A ponta final do jogo já não perspetivava uma resolução tática: o FC Porto queria mas revelava desgaste físico e emocional para manter o futebol pressionante de toda a segunda metade; o Benfica, depois de largos minutos demasiado encolhido e sem iniciativa, sentia por fim o conforto de poder gerir o resultado que lhe permitiria sair do Dragão com vantagem para a última jornada.
Jorge Jesus alterou a equipa para equilibrá-la (troca de Gaitán por Roderick), refrescá-la (Lima por Cardozo) e muni-la com melhores armas na posse de bola (Ola John por Aimar). Vítor Pereira foi obrigado a mexer por lesão de Fernando (entrada de Defour) e, já no último quarto de hora, quando percebeu que pouco podia acrescentar, não olhou para trás: lançou Kelvin que, em situação semelhante, tinha dado a vitória sobre o Sp. Braga e, cinco minutos depois, escolheu o excomungado Liedson para o assalto final. Acabariam por ser eles os obreiros da vitória sobre o Benfica e, muito provavelmente, da conquista do título.
Equilíbrio
Dez minutos bastaram para que o jogo estabilizasse no filme aguardado, isto é, um FC Porto subido, tentando jogar com bola no meio-campo adversário, intenção que pressupunha pressão alta de modo a retomar a iniciativa o mais à frente possível. Respondeu o Benfica nos moldes denunciados pela opção de Jorge Jesus em atuar só com um ponta-de-lança: concentração coletiva; inteligente ocupação do espaço; bom tempo de entrada aos lances, sempre de olhos postos na possibilidade de se soltar em transições ofensivas rápidas.
O primeiro grande mérito dos encarnados no jogo, para lá do golo apontado por Lima, foi o modo como superaram o primeiro impacto do inferno do Dragão; a capacidade revelada para se focarem apenas no jogo, nas suas incidências e nas suas dificuldades, indiferentes ao clima hostil que emanava da bancada. Em contrapartida, o FC Porto, que teve sempre uma intenção atacante, acusou mais a responsabilidade do momento, revelou mais nervosismo e tornou-se menos preciso em ações, gestos e movimentos individuais e coletivos. O 1-1 ao intervalo era consequência da única oportunidade de golo das águias e de um lance fortuito dos dragões, marcado pela infelicidade de Maxi Pereira.
Benfica encolhido
O segundo tempo foi diferente, porque o FCPorto foi mais intenso e agressivo na posse de bola que sempre promoveu. Mesmo sem criar fraturas graves na muralha defensiva adversária, os campeões acentuaram o domínio e empurraram o Benfica para o seu último reduto, de onde demorou muito tempo a sair. Os encarnados recuaram em demasia e quase abdicaram de jogar; entregaram-se ao exercício de travar o ímpeto azul e branco mas sem ambição de atacar a baliza de Helton. Até entrar no derradeiro quarto de hora, o jogo foi aquilo que o FCPorto quis e pôde fazer.
Quando os treinadores começaram a mexer nas equipas, a verdade é que o Benfica tinha entrado numa fase mais confortável: já não sofria com o caudal atacante do adversário e tinha conseguido arrastar o centro de operações para zonas mais próximas do último reduto portista. O golo de Kelvin, a passe de Liedson, foi um sinal de que, por vezes, os deuses também jogam. E quando se lhes mete uma coisa na cabeça...
ÁRBITRO: Pedro Proença. Boa arbitragem do juiz lisboeta. Manteve serenidade num clima de grande tensão. Aos 85’, James atirou ao poste, saindo de fora-de-jogo. O erro do colombiano salvou-lhe a atuação. (4)