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A terceira vitória consecutiva de André Villas-Boas no Estádio da Luz aparentou a mesma justiça e nitidez que as duas anteriores (ambas ao serviço do FCPorto, em 2010/11). Ontem, quando Artur teve a hesitação fatal que lhe valeu o cartão vermelho, aos 18 minutos, já o Zenit estava em vantagem no marcador, a gerir o jogo com grande conforto e a ameaçar o segundo golo.
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De facto, domínio absoluto da equipa russa no primeiro quarto de hora através de um extraordinário jogo posicional – com qualidade e critério desde o primeiro momento de construção. Essa saída de bola do Zenit, de resto, viria a revelar-se decisiva para o equilíbrio geral da equipa de AVBe, por consequência, para o desequilíbrio do Benfica. Lima e Talisca, sem bola, nunca conseguiram encontrar referências para participar no processo defensivo, apareciam muito afastados de Enzo e Samaris e, com o bloco pouco unido, Witsel e Danny tinham oportunidade para jogar entre linhas. Nas alas, Shatov e Hulk também eram facilmente alimentados, recebendo com espaço e sempre com apoio. Esta foi a história do jogo até ao momento em que o Benfica ficou com dez jogadores. Jesus sacrificou então o herói do Bonfim, Talisca, para fazer entrar Paulo Lopes. A ideia era, a partir daí, deixar as raras saídas para o ataque por conta de apenas três homens (Lima, Salvio e Gaitán) e tentar que no meio-campo Samaris e Enzo fossem capazes de equilibrar a luta com dois velhos conhecidos: Javi García e Witsel.
Reis do passe
Se a tarefa já estava complicada antes da expulsão, depois do vermelho a Artur a missão tornou-se praticamente impossível. E sobretudo porque o Zenit apresentou níveis elevadíssimos de acerto no passe: 91%, com destaque para Javi García (97%) e Witsel (92%). A dificuldade do Benfica, aliás, foi permanente sempre que a equipa precisou de ir à procura da bola. “Apertava” o portador da bola já só quando o adversário entrava nos últimos 60 metros e mesmo assim pressionava mal, com baixa intensidade e até com alguma passividade. Mais: mesmo depois do segundo, quando chegou a dar a ideia de que o Zenit poderia partir para um resultado volumoso, a equipa do Benfica continuava sem perceber se era preferível adiantar a defesa para juntar o bloco e pressionar mais à frente ou, ao invés, esperar atrás e correr menos riscos, sendo que, dessa forma, também dificilmente conseguiria produzir algum lance de perigo. Um dilema que acabou por marcar a noite das águias.
Mais qualidade
A forma como Villas-Boas preparou a visita à Luz foi meio caminho andado para o sucesso, mas não se pode deixar de fora a outra metade do êxito: a qualidade individual de alguns jogadores do Zenit. Hulk e Shatov foram brilhantes de forma contínua – a explorar as costas dos laterais e nos duelos 1x1 quando tinham de abordar Maxi e Eliseu de frente. Shatov até acabou por ser mais influente no jogo. Foi ele quem arrancou uma fantástica diagonal antes de pôr Hulk na cara de Artur (1.º golo) e também foi ele, pouco depois, a fazer o passe que deixou Danny sozinho com o guarda-redes, no tal lance de onde viria a resultar o vermelho. Grande noite de Shatov.
Sem soluções
Com o Zenit a baixar o ritmo na 2.ª parte, o Benfica, mesmo sem soluções para poder discutir o resultado, tentou forçar o golo que lhe daria outra esperança. Mas a manta esteve sempre demasiado curta. Jesus ainda trocou Lima e Samaris por Derley e André Almeida, sem que isso produzisse qualquer efeito. As melhores oportunidades, aliás, continuaram a ser do Zenit. Destaque, ainda assim, para a entrega e a forma digna como a equipa de JJ foi capaz de se bater. A Luz reconheceu o esforço. E agradeceu.
Minuto 5
Hulk já tinha ameaçado aos 2 minutos. Aos 5’, no entanto, não perdoou. O internacional brasileiro ficou frente a frente com Artur, após excelente assistência de Shatov, e limitou-se praticamente a desviar a bola do guarda-redes do Benfica, com toque cruzado. Zenit na frente do marcador e 4.º golo na Luz para o Incrível.
Melhor em campo: Hulk
Agitador, desequilibrador e... marcador. O Incrível voltou a deixar a sua impressão digital no Estádio da Luz ao assinar uma exibição de alta qualidade. Mantém intactas as qualidades que o notabilizaram ao serviço do FCPorto: velocidade e explosão.
NOTA TÉCNICA
Jesus: nota 2
A confiança que a equipa trazia do Bonfim sofreu um duro golpe logo aos 5’, com o golo de Hulk. Pouco pôde fazer para travar o afinado carrossel russo e correu demasiados riscos nos momentos em que adiantou o sector defensivo.
Villas-Boas: nota 4
A saída de bola, o primeiro momento de organização e a qualidade da posse foram fatores decisivos para a superioridade do Zenit. Grande exibição coletiva e uma vitória sem discussão. Deu total liberdade a Danny. E resultou.