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“NÃO sou um monstro”. Palavras de João Vale e Azevedo que, ontem, na sessão da tarde do quatro dia de julgamento, deixou-se, pela primeira vez, dominar pela angústia de um processo iniciado a 16 de Fevereiro do ano passado. O ex-presidente do Benfica irrompeu num choro convulsivo durante uma declaração ao tribunal, que iniciou com o mote: “É impossível que um homem como eu tenha feito aquilo de que sou acusado”.
Vale levou cerca de uma hora a traçar o auto-retrato de um homem “que nunca deu importância ao dinheiro senão como meio de investimento para criar postos de trabalho”; alguém que começou a trabalhar aos 17 anos, “embora não necessitasse”, que “sempre levou uma vida espartana e que tinha como única extravagância alugar um barco.” O homem que disse em tempos que “um escudo é um escudo” tentou colocar a nú o seu lado humano, revelando coisas que, afirma, nunca gostou de contar.
Assim, cerca de uma vintena de jornalistas, alguns advogados estagiários, familiares e os já habituais incondicionais apoiantes do ex-presidente do Benfica, que assistiram à sessão, ficaram a saber que o advogado de sucesso não compra um carro desde 1976, que deu aulas na Musgueira, “umbairro difícil, a pessoas com problemas”, que visitou e abraçou doentes com SIDA e que mesmo durante a sua vigência como presidente do clube encarnado, nunca deixou de ter preocupações sociais. E que mesmo agora é um dinamizador de actividades na prisão.
O drama familiar
Vale e Azevedo cedeu às lágrimas quando falou na família. “Os meus filhos não podem usar o meu nome”, desabafou entre soluços. Visivelmente emocionado, Vale e Azevedo deu largas à emoção: “A minha vida é um inferno. Só queria ter uma vida normal. Era só isso que queria...”
A «filha adoptiva»
Vale e Azevedo não cessa de surpreender. Ontem, no meio do discurso que, segundo o arguido do “caso Ovchinnikov”, pretendia clarificar “a campanha que fazem”, para o “destruir, porque dá mais audiências e faz primeiras páginas”, o ex-presidente do Benfica frevelou que tem uma filha adoptiva.
“Ajudei instituições de apoio a crianças orfãs. Existe uma rapariga que adoptei, que sustentei e apoiei, que vivia numa instituição suportada por freiras, no Porto. Paguei-lhe os estudos e hoje em dia está formada em Economia.”
Vale sustentou que, apesar da distância física, sempre teve uma ligação muito próxima com essa rapariga: “Passava as férias escolares comigo e com a minha família, dava-se muito bem com os meus filhos, apesar de ser cinco anos mais velha. Ia conncosco para todo o lado. Se fôssemos a Londres, a Paris, a Roma, onde quer que fosse. Era parte integrante da família e vinha como minha filha.”
«O meu filho mais novo pintou o cabelo de verde»
Foi ao falar dos dois filhos que Vale mostriou maior mágoa. O ex-presidente do Benfica tentou explicar os efeitos nefastos da sua ligação ao clube encarnado, desde a eleição até à prisão: “Os meus filhos são perseguidos. Numa visita constatei que o meu filho mais novo pintou o cabelo de verde porque, disse, não querer ter nada a ver com o Benfica.”
«Não conheço o Elefante Branco mas fui convidado muitas vezes»
“Sou um homem de família, casado há 21 anos, sem esquemas nem casos esquisitos”. Vale e Azevedo cimentou esta afirmação referindo “Fui inúmeras vezes convidado para ir ao Elefante Branco, porque o mundo do futebol adora ir lá; inclusivé presidentes de clubes. Não sei porquê, acho que se come lá muito bem”, declarou com ironia. Tudo para explicar ao tribunal a integridade do seu carácter .
Primeiro investimento foi quadro de mil escudos
Vale e Azevedo recordou o início da sua vida profissional, e para ilustrar, mais uma vez, que o “único valor” que o dinheiro tem para ele é o de investir, deu a conhecer o fim que deu ao seu primeiro ordenado: “Com o primeiro salário que ganhei, que foi de mil escudos, comprei um quadro, aconselhado por amigos meus. Hoje vale dinheiro.”