o staff e não tenho dúvidas que a partida do Vicente deixa uma marca emotiva grande neste grupo de jogadores. Tenho a certeza absoluta que saberão dignificar o nome do Vicente e a sua grande vontade que era de ver o mais rapidamente possível o Belenenses de novo na 1.ª Liga."
Já diante do Mural dos Campeões, onde prosseguiu a homenagem e foi respeitado um minuto de silêncio, Paulo Sérgio, que venceu a Taça de Portugal em 1988/89 pelo Belenenses, com Vicente Lucas a integrar a equipa técnica, prestou também o seu tributo ao malogrado ídolo. "Foi um homem que tratou toda a gente como um semelhante. Sendo ele o gigante que era, nunca usou esse fato, nunca vestiu essa pele, sempre com uma humildade extrema, e é um homem que vamos sempre todos recordar, com muita saudade", assegurou, lembrando, emocionado: "São memórias que ficam para sempre, é o que acontece quando se tem 19 anos, há coisas que a gente não se esquece. Os conselhos, o início de um sonho, de uma carreira e o apoio de um homem amigo."
Os 'Magriços' António Simões e Hilário marcaram presença, assim como João Nuno, ex-treinador do Belenenses que agora comanda o Estrela da Amadora. O cortejo seguiu até ao Crematório de Barcarena e os restos mortais ficarão no Mausoléu do clube, no Cemitério da Ajuda, junto aos do seu irmão, Matateu.