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Dois anos de Vale e Azevedo no Benfica

VALE e Azevedo ganha em quase todos os itens na comparação com Manuel Damásio. Nunca ganhou um título, mas contratou metade dos jogadores do antecessor, está mais bem encaminhado para vencer o campeonato do que o antecessor alguma vez esteve e tem no banco um homem que se impõe sem extravasar a sua esfera de acção. Os sócios estão contentes e a polémica acumulada ao longo de dois anos começa finalmente a esbater-se.

O lançamento das bases para o desenvolvimento empresarial do clube é o próximo objectivo. Depois das cautelas do legislador perante os riscos da obrigatoriedade da empresarialização dos clubes profissionais, o Regime Especial de Gestão parece agora com os dias contados, dependente apenas de que alguém se lembre da questão para que a actual legislação seja revogada.

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Com um elenco depauperado e refém da unanimidade, Vale e Azevedo está por isso obrigado a gerir o último ano de mandato no dilema entre a manutenção da popularidade e a implantação de medidas dificilmente consensuais -- e mesmo contrárias a alguns dos argumentos ostentados para criar clivagens em relação à "ultraliberalização" da concorrência. Até porque os sócios estão contentes sem SAD.

Desde que foi eleito, em 31 de Outubro de 1997, no entanto, Vale e Azevedo vive hoje os momentos mais tranquilos do mandato. Com a equipa à frente do campeonato e titular de duas excelentes vitórias em jogos fora para a Taça UEFA, o presidente do Benfica vê-se beneficiado pela oscilação do principal barómetro da estabilidade do clube: os resultados no futebol.

E vai gerindo com charme os contactos ao mais alto nível, outrora instrumentalizados para ostentar o peso institucional do Benfica e criar clivagens em relação à concorrência.

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Vale e Azevedo não foi apenas um importante interveniente na visita de Xanana Gusmão a Portugal, foi também um protagonista na recepção de António Guterres para celebrar a vitória da candidatura portuguesa ao Euro-2004. E foi sempre sublinhando a importância dos fenómenos "para Portugal", mais do que para o clube de Xanana ou para o proprietário do provável palco da grande final do primeiro Campeonato da Europa do terceiro milénio.

PARA CIMA

REGIME ESPECIAL DE GESTÃO

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Apesar dos eventuais prejuízos a longo prazo, a opção pelo adiamento da constituição de uma Sociedade Desportiva garantiu a Vale e Azevedo a poupança de milhares de contos em tributação e ao Benfica o papel de penhor da tradição da colectividade sem fins lucrativos.

A opção pelo Regime Especial de Gestão já valeu a acusação de "concorrência desleal" feita por José Roquette, mas também por isso reforçou a imagem institucional do presidente e envernizou o regresso da chamada "mística" benfiquista. O plano paralelo de autonomização das modalidades ainda não vingou, mas produziu a vitória numa Volta a Portugal em bicicleta logo no ano de regresso do ciclismo ao clube. E os proveitos da exploração comercial do nome do clube são excelentes mesmo sem SAD.

CONTRATAÇÃO DE JUPP HEYNCKES

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Depois dos avanços e recuos na relação com Graeme Souness, muitas vezes em resposta à inconstância dos próprios resultados, Vale Azevedo apostou em Jupp Heynckes e ganhou. Vindo de um ano sabático decidido para repensar na vida após a vitória na Liga dos Campeões, com o Real Madrid, o treinador alemão escolheu a recuperação do Benfica como caminho para a imortalidade e, para já, está a ganhar. Os encarnados lideram destacados o campeonato e continuam em prova na Taça UEFA, com duas magníficas vitórias fora pelo meio. Os sócios reconciliaram-se com a equipa e a opinião pública aplaude o regresso dos jogadores portugueses ao clube, apesar de a opção resultar mais da falta de poder de compra do clube do que propriamente de uma estratégia predefinida.

PARA BAIXO

TURBULÊNCIAS CONTRATUAIS

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A denúncia dos vínculos com a Olivedesportos foi apenas o primeiro dos muitos casos de turbulência contratual do mandato de Vale e Azevedo. Para além do atraso nos pagamentos de Kandaurov, Poborsky, Deane, Rushfeldt e Bossio, o Benfica viu Hugo Leal e Sanchez rescindirem alegando justa causa, perdeu Edgar devido a incapacidade negocial e não deverá ter facilidades em justificar o despedimento com justa causa de Manuel José, Graeme Souness e Phill Boersma. Até Heynckes já o criticou. A equipa está bem com o treinador e os jogadores que tem, o clube é bem tratado pela televisão com que assinou (SIC) e a Direcção resiste às demissões daqueles que consideraram desastrosa a estratégia do presidente. A credibilidade do clube, especialmente a nível internacional, é que parece em cheque.

CONTRATAÇÃO DE GRAEME SOUNESS

Primeira aposta de Vale e Azevedo para o comando técnico do Benfica, Graeme Souness acabou por tornar-se no maior foco de conflitos do primeiro ano de mandato. Com uma equipa onerosa e constituída à base de jogadores fornecidos por empresários de mão, Souness nunca conseguiu estabilizar os bons resultados e acabou por ser despedido no meio de um processo turbulento, com inquéritos disciplinares e testemunhos agressivos à mistura. Ainda hoje os sócios não lhe perdoaram a excessiva britanização da equipa e só agora a generalidade dos benfiquistas se reconcilia com o clube, depois das mudanças introduzidas por Jupp Heynckes.

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DOIS ANOS DE MUITOS CASOS E ALGUMAS VITÓRIAS

Souness escolhido -- 30.10.97:

Graeme Souness foi o último trunfo eleitoral de Vale e Azevedo, apresentado na véspera da AG. A vitória sobre Luís Tadeu e Abílio Rodrigues foi esmagadora, mas a relação com o treinador traduziu-se numa série de conflitos e desenganos. A excessiva britanização do plantel penalizou a imagem de ambos, e Souness acabou por ser despedido no meio do mais marcante conflito interno do exercício.

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CONTRATOS RASGADOS -- 06.11.97:

A denúncia dos contratos com a Olivedesportos foi a primeira grande medida do mandato. Vale e Azevedo alegou a existência de uma cláusula que obrigava o Benfica a votar na Liga de acordo com as exigências de Joaquim Oliveira. A polémica instalou-se, mas o Benfica assinou com a SIC e garantiu um importante parceiro para a promoção da imagem do clube.

BRÁS FRADE DEMITE-SE -- 17.04.98:

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O abandono de Brás Frade da Direcção foi o primeiro de uma série de quatro, que viria a incluir Botelho da Costa, José O'Neill e Ribeiro e Castro. A queda do executivo ficou a apenas uma demissão de distância, mas António Sala recuou nas diversas ameaças e impediu o presidente de recorrer a nova ratificação da AG. Manuel Boto e Vasco Pinto Leite, do Conselho Fiscal, também saíram.

JUSTA CAUSA PARA DESPEDIR -- 16.05.98:

Damásio foi quem despediu Manuel José e quem pela primeira vez utilizou a alegação de justa causa para evitar a indemnização. Mas foi Vale e Azevedo quem a levou aos tribunais, dando sequência à mais antiga polémica do mandato, a par do “caso Olivedesportos”. As palavras de Mendes Pinto, numa recente entrevista a Record, foram elucidativas: "Manuel José era incompetente."

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VITÓRIA NA VOLTA -- 08.08.99:

O triunfo de David Plaza na Volta a Portugal, após uma magnífica ponta final que roubou o título a Vítor Gamito, foi a primeira grande vitória da nova estratégia de autonomização das modalidades do Benfica. O plano não está solidificado e ainda gera problemas, mas, na ausência de triunfos do futebol, aquela festa na Luz para mostrar o troféu foi um tónico importante para a confiança dos sócios. RUSHFELDTD DEVOLVIDO -- 16.08.99:

O atraso do pagamento de Rushfeldt foi justificado com "razões meramente burocráticas", mas no essencial não diferiu do que aconteceu com Kandaurov, Poborsky, Deane ou Bossio. Só foi o mais mediático e o que mais magoou os associados. Vale e Azevedo viria a dizer que Tote sempre fora a primeira opção, mas hipotecou parte da credibilidade interna e sobretudo externa.

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PATRIMÓNIO TRANSACCIONADO -- 24.09.99:

A alienação de terrenos foi desde cedo uma das propostas que mais trunfos forneceu à oposição nas assembleias. O presidente sempre defendeu que o saneamento do clube passava pela negociação do património. Em Maio, viu os sócios ratificarem a transacção da Urbanização Sul; em Setembro avançou com um projecto de exploração do património a sudoeste pelo próprio clube.

TRIUNFO NA ROMÉNIA -- 30.09.99:

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A fantástica reviravolta na primeira eliminatória da Taça UEFA catapultou Jupp Heynckes para o consenso absoluto e forneceu a Vale e Azevedo um apoio renovado dos sócios e da opinião pública. Externamente, o Benfica invertia em terreno adversário uma derrota sofrida em casa, o que nunca acontecera a uma equipa portuguesa; internamente, já liderava o campeonato. E os resultados mandam.

RAZÃO A HUGO LEAL -- 07.10.99:

"Afirmações atentatórias à boa honra" de Hugo Leal foram suficientes para que a Comissão Arbitral Paritária considerasse procedente o pedido de rescisão com justa causa feito pelo jogador. Depois de perder Edgar devido a falta de amplitude negocial, o Benfica perdia Hugo Leal por não aceitar uma transacção oportuna e rentável do seu passe. A polémica ainda dura.

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RELAÇÕES TENSAS -- 13.10.99:

Vale e Azevedo já tinha dito nunca ter sido "apresentado a Pinto da Costa" e recebido muito mal a acusação de "concorrência desleal" feita por José Roquette, em referência ao Regime Especial de Gestão. Mas ninguém esperava que os conflitos fossem tão longe. Nem Xanana Gusmão, de visita a Portugal, nem António Guterres, na festa da vitória do Euro-2004, conseguiram juntar os presidentes.

JOEL NETO

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