Vítor Severino em estreia pelo Arouca: «Queremos otimizar sem mudar drasticamente»
Novo treinador confiante e entusiasmado nesta primeira aventura a liderar uma equipa
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Vítor Severino prepara-se para fazer no Arouca a sua estreia como técnico principal e, na conferência imprensa de antevisão ao encontro frente ao Estrela da Amadora, para além de analisar o adversário, falou sobre a sua visão no futebol e da sua carreira.
Sendo amanhã a sua estreia, o que é que podemos esperar de Arouca e Estrela da Amadora?
“Essa é uma pergunta que vai ser difícil. Não sei muito bem o que é que podemos esperar. Nós sabemos o que é que preparámos para o jogo, sabemos quais são as características do adversário, que tem um padrão, uma identidade muito bem definida. Realmente, é uma equipa que fez um bom arranque, bons resultados. Não só bons resultados, mas também com uma estrutura, uma dinâmica de jogo de bastante agressividade no momento em que tem a bola e no momento em que não tem a bola. Nós sabemos o que é que eles são, qual é a identidade da equipa deles e sabemos como é que nos preparámos para esse jogo. Agora, aquilo que vai acontecer, vamos ver. O futebol tem essas coisas, não é? É demasiado complexo para linearizarmos e dizermos: «Eu sei o que é que vai acontecer». O que é que eu gostaria que acontecesse, eu sei, e a equipa está muito preparada nesse sentido: para mantermos uma identidade que foi sendo criada aqui, de valorização do jogo e respeitando aquilo que são as componentes que têm a ver com o adversário. Ou seja, no fundo, maximizar ao máximo, trazer ao de cima aqueles que são os nossos pontos fortes: capacidade de ter um jogo associativo, de atacar a profundidade de forma mais equilibrada, tentando bloquear aquilo que são os pontos fortes do adversário, que têm muito a ver com o jogo de profundidade, com essa agressividade de que já falei, no momento em que tem a bola e no momento em que não tem a bola. Eu espero que seja um bom jogo, acima de tudo, porque gosto de valorizar aquilo que é o futebol e acho que é importante. Tenho passado também essa mensagem aos meus jogadores: retirarmos prazer daquilo que é o jogo, da parte estética, da componente estética daquilo que é o jogo, e escolher a forma de ganhar, que passa a ser também a forma de perder, ou seja, a equipa construir, ao longo do tempo, uma identidade muito clara que nos permita ganhar, mas também perder, obviamente. Portanto, eu espero que seja um bom jogo. Espero que a minha equipa, obviamente, saia a ganhar, mas, quando digo bom jogo, digo um jogo com fluidez, com capacidade, com valorização do talento, que possa também promover aquilo que é o produto do futebol português e, acima de tudo, o projeto Arouca deste clube e dos seus jogadores.”
Abraça um novo desafio, já com a época em andamento. Pergunto se, de alguma forma, foi mais fácil começar nesta pausa das seleções?
“Mais fácil foi, obviamente. Recuando um pouco, eu trabalhei durante muitos anos, nos últimos dez anos, com o treinador Luís Castro e, no momento em que decidi que poderia dar o passo de abraçar um projeto como o Arouca, facilitou um pouco as coisas o facto de haver a paragem e de eu também estar parado naquele momento. E, sim, permitiu-me ter mais tempo para respirar, chegar, conhecer a casa, conhecer os jogadores, conhecer a equipa, conhecer o projeto. Acabou por ser uma coisa muito rápida, porque, realmente, as coisas aconteceram com muita fluidez. Senti sempre muita vontade, da parte das pessoas do Arouca, de que eu viesse realmente para este projeto, e isso foi a maior força. Depois, passei a mensagem aos jogadores, no início, de que respeito muito aquilo que eles já fizeram. Realmente, tiveram um bom começo, mas passei uma mensagem muito clara: aquilo que pretendo que exista é, e transformei isso numa frase, «nós contra nós», sempre. A ideia é essa: otimizar tudo aquilo que já foi feito, respeitando aquilo que eles fizeram. Mas o caminho é sempre aqui e agora, apontando para o futuro. Conseguimos, sim, ter algum tempo para trabalhar, conhecer os jogadores, manter muito daquilo que são as coisas que eles têm, que lhes trouxeram conforto, ou melhor, com as quais se sentem confortáveis no jogo ofensivo e defensivo: estruturas, dinâmica, formas de estar no jogo ofensivo, de pressionar, em termos de organização, enfim. Tudo aquilo que é o jogo. Mas com uma frase que eu quero que seja o nosso lema: «nós contra nós». Ou seja, otimizar sempre. Podemos sempre fazer alguma coisa melhor e foi essa a mensagem da semana. Pegar em tudo aquilo que eles já fizeram bem e tentar otimizar já a partir do próximo jogo, no caso, o de amanhã, com o Estrela da Amadora.”
O plantel parecia estar formatado para uma determinada ideia de jogo, com determinadas características. Qual é a sua ideia de jogo? E, sendo uma experiência nova, como é que se sente aí?
“Sinto-me muito bem, obrigado. Sinto-me muito bem. Eu, felizmente, passei muitos anos, quase dez, com um treinador com o qual passámos por diferentes contextos, diferentes países e competições. Jogámos para ganhar títulos, jogámos em equipas que não jogavam para ganhar títulos. Trabalhei com jogadores de elite mundial, trabalhei com outros jogadores que não estão próximos dessa elite, digamos assim. Por isso, já passei por tanta coisa que realmente me sinto muito bem neste papel, apesar de o líder ter sido sempre o Luís Castro, uma pessoa que respeito imenso. E aproveito para dizer que, das oportunidades que fui tendo para estar aqui nesta posição, como falou, quando falaram comigo noutras ocasiões, disse sempre: «A minha situação será sempre muito mais ética do que contratual». Eu jamais sairia para ser treinador principal sem resolver por completo e deixar muito bem estabelecida a minha relação de amizade e de respeito pela pessoa que me deu todas as oportunidades de chegar onde estou e de estar aqui sentado a falar convosco. Indo ao encontro daquilo que disse há pouco, o timing e a paragem permitiram-me isso e, claro, também a vontade das pessoas daqui. Depois de resolver isso, sim, a motivação é muita. Estou muito confortável por estar aqui sentado neste lugar. Queria muito abraçar, nesta fase da minha carreira, um projeto como este.
“Sobre o plantel, eu tenho uma forma de pensar. Acho que os treinadores — e, quando falo, é a minha opinião — todos têm uma ideia de jogo. Você terá a sua também. Aquilo que mais valoriza quando está a ver um jogo: uma equipa mais direta ou mais agressiva? Talvez um de vocês goste mais de ver o Barcelona, outro goste mais de ver o Liverpool, outro goste mais de ver o Arouca e outro goste mais de ver outra equipa qualquer da Primeira Liga. Porquê? Porque há coisas que valorizam mais no jogo. Está tudo bem, cada um tem a sua ideia. Agora, acredito que a ideia é uma coisa que existe sempre connosco, vai crescendo, vai evoluindo. Em dez anos, a minha ideia foi sendo construída, cresceu. No início da minha carreira, talvez fosse mais romântico. Talvez agora mantenha isso, mas tenha uma forma diferente, enfim, por todo o contexto em que tive a oportunidade de estar. Eu vejo as coisas assim: tenho a minha ideia, mas o meu modelo de jogo, digamos assim, a minha forma de construir um jogar específico que quero, depende do contexto. É muito claro para mim. A minha ideia vai ser semeada aqui, mas em função daquilo que é o contexto. É nisso que acredito. Se daqui a uns tempos estiver noutro contexto diferente, a minha ideia é exatamente a mesma, mas vou construir as coisas de forma ligeiramente adaptada para ter sempre o máximo rendimento daquilo que é o plantel. Vai haver ajustes, como é óbvio. Não há dois treinadores iguais e acho que isso é o que faz o futebol crescer. Como já disse, é otimização, é «nós contra nós», sempre. Foi essa a mensagem que passei ao grupo, do ponto de vista individual e coletivo. Mas estou muito confortável com aquilo que é a construção do plantel. Há muita valorização do talento aqui. Os jogadores têm uma vontade enorme e tive uma semana muito boa, de grande alegria e motivação, porque o grupo é fantástico. Grandes profissionais, 13 nacionalidades diferentes. É o contexto ao qual estou habituado, já que, nos últimos anos, foi normal isso acontecer. Estou muito satisfeito por estar a construir uma ideia de jogo, porque queremos otimizar aquilo que foi construído, sem mudar drasticamente só porque o treinador chegou e tem uma ideia diferente. Isso, para mim, não existe. Como já disse, existe a minha ideia e depois existe a construção do modelo. É isso que estou a fazer no dia a dia, com os valores que tenho.”
Ficou mais confortável por encontrar uma equipa com um futebol mais associativo?
“Se fico mais satisfeito com isso e mais feliz? Sim, claramente. Eu valorizo e gosto disso. Passei essa mensagem aos jogadores. E, obviamente, também tem a ver com a minha decisão de abraçar este projeto, porque houve uma série de coisas que bateram certo, que me deixaram mais confortável e satisfeito com isso.”
Sendo amanhã a sua estreia como treinador principal, que sensações é que está a sentir?
“De grande satisfação e de grande motivação. As coisas foram acontecendo aos pouquinhos. Eu nem sequer tive tempo para pensar nisso ainda. São muitos anos no futebol. É óbvio que ser treinador adjunto e treinador principal são duas coisas diferentes. Em muitas ocasiões, tive de orientar a equipa porque o treinador estava expulso ou doente, mas não é a mesma coisa. Costumo dizer, quando me perguntavam, em momentos como este, às vezes em conferências, quais achava serem as principais características de um treinador adjunto, que a principal é nunca esquecer que se é treinador adjunto. E essa hierarquia deve ser sempre respeitada. Acho que fiz sempre isso e orgulho-me disso. Hoje estou aqui, mas, durante a semana, tenho falado muito com o Luís [Castro] e sei que ele está a torcer por mim e eu a torcer por ele. Essa era a primeira coisa que queria valorizar. Portanto, estou extremamente satisfeito. Foram muitos anos para chegar a uma posição que sabia que um dia iria querer ocupar. Nunca coloquei — tenho essa limitação, essa dificuldade — a possibilidade de fazer planos a médio prazo. Sou muito do aqui e do agora. Nunca olhei para a minha carreira pensando que, daqui a dois anos, queria ser treinador principal, ou daqui a dez, ou depois disso, ou depois de jogar a Liga dos Campeões. Nunca pensei dessa forma. Fui vivendo e fui sendo tão feliz que nunca tive necessidade de pensar dessa forma. Foram surgindo, por vezes, algumas abordagens. Por diversos motivos, achei sempre que não era o momento para isso e agora achei que sim. Houve muita coisa que bateu certo. Por isso, estou extremamente motivado, realizado e a viver esta realização. É o sonho de alguém que lá atrás jogava futebol na rua e cresceu a querer jogar futebol, percebendo que não ia ser jogador e depois indo atrás das oportunidades. Uma construção longa, desde os dez, nove, onze anos, até chegar a ser full-time no futebol, até chegar ao futebol profissional, até chegar lá fora, até me realizar nas mais diversas dimensões, jogar na Liga dos Campeões, conquistar títulos, trabalhar com os melhores jogadores do mundo. Depois de viver tudo isso, estou muito motivado para agora fazer um percurso sendo eu o treinador. Outro motivo que me levou a dar este passo, para além de todos os que já referi, relacionados com o clube e o contexto, foi conseguir reunir comigo um conjunto de pessoas na minha equipa técnica que me deixa extremamente confortável. Todos eles tinham tanta vontade de integrar a minha equipa técnica como eu tinha vontade de vir para a Europa. Quando isso bateu certo, foi muita coisa a bater certo ao mesmo tempo. Por isso, tanto eu como eles estamos extremamente satisfeitos. Espero que seja um percurso de sucesso desportivo. Também vamos tentar valorizar a ideia de jogo. Quando queremos ganhar, os treinadores vivem de resultados, mas não posso fazer agora algo diferente daquilo que fiz nos últimos dez anos, que é valorizar o jogo, o oponente. Daquilo que é, para mim, quando falo em estética, não existe uma ideia estética universal do que é o jogo. Para mim, é uma. Para vocês poderá ser outra, mas quero valorizar a minha. Essa ideia mais associativa de que falou, que valoriza o talento e o jogo e que nos faça ganhar muitas vezes. É isso que pretendo. E, para fechar, estou extremamente motivado, muito feliz e fui muito bem recebido por todos os funcionários do Arouca, um clube muito funcional. Às vezes, a dimensão é maior ou menor, fala-se muito sobre isso, mas, para mim, o mais importante é a funcionalidade. E aqui isso existe. Eu sei com quem preciso de falar para resolver as coisas. E as coisas resolvem-se. É um clube muito familiar. Estou aqui há uma semana, mas já percebi isso e estou extremamente feliz por ter dado este passo.”
O que é que os adeptos podem esperar após esta semana?
“Acho que a equipa tem uma identidade que também foi sendo construída. Não acredito que haja muitas mudanças. Também não acho que isso seja o ideal. «O treinador chegou e quer mudar muita coisa para mostrar que tem personalidade.» Já não tenho necessidade disso. São muitas centenas de jogos que também me permitiram criar aquilo que é a minha visão do jogo. O que preparámos foi um ou outro ajuste, ao nível mais micro da estrutura, da construção e da pressão, que também tem a ver com o adversário. Mas aquilo que vamos procurar fazer é isso: valorizar o jogo, ser uma equipa associativa que queira construir. Como disse há pouco, o nosso lema diário é a lógica da otimização. Mas, em termos daquilo que é o jogo, há dois macroprincípios da nossa equipa, da minha ideia: quando existe espaço, atacar os espaços; quando não existe espaço, construir espaço. Depois, a partir daqui, desenrola-se uma série de coisas, de princípios, de microprincípios e de subprincípios. Valorizar, ter a bola, sermos agressivos no momento em que não temos a bola. No fundo, tudo aquilo que a equipa já tinha construído. Mas uma ideia de grande valorização que parte muito da vontade da equipa de ter a bola. Não porque sim, como já disse, porque o primeiro princípio é: se houver espaço, atacá-lo. É isso que procuro transmitir todos os dias. Se devemos fazer golo num passe, que seja num passe. Se tiver de ser em dez, que seja em dez. Se tiver de ser em 30, que seja em 30. Isto leva-nos depois a dinâmicas de jogo posicional. Tanta coisa, não é? Aqui, no quadro, bate sempre certo, é fácil falar. Fazer é difícil. Espero que seja um bom jogo.”
Que ideia tem daquilo que pode esperar do Estrela da Amadora? Isto tendo em conta que o Arouca já recebeu equipas que chegaram mais recuadas e outras que assumiram mais o jogo.
“Sim, sei aquilo que eles têm sido e não estou à espera de que mudem muito a personalidade. Até porque tem muito a ver com a identidade do treinador, que conheço. Acho que há uns dez anos, nove, o Pepa talvez estivesse no Tondela, não tenho a certeza. Mas fui acompanhando e conheço elementos da equipa técnica. É uma equipa que também valoriza o jogo, extremamente agressiva, que pressiona muito, que quer evitar que o adversário jogue entre linhas, com bastante jogo exterior e capacidade de cruzamento, uma equipa que constitui uma ameaça constante à nossa baliza. Se vão jogar mais subidos ou mais recuados? Honestamente, não sei. Hoje falei com os jogadores, porque foi uma semana de trabalho e tive de lhes explicar, para que percebessem também quem sou eu e quem é esta equipa técnica, embora respeite totalmente o trabalho que fizeram até aqui. Não há dois treinadores iguais e passei à equipa uma metáfora que diz muito daquilo que é a minha forma de olhar para o adversário em cada jogo. Já não vinha a Arouca há algum tempo. Tenho vivido fora. E vim com o Waze, com o GPS. Daqui a uns tempos, venho sem o GPS. Quando conhecer o caminho, não preciso do GPS. A ideia é essa: a construção de uma identidade é a capacidade de viajar sem GPS. Mas o GPS ajuda. Diz-me se há um acidente aqui, se há um acidente acolá, se tenho de sair mais cedo. Então, o GPS, no fundo, é o plano de jogo, com um ajuste ou um detalhe, sem nunca perder de vista aquilo que somos. Sabemos para onde queremos ir, qual é a nossa identidade, quais são as nossas estruturas, digamos assim, macro. E depois há um ou outro ajuste em relação àquilo que é o adversário. Isto para quê? Porque não quero criar frustrações. Por vezes, há tantos ajustes ou detalhes em função do adversário que o jogador vai com um plano na cabeça e aquilo é completamente diferente do que estava previsto, e não quero criar frustração. Quero que o jogador chegue e seja capaz de entender. Eles jogaram sempre com um bloco alto, mas hoje têm um bloco baixo. Ok, nós sabemos o que devemos fazer contra um bloco baixo. O adversário jogou sempre em bloco baixo e nós preparámos uma estratégia para atacar um bloco baixo. Mas eles pressionaram logo na nossa primeira fase. Ok, mas nós sabemos. Genericamente, conhecemos essa viagem. É esse tipo de coisa que quero criar: que tenham espaço e liberdade para decidir dentro, obviamente, de uma identidade. Tudo isto é muito bonito de falar, mas depois levamos um plano para o jogo e o jogo vai levar-nos para dois ou três planos diferentes. Temos de estar preparados para isso.”