Barcelona-Benfica, 2-0: A águia desceu à terra
A aterragem da viagem pelo céu europeu foi mais suave do que seria de esperar depois de tantos minutos de temporal em Camp Nou
Foi uma viagem linda, que terminou com uma aterragem suave em Camp Nou. Ao contrário do que chegaram a sugerir adeptos e alguma imprensa catalã, foi mesmo preciso haver jogo para se mostrar quem merecia atingir as meias-finais da Liga dos Campeões. Essa foi, de resto, a maior vitória encarnada na noite de ontem: descer à terra em paz consigo mesma, certa de ter cumprido o dever, fazendo-o em segurança, com o prestígio intacto, passando incólume momentos de verdadeiro temporal na visita a Camp Nou. Tal como em Lisboa, o Benfica deu meia parte de avanço (pode mesmo dizer-se que não jogou), rectificando atitude, posições e imagem pelo que fez no decorrer da segunda metade. Antes do golo de Eto’o, aos 89’, o campeão nacional criou e desperdiçou duas ou três excelentes ocasiões, que o aproximaram da qualificação mais do que seria de esperar.
Um susto
O Benfica jogou em Camp Nou o prolongamento de um sonho bonito, que o devolveu aos grandes palcos europeus, mas cedo deu a entender que a sua manta era curta de mais para as ambições que o sustentavam. Uma equipa excessivamente encolhida, que defendeu muito atrás e não se estendeu até ao meio campo adversário; uma equipa nervosa que foi acumulando erros graves e sucessivos, até atingir o ponto em que corria e lutava apenas para se salvar.
Nem a grande penalidade defendida por Moretto, logo aos 5’, inverteu essa tendência. Nem o Benfica se motivou e inspirou com o empurrão psicológico de ver o seu guarda-redes começar o jogo em grande, nem o Barcelona deu sinais de perturbação. O jogo prosseguiu nos mesmos moldes, com os catalães em ritmo de cruzeiro ao ataque da baliza encarnada e os portugueses sem capacidade para sacudir essa pressão – uma equipa, diga-se, organizada de forma diferente no seu ataque, tendo Simão actuado nas costas de Miccoli, o que deu ao sector intermediário a forma de losango.
Excesso de confiança
O golo de Ronaldinho, aos 19’, selou a superioridade e criou ao jogo um cenário estranho. Com o resultado em 1-0, ou seja, com o Benfica ainda na corrida, o Barça agiu como se estivesse a ganhar por quatro ou cinco. O excesso de confiança alastrou ao relvado, com tudo o que a imprudência pode implicar na concentração dos jogadores.
O Benfica chegou ao intervalo com o moral em cima: manteve a desvantagem mínima e partiu para o descanso com o seu único remate da primeira parte, aos 45’+3. Pegando nessa deixa, os encarnados subiram no terreno à entrada para o período complementar. Ganharam uns metros, pressionaram melhor os jogadores do Barça, obrigando-os a cometer erros e aproximaram-se da baliza. O perigo resultou no espaço maior que abriram nas suas costas, mas não demorou muito para se concluir que valia a pena o risco.
Ameaça
O tempo foi um aliado dos benfiquistas, que se tornaram cada vez mais ameaçadores. Aos 61’, Simão desperdiçou a grande ocasião do jogo, isolado na cara de Valdés e, a partir daí, o contra-ataque encarnado constituiu ameaça permanente, ainda que nem sempre concretizada da melhor forma. O Barça, que agiu durante largo período como se tivesse ganho por decreto, assustou-se e só explodiu para a festa quando apontou o segundo golo, aos 89’. No fim, a águia desceu à terra. E dela tem o futebol português razões para se sentir orgulhoso.
Árbitro
Lubos Michel (1). Arbitragem suficientemente caseira para merecer repúdio. Sem critério nem firmeza nas decisões, foi habilidoso do princípio ao fim.