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Vítor Severino dá a receita para duelo com o Famalicão: «Queremos ser proativos mas não sôfregos»

Treinador do Arouca perspetiva um desafio que "pode ser taticamente muito interessante"

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A 11.ª jornada da Liga Portugal Betclic arranca esta sexta-feira, às 20h45, com o Famalicão a receber o Arouca, atual 5.º classificado. Na conferência de imprensa de antevisão à partida, Vítor Severino disse esperar um jogo "que pode ser taticamente muito interessante", apelando a que a sua equipa seja "proativa", mas sem ser "sôfrega".

O que espera deste Famalicão e do jogo de amanhã?

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“Só no final do jogo é que vamos saber, porque realmente não é muito linear. Eu entendo a questão, mas o que esperar... Da nossa parte sabemos que vai ser um jogo difícil, sem querer ser redundante, mas efetivamente vai ser difícil, todos os jogos são difíceis. As equipas têm muito talento. O Famalicão tem mesmo muito talento individual. Coletivamente é uma equipa com timings, especialmente ofensivos, muito específicos e isso exige uma resposta estratégica da nossa parte diferente daquilo que tem sido nos últimos jogos. A forma como eles querem construir, a forma como eles querem atrair os jogadores para depois explorarem e atacarem o espaço com velocidade, o talento que tem disponível no onze inicial e no banco torna a tarefa obviamente difícil. Não é que seja mais difícil do que as últimas, ou menos difícil, mas é um problema diferente, e indo ao encontro daquilo que eu tenho dito aqui sempre, a ideia é em cima da nossa identidade, daquilo que são os princípios mais gerais, digamos assim, daquilo que é a nossa filosofia, a nossa forma de estar no jogo, que é uma coisa até subjetiva, mas que tem a ver com querer ter a bola, valorizar o talento, queremos ser proativos sem sermos sôfregos, sabermos gerir o timing e o ritmo do jogo para no momento certo podermos atacar o espaço ou recuar. E é essa maturidade que eu acho que a equipa tem vindo a construir. Acho que vai ser um jogo difícil, tenho a certeza que vai ser um jogo difícil para as duas equipas. Pode ser um jogo taticamente ou estrategicamente interessante. Espero que seja e espero que a nossa equipa consiga desmontar o problema, foi para isso que trabalhámos durante a semana, para o jogar para ganhar, que é o que temos feito sempre, valorizando uma identidade, uma filosofia, um estilo que no fundo é aquilo que nos une, é aquilo que dá sentido e também emoção ao processo de treino. Não gosto de linearizar muitas coisas e pensar só no adversário como um problema estrutural para atacar ou para defender. É sempre em cima de alguma coisa que tem a ver com a filosofia, com o estilo. E é isso, sem perdermos a nossa identidade, tentar desmontar esse problema, treinamos para isso, para jogar para ganhar.”

Todos os jogos que venceu para a Liga foram pela margem mínima, 1-0. Na paragem que se aproxima, a finalização vai ser trabalhada?

“A finalização, o último passe, o momento defensivo, a pressão, o timing, todas as coisas têm de ser trabalhadas. Existe muito essa tentação, essa tendência para pensarmos assim «a equipa não marcou muitos golos, temos de trabalhar a finalização», «a equipa de sofreu muitos golos, temos de trabalhar o momento defensivo» e se isso resultasse, normalmente os problemas resolviam-se sempre e não é o caso. Eu gosto de pensar no processo de treino como algo um pouco mais global e complexo, porque a finalização não acontece isolada no jogo, acontece após uma construção, acontece após uma recuperação de bola, é um pouquinho mais complexo do que isso. Não acho que a equipa tenha feito poucos golos porque treinou pouco a finalização ou porque tenha de aprimorar muito o trabalho técnico da finalização. São coisas que acontecem no jogo. Nós criámos oportunidades para isso, não fizemos, os adversários também conseguimos defender, mas gosto de pensar nessa questão de uma forma um pouquinho mais complexa, de pensar nos momentos todos juntos no próprio treino. É óbvio que há coisas que por vezes têm de ser mais trabalhadas, mas, pensar dessa forma, acho que torna as coisas um pouco lineares. «Se fizer A acontece B, se fizer B acontece C», o futebol não funciona assim, é muito mais caótico do ponto de vista da complexidade, da confusão, do que isso. Portanto, trabalhar a finalização, sim e trabalhar todas as outras coisas, trabalhar a nossa ideia de jogo do ponto de vista global. É isso que vamos fazer na paragem, como temos feito sempre, com a vantagem ou desvantagem, com a questão específica de não termos, durante algum tempo, um adversário para desmontar, então podemos ter mais tempo em cima da nossa ideia de jogo e simular diferentes problemas de possíveis adversários que possam fazer coisas diferentes: construções com três, com dois, com quatro, linhas de cinco, linhas de quatro, blocos muito baixos, blocos muito altos, que é isso que temos andado a fazer no treino, por sempre a nossa ideia de jogo à prova no próprio treino, para não sermos apanhados de surpresa depois no jogo.”

Visto que a paragem se aproxima e a equipa está num excelente momento, esta pode ser negativa por quebrar o ritmo?

“Acho que não. Acho que nós temos sempre mecanismos de autodefesa, nós todos, as pessoas. Há chavões, há coisas no futebol e essa é uma delas. «A equipa está bem, será que a paragem não vai ser má?» Se perdermos o jogo após a paragem, podemos dizer que sim, foi a paragem. «A equipa perdeu o jogo e queria jogar já daqui a dois dias porque estamos com uma vontade enorme de vencer.» São frases feitas, lugares comuns, alguns deles fazem sentido, outros não, mas gosto de olhar com um pouquinho mais de profundidade. Não é bom nem é mau, é o que é. O treinador tem de planear, ver o que é que quer fazer nestes dias. O descanso também faz parte do treino, parte emocional do treino, tipo de exercícios, que momentos, mas não acredito que seja dessa forma. Não acredito que seja quando se perde um jogo e a equipa acaba bem o jogo, queria logo jogar passado os dois dias porque são lugares comuns do futebol. «Agora vamos ter uma paragem, estamos num momento muito bom, será que isso vai ser mau?» Entre outras coisas. Nós temos esses mecanismos constantemente. Às vezes uma equipa perde na pré-época: «perdemos, mas ainda bem que foi agora, para não perdermos depois». Há sempre alguma coisa, um argumento que nós temos para nós próprios, para nos dar conforto. E eu tento ser racional nesses momentos e fugir desse conforto, porque o futebol e a competição têm muitos momentos de desconforto e temos de estar preparados para eles. Se agora a paragem vai ser um momento de desconforto? Julgo que não porque o ambiente está muito positivo, muito bom. Tenho uma equipa, como já disse em vários momentos, muito feliz e que trabalha muito. Também já disse que, e talvez tenha sido mal interpretado, no final de um jogo «se houvesse um campeonato de treino, nós disputávamos o título». Não disse isso para valorizar a abordagem estratégica daquele jogo, disse-o porque a forma, a intensidade, o empenho, a capacidade de ler aquilo que é pedido no treino e que estes jogadores fazem, como fazem todos os dias, leva-me a dizer isso. Eu estou a usufruir muito, muito, muito de ser treinador do Arouca porque tenho um grupo que trabalha muito, que trabalha bem e eu acho que as pessoas rendem muito mais quando existe esse espírito positivo. Portanto, a paragem vai ser mais uma oportunidade de manter esse espírito, de trabalhar o nosso modelo de jogo, a nossa ideia de jogo e de, enfim, também fazermos coisas que não podemos fazer agora, como, por exemplo, descansar, que também faz parte do crescimento de uma ideia de jogo.”

Dos primeiros para os últimos jogos fez alterações no posicionamento dos jogadores no meio-campo. Tem trabalhado estas mudanças?

“Eu tento passar a mensagem aos jogadores de que para pensarem muito menos na posição e muito mais na função. E isto é uma mensagem clara para sentir o seguinte, quando falo com o jogador: será que aquilo que tu fazes de melhor está a ser colocado ao serviço da equipa fazendo isto? Ou poderás ser ainda melhor e trazer mais características tuas se tiveres também a liberdade para fazer isto? Esta é uma abordagem que eu tento ter. Outra abordagem é dizer «olhe, estás a jogar como oito e eu quero que jogues como dez». Isso automaticamente vai colocá-lo numa caixa de constrangimentos, porque o jogador, muitas vezes, sendo que o treinador lhe está a passar uma informação, está a mudá-lo de posição. E não é o caso. Eu tento olhar para o jogo e para o treino de outra forma. Eu quero mais de função e menos de posição porque a estrutura é realmente muito estática. Existem muitas estruturas iguais, mas não existem dois sistemas iguais. Existem muitos 4x3x3, mas não existem dois sistemas 4x3x3 iguais. A estrutura é 4x3x3, mas o sistema é a interação entre esses jogadores. E como não há duas equipas iguais, dois jogadores iguais, aliás, basta numa equipa entrar um jogador e sair outro que o 4x3x3 já é um sistema completamente diferente, porque um tem mais chegada, ou menos, ou, estrategicamente, eu entendo que dentro de um sistema 4x3x3 há um que deve saltar mais a pressionar e se for outro jogador que já não o deve fazer. Porquê? Não pela função 8 na minha equipa, porque isso não existe, mas pela função do jogador 8 que entrou naquele momento. Tentar tirar o melhor de cada um deles. Eu acho que existe muito potencial ainda aqui por ser explorado e tento passar essa mensagem aos jogadores. Não vou mudar a posição de ninguém, mas vou tentar extrair aquilo que de melhor eu acho que podem fazer, mesmo que numa fase inicial isso possa causar algum desconforto tático ou posicional. Os jogadores também vivem muito hoje, vivemos todos, numa era de comunicação, de redes sociais e fomos bombardeados com feedbacks. Depois existe a nossa família, os agentes, muita gente à nossa volta a passar informação. Ao passo que eu, enquanto treinador, com a quantidade de danos acumulado, consigo sentar, fechar a porta do escritório, pensar naquilo que quero para a minha equipa e ter a capacidade de também ouvir os jogadores porque não é só aquilo que eu penso. Muitas vezes penso, engano-me, ouço, há um feedback de um jogador que acrescenta algo àquilo que eu decidi e mudo. O jogador não é bem assim. Se fizer um mau jogo, e tiver uma função ligeiramente diferente, vai receber as notícias que disseram que o treinador colocou-o a jogar numa posição um pouco mais recuada, ou jogou numa posição mais alta e vai ficar agarrado só a isso e o futebol nunca é só isso. Portanto, tenho feito algumas alterações de função e com o mesmo jogador, pode acontecer, ou com a mesma equipa, os jogadores ocuparem funções diferentes. Para vocês que estão a ver o jogo, pode aparentemente parecer que eu passei para o 2-1, mas eu nunca falei sobre isso durante a semana. Ele vai aparecer mais vezes alto no campo porque lhe dei uma função de estímulo, de reação, para pressionar, diferente e ele, naturalmente, aparece mais alto ou de tentar atacar o espaço para entrar à profundidade de uma determinada forma e parece-vos que o jogador está a jogar mais como o 10, mas eu nunca lhe disse, nem nunca falámos e, se lhe perguntarem, vai dizer que não «o míster não disse que eu ia e eu não joguei como 10». Pode ter aparecido mais vezes ali, ou não jogou como 8, ou o lateral está mais dentro, ou mais fora, depende. Pode parecer mais complicado, mas eu acho que é muito mais simples e tem sido simples falar com os jogadores sobre isso. No fundo é «as tuas características são estas, acho que tens potencial para crescer ainda para este momento, para além do que fazes, podes ocupar também por dentro ou por fora, entendes isso? Estás disponível? Sim? Vamos trabalhar». Tudo o que for melhor para o Arouca crescer e para aumentar as probabilidades e possibilidades de ganharmos os jogos. Acho que a resposta foi um pouco longa. Não sei se respondi à pergunta. Não é para desmontar ou dizer que é uma observação errada. Eu entendo-a, mas tento fazer isso mais simples aqui. Não tanto pela parte estrutural, mas pela parte da função. Tentar retirar aquilo que cada um deles tem de melhor, no momento ofensivo e defensivo, e colocar ao serviço da equipa. Nuns jogos eles vão fazer uma coisa e noutros vão vê-los a fazer outras. Quando ganharmos vai parecer que foi fantástica a decisão e quando perdemos que não foi. Mas a função também é filtrar isso e analisar o processo, sabendo que o resultado ajuda a validar e ajuda o jogador a aceitar mais. Todos nós, quando se ganha, quando a emoção é boa, quando acontece alguma coisa positiva associada ao que fazemos, temos tendência para recordar, para aprender e para ficar com aquilo na nossa memória. É isso que eu tento fazer no treino, todos os dias. Menos posição e mais função.”

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