São cinco os treinadores que comandam equipas da 1.ª Liga que não estão habilitados para o efeito em competições de caráter oficial. Estão nessa situação Marco Silva (Estoril), Nuno Espírito Santo (Rio Ave), Paulo Fonseca (P. Ferreira), Pedro Emanuel (Académica) e Sérgio Conceição (Olhanense), técnicos que não conseguem, desde há mais de dois anos, concluir os cursos de 4.º nível, grau exigido para poderem exercer as suas funções de pleno direito.
Em causa está o articulado da lei 40/2012, que veio alterar o paradigma em relação ao plano nacional de formação de treinadores. Legalmente, a prerrogativa de formar técnicos passou a estar aberta a outras entidades que não apenas a FPF.
Perante o desconforto legislativo, várias federações – entre as quais a própria FPF – alertaram para a inexequibilidade do projeto. No caso específico do futebol, acrescente-se a existência de protocolos de âmbito internacional, nomeadamente com a UEFA. O organismo que tutela a modalidade a nível europeu obriga, mediante convenção, a que seja a FPF a deter o exclusivo da formação de treinadores. Uma situação que colide com os preceitos da nova lei.
Esforços
Nunca se alheando dos problemas, a secretaria de Estado do Desporto e Juventude decidiu formar uma comissão, incumbindo-a de fazer um relatório que desse contributos positivos para uma melhor articulação entre a lei atual e as pretensões das diversas partes interessadas.
Nessa comissão estiveram representados, além da própria secretaria de Estado, o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) – entidade que valida e atribui os títulos de treinador principal –, o G17 (número de federações que exige reajustar a lei), a Confederação de Treinadores (CPAT) e o Ensino Superior.
O relatório, segundo Record apurou, já foi entregue em meados de novembro, estando em fase de estudo e análise por parte do secretário de Estado, Alexandre Mestre. Espera-se que a todo o momento possa surgir um novo despacho regulamentar que contenha contributos da referida comissão.
De acordo com indicações que já foram dadas a vários agentes desportivos, há a perspetiva de os cursos de formação de treinadores, neste caso dos de futebol, regressarem já no próximo ano em moldes relativamente parecidos com os anteriores, isto é, ministrados pela FPF ou sob a supervisão desta.
O QUINTETO EM QUESTÃO QUE TRABALHA NA 1.ª LIGA
Marco Silva: «Não nos
deixam ficar habilitados»
“É uma realidade que, desde há dois anos a esta parte, tento concluir a minha formação e isso não me tem sido permitido. Está tudo parado e nem nos tem sido dada a possibilidade de ficarmos habilitados. Temos sido informados acerca de uma mudança de planos na formação, mas isso não deixa de causar alguma estranheza, na medida em que a formação em Portugal é boa. Basta olhar para os nossos treinadores para se perceber que os cursos são bem ministrados no nosso país. É muito importante que os mesmos tornem a realizar-se, sob pena de termos de fazer os nossos cursos no estrangeiro. Os cursos eram realizados pela Federação Portuguesas de Futebol e deixaram de se realizar.”
Nuno Espirito Santo foi o
único que optou pelo silêncio
Contactado por Record, o treinador do Rio Ave – via assessoria de imprensa do clube de Vila do Conde –, preferiu não fazer qualquer tipo de comentários em relação ao assunto, apesar de estar ao corrente da atual situação e de, provavelmente, também já ter tentado concluir a sua formação. Nuno Espírito Santo, refira-se, estreou-se esta temporada no cargo de treinador principal e, tal como acontece com os homólogos de Estoril, Académica, Paços de Ferreira e Olhanense, não possui o 4.º nível. No defeso, concluiu com sucesso o curso de 3.º nível na Escócia, à semelhança do que aconteceu há uns anos com José Mourinho e André Villas-Boas.
Paulo Fonseca: «É uma
situação aborrecida»
“Existe vontade da nossa parte em terminar os nossos cursos, mas eles não estão a ser ministrados. Encaro, naturalmente, a possibilidade de terminar a minha formação no estrangeiro, desde que as datas o permitam. É uma situação aborrecida. Julgo que tem havido um esforço para colmatar esta lacuna, mas enquanto isso não der resultados práticos, estou impedido de figurar na estrutura do meu clube como técnico principal. Portugal tem formado excelentes treinadores e isso devia ser mais valorizado. Não percebo a vontade de retirar os cursos da alçada da FPF. Quero concluir a formação no meu país, mas não existem alternativas.”
Pedro Emanuel:
«Estamos muito limitados»
“É uma situação que me preocupa. Como jogador, já tinha alguma dificuldade, mas acabei por tirar o curso de 1.º e 2.º nível. O 3.º e o 4.º exigem uma presença mais assídua, mas desde 2009 que não são ministrados. Nós queremos concluir a nossa formação, mas estamos muito limitados. Ou vamos ter de recorrer ao estrangeiro, onde as datas não permitem a um treinador em atividade frequentar o curso, ou então teremos de esperar que a situação evolua. Todos os anos nos têm dito que há negociações entre o Instituto Português do Desporto e Juventude e a FPF, mas a verdade é que não nos tem sido possível adquirir essa formação.”
Conceição: «Aconselhável
haver exceções»
“Tirei o 2.º e 3.º nível na Bélgica durante um ano. Tenho um diploma da UEFA que assinala a grande distinção com que realizei essa formação. Foi um pouco difícil, porque tive de aprender corretamente a língua francesa. Tratou-se um curso com diversas fases, mas muito exigente. Pela experiência que já adquirimos, quer como jogadores quer já como treinadores, era aconselhável que se criassem alguma exceções que permitissem a conclusão da formação, a qual nos permite exercer a atividade com o estatuto de treinadores principais. Há indicações de que os cursos de formação vão ser retomados em breve. Seria bom que isso acontecesse.”