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JVP: «Meti-me em guerras que não eram minhas»

R - Por que motivo escolheu o Benfica quando saiu do Boavista pela segunda vez?

JVP - Tive contactos com Sporting e FC Porto desde muito novo. Tudo começou num torneio em Évora, ainda como iniciado. Fui o melhor jogador e alvo do interesse de Aurélio Pereira (grande mestre do futebol) e do senhor Manuel Ferrão, falecido há cerca de uma semana. Quiseram levar-me então para Alvalade. E o mesmo aconteceu com o FC Porto. Lembro-me das viagens de comboio que fazia do Porto para Lisboa com o senhor Costa Soares, elemento da formação portista, em que ele tudo fez para me levar para as Antas.

R - Não foi porquê?

JVP - Porque o major foi sempre intransigente. Nunca deu a mínima hipótese de conversa e eu próprio também não estava inclinado a aceitar convites. Sempre segui o raciocínio segundo o qual era muito mais difícil chegar a sénior no FC Porto, no Benfica ou no Sporting do que no Boavista. Para o meu objetivo de chegar à Liga, estava bem no Bessa. Sempre entendi que a transferência tinha tempo para acontecer.

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R - E o que desequilibrou os pratos da balança para o Benfica?

JVP - Estava em estágio com a Seleção, em Chicago, em 1992, quando soube de um acordo entre o major e Sousa Cintra, na altura presidente do Sporting. Cintra e Manuel Fernandes foram ao hotel ter comigo dando-me conta que estava assinado um acordo entre os clubes e que só faltava a minha assinatura para consumar o acordo. Ouvi mas não tomei qualquer decisão. Preferi esperar um pouco.

R - Por algum motivo especial?

JVP - Não, apenas porque queria um pouco de tempo. Dias depois, soube que o Benfica também estava interessado em mim. Lembro-me perfeitamente porque soube a notícia quando me encontrava no último andar daquele que era, à época, o edifício mais alto do Mundo. Não sei explicar mas pareceu-me premonitório. Optei pelo Benfica e em boa hora o fiz.

R - Como decorreram as primeiras semanas na Luz?

JVP - Quando cheguei deparei-me com um clube enorme e uma equipa experiente, recheada de grandes jogadores como Mozer, Vítor Paneira, Veloso, Neno, Silvino, Rui Águas, entre outros. Tive algumas dificuldades iniciais, eu, como o Rui Costa, o Hélder e o próprio Mostovoi... O treinador era o Ivic, uma pessoa peculiar. Percebi logo que não iria ser primeira opção. Comecei a jogar na chamada equipa Coca-Cola, a dos suplentes, e não estava a achar graça àquilo.

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R - Chegou a pensar em sair?

JVP - Pensei, pensei. Antes de um jogo no estágio na Suécia, estava na bancada com o Mozer e disse-lhe que ia regressar ao Boavista, porque a minha ambição era jogar e ali não teria hipóteses. Lembro-me que ele ouviu e respondeu-me com impressionante serenidade: "Calma garoto, as coisas mudam muito rapidamente. Dá tempo ao tempo que a tua hora vai chegar." Lá me fui aguentando, a treinar como sempre, mas sem grande esperança.

R - Quando é que chegou a sua hora?

JVP - Nada me indicava que seria titular no primeiro jogo do campeonato. Estava na cabina quando ouvi o meu nome no onze. Fiquei surpreendido mas deitei mãos à obra. Lá está, por isso digo que também fui bafejado pela sorte. No jogo em que precisava de me afirmar, joguei e marquei o golo da vitória na deslocação a Santo Tirso - ganhámos 2-1, num terreno tradicionalmente complicado.

R - Nessa época sofreu o pneumotórax. Lembra-se do que passou na altura?

JVP - De todas as lesões que sofri, essa foi a única a pôr em risco a própria vida. As outras foram mais osso menos osso partido, mais ligamento menos ligamento rompido, enfim, afastaram-me dos relvados mas não beliscaram a minha integridade. No início não me preocupei, porque não me apercebi da gravidade do estado de saúde.

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R - Nem devia ter feito a viagem para a Escócia...

JVP - Pois não, foi um risco quase inconsciente. Podia ter-me ficar no avião. Fiz a viagem toda a dormir e quando cheguei ainda fui treinar-me. Dei meia volta ao campo com o Rui Águas, que também estava lesionado, e ele disse-me: "Vê lá se te aguentas, porque eu não vou conseguir jogar." Ouvi-o e respondi: "Nem penses nisso, eu estou muito pior do que tu." Parei logo a seguir, fui para o hotel e, porque as dores continuavam, levaram-me a uma clínica. Aí é que tomei verdadeira consciência do que estava a passar-se. Bastou-me olhar para a cara dos médicos para perceber tudo.

R - Essa temporada culminou com a final da Taça de Portugal ganha ao Boavista (5-2). Que análise faz a essa equipa do Benfica?

JVP - Uma equipa fabulosa. O campeonato não correu bem mas a vitória na Taça compensou um pouco a frustração - era sempre importante ganhar uma competição. Futre, Rui Costa, Mozer, Paulo Sousa, Isaías, Paneira, Schwarz... meu Deus, era um luxo. Talvez o problema fosse não funcionarmos muito como equipa, porque em termos individuais tínhamos tudo para sermos campeões.

R - Poucos dias depois dessa final, nasce o chamado Verão Quente na Luz...

JVP - A memória desse momento é que o Benfica passava por uma crise tremenda. O presidente era o falecido Jorge de Brito, excelente homem e grande dirigente, mal ajudado e compreendido, a quem sempre reconheci fantástica dedicação ao clube. Aos 21 anos, apercebi-me das dificuldades e preocupei-me. Por vezes, alguns companheiros davam-me a entender que a situação era catastrófica e que estavam prontos a sair. Depois alertavam-me para o facto de estar mal pago em comparação com outros que nem sequer jogavam, enfim, fui também eu fazendo a minha avaliação.

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R - Quando decidiu que também estava disposto a sair?

JVP - Não houve um dia em especial. Também sabia que os salários estavam atrasados e que era cada vez mais difícil esse cumprimento básico por parte do clube. Quando o Sporting entrou em contacto comigo, o que me disseram taxativamente é que tinha justa causa para rescindir o contrato com o Benfica. E foi nessa perspetiva que avancei.

R - Mas era ou não verdade que podia?

JVP - Mais tarde disseram-me que, de facto, não havia justa causa - e se assim fosse, teria de ser eu a pagar uma avultada indemnização ao Benfica. Depois de falar com responsáveis fiquei a saber que o clube não estava assim tão debilitado como se dizia, que não estava à beira da ruína como o pintavam. Quando me apercebi do que tinha feito e da situação em que me encontrava, entrei em contacto com o presidente Jorge de Brito, que foi ter comigo a Espanha, para onde me desloquei após a assinatura do compromisso com o Sporting. Regressei então à Luz e assinei um novo contrato com o Benfica.

R - À distância de 16 anos, acha que esse episódio teve alguma influência na grande época que fez em 1993/94?

JVP - Não creio que as duas coisas estejam relacionadas. De qualquer modo essa foi uma temporada fantástica, porque o Benfica foi campeão e as coisas correram-me muito bem - fiz 34 jogos, marquei 15 golos e sei que contribuí fortemente para o sucesso da equipa.

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R - Andou mesmo com o Benfica às costas durante aquelas épocas de jejum?

JVP - Essa expressão, que ouvi centenas de vezes, era um exagero. Por um lado encerrava o reconhecimento do meu valor, por outro aumentava a responsabilidade. Não vou agora comentar o conteúdo, digo apenas que era uma forma dos outros me distinguirem em tempos muito complicados para o Benfica. Não se esqueça de que em dois anos tive 40 e tal companheiros diferentes.

R - As consequências do título solidificaram elos de ligação ao clube. Em janeiro de 1997 assinou o célebre contrato vitalício com o Benfica...

JVP -Assinei por 7 anos (4 mais 3), que era o máximo permitido por lei. Depois do título em 1994 eu tinha vontade de continuar e o Benfica, na figura do presidente Manuel Damásio, também. Mais: ambos desejávamos que terminasse a carreira na Luz. Mas o que faz mover o futebol são os resultados e o que se faz hoje pode cair no esquecimento logo a seguir. Sem ganhar num clube como o Benfica a imagem degrada-se. Enquanto o presidente foi Manuel Damásio, o clube preservou o meu estatuto junto da direção, dos treinadores, dos adeptos...

R - Tudo mudou com a mudança de presidente?

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JVP - Com a chegada de Vale e Azevedo tornou-se impossível a minha permanência no clube. Muito aguentei eu.

R - Quando percebeu que tinham chegado problemas insolúveis?

JVP - Antes mesmo de ele chegar. Há uma história curiosa, que por vezes recordo com o Rui Costa. Estávamos no Euro'96, em Inglaterra, e o Rui era o meu companheiro de quarto. O Vale e Azevedo candidatou-se à presidência pela primeira vez e queria contratá-lo. Num dos telefonemas que ele fez estávamos os dois no quarto. Disse ao Rui que gostava de o ver regressar (até aí tudo bem), que ia ser o capitão de equipa e mandar naquilo tudo... Acabou por não ganhar mas anos depois, quando chegou à presidência, bastou lembrar-me desse telefonema para antever o que me esperava.

R - Foi exatamente como esperava?

JVP - Foi pior. No primeiro dia de Benfica chamou-me à parte e disse-me que tinha de ir embora porque se não o clube ia à falência. Ainda me aguentei e resisti o mais que pude à pressão que foi exercendo quase diariamente.

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R - De que forma?

JVP - Com palavras e atitudes que acabaram por envolver os próprios treinadores - Souness e Heynckes. Ir todos os dias para a Luz começou a ser um castigo.

R - Houve possibilidades de sair nessa altura?

JVP - Talvez tenha havido. Numa altura em que tinha sido operado ao maxilar, quando nem sequer conseguia falar, chamou-me ao escritório dele. Informou-me que me tinha vendido ao Deportivo Corunha, para eu falar com eles e decidir o meu futuro. Assim, de caras, sem o mínimo respeito, mais que não fosse pelo facto de eu não poder falar. Dessa vez resisti, também porque os adeptos se movimentaram, mostrando publicamente que desejavam a minha continuidade.

R - Mas esse apoio não durou até ao fim...

JVP - Os focos de instabilidade sucessivos, acompanhados pelos maus resultados, conduziram à divisão da massa associativa. Percebi claramente que, aos poucos, fui deixando de ter condições para continuar.

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R - A saída era mesmo inevitável?

JVP - Acredito que sim. Mas só saí porque o fiz livremente, antes de um Campeonato da Europa. Aceitei porque ainda tinha mercado e, escudado nessa vantagem, arrisquei. A partir do momento em que rescindi com o Benfica, num domingo, com a célebre notária de Vale e Azevedo, marquei a conferência de Imprensa, no fim da qual recebi o contacto de dois clubes que me agradaram.

R - Que foram...

JVP - O Sporting de Augusto Inácio e o Newcastle de Bobby Robson. Era muito cedo para decidir mas fiquei muito feliz por saber que tinha alternativas automáticas. No entanto, preferi fazer o Europeu e só depois tomar a decisão definitiva.

R - Vale e Azevedo foi o maior pesadelo da sua carreira?

JVP - Quando foi para o Benfica, percebi que não via caras nem corações. Ele falava connosco nos olhos mas não sabíamos se estava a falar a sério ou a mentir - normalmente era a mentir, sobretudo a mim quando me chamava para dizer que ia pagar os salários aos jogadores no dia X e depois só passado um mês é que o dinheiro aparecia. A partir de uma certa altura tive de dizer aos companheiros que o meu papel era o de lhes transmitir o que o presidente me dizia. Se ia pagar ou não, não fazia a menor ideia. No fim, já ninguém acreditava nele. Vistas as coisas à distância de tantos anos, no Benfica meti-me em guerras que não eram minhas. Dei sempre a cara como capitão mas em certos conflitos devia ter-me refugiado. Serviu-me de exemplo para o futuro, principalmente quando fui para o Sporting.

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R - Houve ainda aquela história do contrato por objetivos...

JVP - Exatamente. Chegou-se ao pé de mim e disse-me que, como capitão, tinha de assinar um vínculo igual aos outros, para dar o exemplo. Na altura tinha o meu contrato e respondi que ia cumpri-lo até ao último dia. A ideia era transmitir que, no Benfica, o jogador só recebia se ganhasse os jogos. A proposta que me fez foi esta: mantinha o contrato e aumentava a verba em caso de vitória, ou seja, passava a ganhar muito mais. Disse-lhe: "Se era para isto já podia ter-me chamado há mais tempo." Esse disparate só para poder anunciar que também eu tinha contrato por objetivos.

R - Souness refletia no dia-a-dia esse desejo institucional de o verem pelas costas?

JVP - Olhava para ele como para o presidente. Não o via como meu treinador porque ele estava ali para me tramar, para me entregar recados de alguém. E como o fazia? Criando problemas sucessivos que chegaram ao ponto de não me pôr a jogar. Nesse capítulo, o Souness foi o braço direito de Vale e Azevedo.

R - Depois ainda trabalhou com Jupp Heynckes. Os problemas foram os mesmos?

JVP - Na sua essência foram, mas o Heynckes foi mais inteligente a fazer as coisas. Menos visível para quem estava de fora mas com um comportamento claro para quem vivia o clube por dentro. Diria que a toada foi a mesma.

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R - Para todos os efeitos foi ele quem avalizou tecnicamente a sua saída do Benfica...

JVP - Sim, mas passados uns dias, estava no Europeu, telefonou-me a dar os parabéns pelo golo à Inglaterra e para dizer que nada tinha a ver com a minha dispensa.

R - Acreditou nele?

JVP - Quando ele telefonou o golo à Inglaterra já lá morava e eu já estava dispensado do Benfica. Não acreditei nem deixei de acreditar.

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"Andei perto da perfeição"

R - De tudo quanto fez no futebol, o destaque vai para os 6-3 ao Sporting em Alvalade...

JVP - Foi o jogo que marcou a minha carreira e que me vai identificar até ao final da vida.

R - Há alguma história desconhecida relacionada com esse momento?

JVP - Raramente falava com a minha mãe antes dos jogos e se isso acontecia era sobre coisas que nada tinham a ver com futebol. Na véspera desse jogo falámos pelo telefone, dentro do registo habitual - queria saber como me sentia, se estava nervoso ou não. É curioso porque ela nunca se deslocou a um estádio para me ver, preferia assistir aos resumos no final do dia, porque então já sabia que eu tinha chegado inteiro a casa. Isto para chegar à despedida da conversa. Sem vir a propósito, rematou o diálogo com uma frase enigmática: "Vais ganhar, filho." Ainda hoje não sei por que o fez. Mas aquilo saiu tão espontâneo que alguma coisa a impeliu a dizê-lo.

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R - Que efeitos teve na abordagem ao jogo?

JVP - Guardei aquilo para mim e fiquei a pensar no significado das palavras. No dia seguinte, quando saímos do hotel no Guincho para o estádio, dei comigo a recordar a premonição da minha mãe. Era um jogo decisivo, estava em causa o campeonato e recordo-me de ir no autocarro em silêncio, concentrado... Quando existe muita pressão, o jogador debate-se com receios, angústias, dúvidas, e é nesses momentos que antecedem a entrada em campo que mais nos entregamos a nós próprios, às nossas reflexões, aos truques que cada um tem para se alhear um pouco do que está para vir.

R - Estava mais bem-disposto ou mais receoso?

JVP - Quando demos um passeio de manhã pelo Guincho ainda estava só bem-disposto, talvez por faltar algum tempo para o jogo começar. O pior é sempre quando vamos para o lanche, antes de entrarmos no autocarro. Quando chegou esse instante tive a perfeita consciência da importância do dérbi. Não podíamos falhar. Estávamos com 1 ponto de vantagem sobre o Sporting, a quatro jornadas do fim e jogávamos em Alvalade.

R - Com esse cenário quase sacro, encontra explicação para o que fez?

JVP - Não consigo explicar. É daquelas coisas que acontecem no momento e dificilmente se repetem. Ninguém é capaz de dizer, com antecedência, que vai fazer este drible assim, entrar na área e rematar. São decisões tomadas em frações de segundo... No primeiro golo nos 6-3, por exemplo, alterei a colocação do pé na bola no último instante. Era para rematar de uma forma e fi-lo de outra. A bola podia ter ido para as bancadas mas entrou no ângulo. Acontece.

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R - Que foi o jogo da sua vida todos sabemos. Mas foi o melhor?

JVP - Foi, eu acho que sim. E é interessante porque na primeira meia hora nada me saiu bem. Falhei muitos passes, perdi alguns lances, tive dificuldades nas receções... Até ao primeiro golo não perspetivava uma noite de glória, bem pelo contrário. Depois disso foi um jogo quase perfeito. A perfeição não existe mas nunca andei tão perto dela como nessa noite.

«Quando insultei Souness...»

R - Houve algum episódio mais picante na vossa relação?

JVP - Num jogo com o FC Porto, na Luz, estava eu lesionado. Como capitão desloquei-me à cabina antes do encontro - o Souness tinha acabado de dar a palestra aos jogadores. Entretanto, e como é norma suceder, os elementos do onze dirigiram-se para o túnel, enquanto os outros ficaram um pouco para trás. Eu pensava que era o último, mas o Souness e o Vale e Azevedo atrasaram-se ainda mais. Quando olhei, vi o treinador a apontar para mim e a olhar para o presidente, dizendo em voz alta que eu era um mau profissional. Perdi a cabeça e disse-lhe tudo. Foi a única vez que insultei um treinador.

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R - Recorda-se de um jogo em Alvalade que o Benfica venceu 4-1?

JVP - Lembro-me. Fiquei no banco, entrei e fiz o quarto golo.

R - Nesse dia não houve conflito?

JVP - Não me lembro. Mas talvez tenha havido qualquer coisa. Digo-lhe mais: se me fala no assunto é porque houve de certeza. Eles recorriam a tudo para ver se eu saía do clube.

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