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A noite foi de glória encarnada no Dragão, consumada a vitória que coloca os encarnados na liderança da Liga, seis pontos à frente do principal adversário. No palco onde a história lhe causa o embaraço de desvantagem clara, o campeão impôs-se com plano bem pensado e melhor executado, que não contemplou notas artísticas e fez apelo aos valores adultos de concentração, inteligência tática e sentido de responsabilidade para travar a máquina azul e branca.
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A vitória começou nesse plano de abordagem ao jogo; nas leis ditadas por Jorge Jesus que, dando lustro ao título de mestre da tática, anulou a força coletiva do adversário, à custa de uma ideia global que também contemplou o triunfo em quase todos os duelos individuais na hora e meia. Se o clássico foi decidido por conceitos gerais, a verdade é que o sucesso da águia, à semelhança das últimas conquistas, será o clássico de Lima, como sucedeu com César Brito (1990/91) e Nuno Gomes (2005/06) nas anteriores vitórias no reduto azul e branco.
O FC Porto, que teve mais bola e intenção ofensiva, entregou-se à fatalidade da desinspiração. A equipa de Julen Lopetegui não acionou um plano B e só depois da entrada de Quaresma foi verdadeiramente perigosa e ameaçadora. Um Benfica austero do ponto de vista exibicional não sofreu excessivamente para conseguir o melhor resultado da época.
Grãos na engrenagem
O Benfica apresentou-se no Dragão muito senhor de si, com a lição bem estudada e o escrupuloso cumprimento do plano traçado por Jorge Jesus. Os campeões nacionais começaram por revelar irrepreensível posicionamento em campo, obrigando o FC Porto a jogar com passes mais diretos do que é habitual; prosseguiram com agressividade na procura da bola e não hesitaram em subir as linhas para lá do meio campo. Nunca perderam posição e roubaram tempo (para pensar) e espaço (para jogar) ao adversário. Durante meia hora, pode dizer-se que a tarefa benfiquista, em termos estritamente estratégicos, foi cumprida pela metade; os encarnados introduziram grãos de areia na engrenagem azul e branca, impediram que o dragão desenvolvesse um jogo ofensivo de qualidade e satisfizeram-se apenas com a primeira (mas muitíssimo relevante) consequência do plano: o FC Porto, enervado com o colete-de-forças que lhe tolheu os movimentos e lhe turvou as ideias, não teve soluções alternativas ao futebol que o caracteriza.
Aos 32 minutos, Jackson teve a primeira grande oportunidade, ao rematar para boa defesa de Júlio César. Quatro minutos depois, na sequência de lançamento de linha lateral, o Benfica fez o primeiro golo, numa fase em que ambas as formações pareciam mais desejosas do intervalo do que outra coisa qualquer.
Poupadinho
Para o segundo tempo, duas diferenças automáticas: Jorge Jesus optou por pressionar mais atrás, Lopetegui procurou libertar Brahmi da prisão em que viveu, encarcerado na esquerda, anulado pelo instinto implacável de Maxi Pereira – o uruguaio mal deixou o argelino tocar na bola. Estava ainda por clarificar o terceiro fator que explica o resultado: a estrelinha benfiquista que lhe permitiu elevar para 2-0, aos 55 minutos, no lance em que fez os dois únicos remates à baliza de Fabiano – o de Talisca, que o guarda-redes não segurou, e o de Lima, que fez o golo.
Só em desespero o FC Porto levou o jogo para a grande área encarnada; só com o talento de Quaresma, chamado quando o jogo estava perdido, a equipa se atirou para a frente, criou oportunidades e pode reclamar a infelicidade de algum desperdício. O treinador do FC Porto disse que a sua equipa foi melhor em tudo menos no resultado. Percebe-se o fundamento da expressão. Mas não foi verdade.
O homem do jogo: Lima
Numa fase complicada da época, foi titular surpreendente no Dragão. Que estava mal e a pontaria se tinha perdido... O brasileiro deu razão a Jorge Jesus, reencontrou todos os argumentos de goleador e acaba de entrar na história benfiquista.
Árbitro: Jorge Sousa (nota 4)
Num jogo de coeficiente de dificuldade máximo, Jorge Sousa assinou exibição de nível superior. Geriu o jogo como quis, manteve coerência técnica e esteve bem em quase todos os lances difíceis.
NOTA TÉCNICA
Julen Lopetegui (2)
Quando se apercebeu dos parâmetros em que o jogo estava a desenrolar-se, viu que a máquina estava perra e sem soluções. Não teve plano B para o desvario. Melhor: tinha Quaresma, mas só o meteu com o jogo perdido.
Jorge Jesus (5)
Deu uma grande lição de estratégia no Dragão. Não só por vencer mas porque muitos dos argumentos que explicam o resultado se devem a opções estratégicas. Contra o senso comum, teve ainda a ousadia de preferir Lima a Jonas.