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Presidente do Benfica abre o coração no dia em que se cumpre o 1.º aniversário da morte do maior símbolo da história das águias
RECORD – Consegue recordar o momento em que há exatamente um ano tomou conhecimento da morte de Eusébio? Quem lhe deu a notícia?
LUÍS FILIPE VIEIRA – Claramente. Eram cerca das 5 da manhã quando o meu telemóvel tocou. Era o João Malheiro. Confesso que nunca é tempo de receber uma notícia destas, mas na altura foi um choque porque foi totalmente inesperada. Alguns meses antes, talvez estivéssemos à espera do pior, mas não quando aconteceu.
R – Que significado tem na história do Benfica esse dia 5 de janeiro de 2014?
LFV – O dia em que desapareceu a maior figura da história do Benfica. Alguém que pela sua genialidade projetou o clube para um lugar entre os maiores da Europa. Alguém que pela sua humildade conseguiu o reconhecimento de todos, mesmo daqueles que partilham diferentes gostos clubísticos, e isso é o maior reconhecimento que alguém pode alcançar. Eusébio marcou o Benfica, Portugal e o futebol mundial. É uma marca que perdurará para sempre.
R – O Benfica realizou diversas homenagens ao longo destes últimos 12 meses. Ficou alguma coisa por fazer? Ou melhor, o que gostaria de ter feito e que não foi possível?
LFV – Uma das coisas de que me orgulho enquanto presidente do Benfica foi o facto de ter feito tudo o que estava ao meu alcance para lhe dar o lugar a que tinha direito no Benfica e de lhe prestar as homenagens que merecia em vida. Houve um tempo – demasiado longo – em que Eusébio não foi tratado com a dignidade que merecia. Nem pelo Benfica, nem pelo Estado português. Quando não temos memória nem gratidão em relação aos que tornaram o Benfica grande, então corremos o risco de não ter futuro. E houve um tempo em que o Benfica deixou de ter essa memória e de honrar os seus. Essa é a maior satisfação que posso ter em relação a Eusébio.
R – A estátua tornou-se um local de romaria. Já era assim e mais ficou após a morte. A ideia é preservar o espaço tal como ele está hoje?
LFV – Eusébio sempre foi uma pessoa simples e apesar de ter uma ideia muito clara do que gostaria que fosse aquele espaço, que ainda não quero adiantar, ela vai continuar a respeitar a filosofia de vida de Eusébio e vai seguramente continuar a ser um local de homenagem e memória para o nome maior do Benfica.
R – Há um ano, poucos dias depois da triste notícia, o Benfica venceu o FC Porto e embalou para um resto de temporada de grande brilhantismo. Acha que, na altura, o abalo sentido em todos os sectores do clube serviu para unir ainda mais a equipa de futebol?
LFV – A dimensão das manifestações que se viveram no dia 5 e nos dias seguintes deram a todos a real dimensão do que era e do que representava, a nível mundial, Eusébio. Lembro-me dos jogadores do Benfica no cemitério, debaixo de uma chuva torrencial, mas a verdade é que ninguém arredou pé. Houve uma manifestação genuína de dor em relação à partida de um dos nossos. E isso, não vou esconder, mexeu emocionalmente com os jogadores, mas também com todos nós.
R – Dedicou o último título à memória de Eusébio e também de Mário Coluna, que viria a falecer pouco tempo depois. Se o Benfica for bicampeão nacional esta época, Eusébio voltará a ser recordado na festa do Marquês?
LFV – Eusébio será sempre recordado, qualquer que seja o tempo, qualquer que seja o título. Ganhou em vida esse direito. Vai ser uma coisa natural e essa é a melhor homenagem que lhe podemos fazer.
R – As novas gerações perceberão agora a verdadeira dimensão que Eusébio teve à escala mundial?
LFV – Ficaram com uma ideia, porque é evidente que ninguém permaneceu indiferente às manifestações que em Portugal e em todo o Mundo aconteceram, mas acho que a verdadeira dimensão de Eusébio só pode ser realmente percebida por quem o viu jogar. A noção de que não havia impossíveis não se consegue explicar, temos de o testemunhar. Por isso é que eu acho que as gerações que não tiveram oportunidade de o ver jogar nunca vão perceber a sua verdadeira dimensão. Já imaginaram o que seria Eusébio hoje, ou Di Stéfano, com os meios de comunicação verdadeiramente globais?
R – “Eusébio nunca morrerá.” Foi uma frase sua há exatamente um ano. Alguma vez disse, ou poderá vir a dizer, coisa semelhante de uma outra figura nacional?
LFV – São muito poucas as figuras que marcam uma época ao ponto de ganharem o direito a serem “imortais”. Eusébio ganhou esse direito em vida. Todos nós temos figuras de referência que se destacam pelo que fazem, pelo que nos deixam, pelo exemplo. Não quero ferir suscetibilidades, mas mal de nós se não tivermos, no futuro, portugueses a ganhar esse estatuto. Seria muito mau sinal para o país.
R – O que gostava de ter dito a Eusébio que já não teve oportunidade de dizer?
LFV – Felizmente disse tudo. Tive a felicidade de ser o presidente que trouxe Eusébio de volta ao clube, ao lugar que era seu por direito, que lhe ouviu várias mágoas, que trocou com ele memórias de vários Benficas, que falou com ele das expectativas que cada um de nós tinha para o futuro.
R – Que lugar Eusébio merece na História de Portugal?
LFV – Um lugar entre os maiores da nossa História. Foi ele, quando o país estava fechado ao Mundo pela ditadura, um dos poucos que conseguia projetar Portugal para além das suas fronteiras. E essa é uma marca que nunca pode ser esquecida, bem como o exemplo de superação e talento que representou para várias gerações.
R – Alguma vez Eusébio lhe pediu para voltar a fazer do Benfica campeão europeu?
LFV – Ele tinha uma ideia muito clara do que era o futebol hoje, da diferença e do poder económico de alguns clubes europeus. Sempre foi muito realista e, mais do que isso, foi testemunha privilegiada da degradação que o clube sofreu durante anos. Várias vezes o ouvi falar com orgulho do que era agora o Benfica, da credibilidade que tinha recuperado, das condições de trabalho, etc... Isso para ele era motivo de orgulho. É verdade que, várias vezes, em conversa, disse que gostava de ver voltar a ver o Benfica campeão europeu, mas ele próprio sabia que o caminho era muito estreito. Há pouco falou da melhor maneira de homenagear Eusébio. Esta seria, sem dúvida, a melhor de todas!
R – Foi sua a ideia de jogarem “11 Eusébios” naquele clássico frente ao FC Porto?
LFV – Prefiro dizer que foi ideia da estrutura do Benfica que, na minha opinião, esteve à altura dos acontecimentos num momento inesperado e delicado da vida do clube.
R – O ídolo de Eusébio, Di Stéfano, morreu também em 2014. Há quem defenda que juntamente com Pelé foram estes os 3 maiores da história do futebol. Concorda?
LFV – Uma das coisas mais impressionantes é que apesar da projeção que Eusébio tinha e da forma como era idolatrado em todo o Mundo, ele sempre disse no seu jeito humilde que Di Stéfano tinha sido o melhor jogador que vira jogar. Isso diz bem do valor do Di Stéfano e do caráter de Eusébio. De Pelé também não é preciso dizer nada. Sem dúvida que foram os 3 maiores do futebol mundial durante várias décadas, mas é evidente que já há depois deles outras figuras que marcaram de forma determinante o futebol e vão sempre aparecer nomes que se vão tornar mitos pelo talento e pela forma como se destacam de todos os restantes. É a lei da vida.
R – Que palavra deixa à família de Eusébio?
LFV – A mesma de sempre. Que se devem orgulhar do que Eusébio foi e fez e de que a sua memória será sempre preservada pelo Benfica. E deixar também a garantia de que nada lhes faltará. A Flora sabe-o e não é de agora, é desde que cheguei à presidência do clube.