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E Nelinho foi ganhar 95 contos para Braga

Quando alguém fala das boas relações institucionais entre Benfica e Sp. Braga, com reflexos na política de contratações dos dois clubes, certamente que muitos recordam as mais recentes transferências de Tiago, Armando, Ricardo Rocha e Quim para a Luz. Outros, já mais velhos, poderão ir um pouco mais longe e encontrar, no baú da memória, nomes como os de Dito e de Wando, que também se mudaram para a capital na década de 80. Outros ainda, mesmo com a memória mais gasta pela louca marcha do tempo, lembrarão com saudade um rapaz que, já com pouco cabelo, um dia trocou o Benfica pelo Sp. Braga.

Chama-se Nelinho, é um homem do Bairro da Boavista, em Lisboa, o mesmo que viu nascer Maniche e Jorge Ribeiro e pode considerar-se um dos pioneiros no inflacionamento dos salários dos jogadores numa altura em que poucos ousariam trocar o prestigiado clube por um da província. “Romão Martins era o chefe de departamento de futebol e um mau negociante. Com ele no cargo saíram do Benfica o Artur, o Jordão, o Eurico, o Fidalgo e mais tarde o Chalana. O presidente era Ferreira Queimado, mas quem tinha poderes de decisão era Romão Martins.”

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Convite

Sabendo da ruptura entre o Benfica e o jogador, o Sp. Braga surgiu com um convite que surpreendeu Nelinho. “Eu tinha algumas propostas, inclusive uma do Sporting. De repente, o Sp. Braga mostrou interesse e Lito de Almeida, o presidente na altura, apresentou-me uma proposta, numa negociação que também teve o empresário Manuel Barbosa como interveniente directo.”

Nelinho apresentou os números e o Sp. Braga nem sequer hesitou quando confrontado com a verba pedida pelo atleta do Benfica, que acabara de realizar a melhor época de sempre na Luz. “Nessa altura ganhava 22.500 escudos no Benfica e fui para Braga auferir um salário de 95 contos/mês. E ainda tinha direito a mais 500 contos no início de cada época. Era muito dinheiro, até porque na altura o Sporting apenas me oferecia 85, sem direito a luvas”, recorda, quase 30 anos depois, o extremo que ainda chegou a jogar um ano em Espanha, no Orense, a título de empréstimo – numa altura em que o Benfica tinha Eusébio, Simões, Vítor Baptista, Nené, Jordão, Moia, Moinhos e tantos outros no plantel.

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"Braguinha"

Apesar da insistência do Sporting, já posterior ao acordo entre jogador e o Sp. Braga, Nelinho manteve-se fiel à palavra e passou três anos nos bracarenses. “Foram tempos maravilhosos no meu ‘Braguinha’, que é como eu costumo chamar ao clube. Ficámos duas vezes em quarto lugar e uma em quinto. Éramos sempre os campeões dos pequeninos”, lembra ainda aquele que foi um dos revolucionários dos ordenados dos futebolistas em Portugal.

Dito seguiu para a Luz

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O intercâmbio entre Benfica e Sp. Braga não é um fenómeno recente. Há cerca de 20 anos, Wando e Dito rumaram à Luz, enquanto Jorge Gomes, o primeiro estrangeiro na história dos encarnados, seguia o caminho inverso. O defesa Vítor Duarte, menos mediático, também se mudou para o Minho a meio da década de 80.

Pelos bracarenses, passaram, mais recentemente, outros nomes, como aconteceu com Sousa, lateral-direito que representa agora o Belenenses, e Éder, da U. Leiria, embora em ambos os casos com passagens por outros clubes no ano anterior (Alverca e Estrela da Amadora, respectivamente). O brasileiro era um velho conhecido de Jesualdo Ferreira, que com ele trabalhara na Luz.

Ricardo Esteves, Mawete Júnior, Andrade e Jordão, este nos finais da década de 90, também seguiram para Braga, mas apenas os dois últimos obtiveram resultados satisfatórios. Os dois mais jovens permaneceram na cidade dos arcebispos apenas durante meia temporada.

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Divórcio anunciado

Nos últimos anos, as relações entre Benfica e Sp. Braga conheceram apenas um momento de tensão. No Verão de 2001, Petit (agora conhecido por Issuf) assinou um contrato com os dois clubes e o clima de guerra fria instalou-se durante uns meses.

Petit, jogador formado nas escolas do Boavista, acabava de regressar de Itália (onde esteve na AS Roma) e procurava relançar a sua carreira em Portugal. Mas, depois de tanta polémica, o avançado não chegou a representar qualquer um dos clubes, acabando por se vincular ao Salgueiros.

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O Benfica, com um jogo de apresentação agendado para Braga, frente aos holandeses do Feyenoord, referente à temporada de 2001/02, prescindiu da realização do referido encontro e escolheu o recinto do Guimarães, o grande rival dos arsenalistas, para receber a equipa de Roterdão.

Os dois clubes apenas normalizaram as relações institucionais na sequência das transferências de Tiago e Armando para a Luz, o que aconteceu no início do ano seguinte – Ricardo Rocha haveria de se juntar aos ex-companheiros no Verão desse mesmo ano. De então para cá, os dois clubes vivem num clima de paz.

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