Benfica concretiza suspensão anunciada do ciclismo
"Falta de organização e de dinheiro e ausência de perspectivas de sucesso desportivo" são algumas das razões invocadas pelo dirigente, o qual admite que o "parceiro" anunciado antes das eleições "recuou" e que a verba necessária para continuar seria superior a 300 mil contos
UMA conferência de imprensa "sem perguntas" foi o enquadramento escolhido pela Direcção benfiquista (o presidente Manuel Vilarinho e os "vices" Tinoco de Faria e Nuno Moreira da Cruz foram os intérpretes do monólogo) para anunciar a "suspensão do ciclismo no clube", uma medida que, desde logo, provocou a indignação de algumas dezenas de adeptos do clube da Luz presentes na sala.
Moreira da Cruz, o vice-presidente responsável pelas modalidades, esclareceu que uma das razões para a decisão "é a intenção de apostarmos forte, na próxima época, no basquetebol e hóquei em patins, pelo que os recursos não poderiam, agora, ser canalizados para o ciclismo".
Em declarações a Record, o dirigente explicara que "neste momento, para 'limparmos' tudo e avançarmos com a equipa, seriam necessários 340 mil contos. Tendo em conta que o eventual patrocinador só avançaria com metade dessa verba (n.d.r - Moreira da Cruz já admitira a Record, que o 'parceiro' anunciado antes das eleições recuara), concluímos que o Benfica, neste momento, não pode colocar 170 mil contos no ciclismo".
Outro dos factos que acabou por precipitar a decisão foi a chegada, terça-feira, de um fax da UCI, "avisando" o Benfica de que não poderia inscrever a equipa se não liquidasse até ao final deste mês os 120 mil contos de salários em atraso, na sequência das cartas enviadas por alguns ciclistas reclamando a activação da garantia bancária (em princípio, cobre três meses de salários).
"Agora, vamos negociar com os ciclistas e restante 'staff' a forma de liquidarmos as dívidas e de resolver os contratos que foram assinados com os novos corredores. Sabemos que, neste momento, é mais barato acabar com a equipa do que continuar, mas, mesmo que os valores fossem idênticos a decisão seria igual, pois o verdadeiro problema é a falta de organização e a falta de planeamento que caracterizaram os anos anteriores. Assumiram-se despesas, mas não se promoveu a criação de receitas. Por isso, o ciclismo bateu no fundo e já não há a mínima hipótese de promover uma reestruturação. Além disso, esta equipa não nos dava garantias de sucesso desportivo", explicou, ainda, Moreira da Cruz, o qual admite um eventual regresso da secção, "mas apenas com certezas em relação às formas de funcionamento e financiamento".
A prioridade é promover "o mais depressa possível o saneamento financeiro das modalidades, que actualmente geram 50 mil contos de prejuízo por mês (600 mil anuais)".
Entretanto, o director desportivo da equipa, António Brás, reservou qualquer comentário para uma conferência de imprensa a realizar quarta-feira.
Reacções
Artur Lopes, Presidente da Federação Portuguesa (FPC)
"Há extinções ou suspensões de equipas em todo o Mundo... o que me preocupa são as queixas que os corredores e outros funcionários da equipa de ciclismo do Benfica apresentaram à UCI, solicitando a activação da garantia bancária referente a três meses de salários - os que o fizeram sabem que receberão pelo menos parte dos atrasados, agora só espero é que o Benfica cumpra em relação aos contratos que estabeleceu para a próxima temporada. É que, neste momento, sentimo-nos menos 'confortáveis' no relacionamento com a União Ciclista Internacional, pois nunca tínhamos tido qualquer processo menos transparente ou menos 'elegante', como é o caso deste. O regresso do Benfica trouxe mais gente à estrada, mas também deixou um 'rabo difícil de esfolar', que se traduz numa imagem incorrecta e negativa."
José Manuel Antunes, ex-vice-presidente do Benfica
"É uma decisão inacreditável, tendo em conta que o novo 'vice' afirmou, antes das eleições, em entrevista ao vosso jornal, que já tinha um parceiro estratégico para o ciclismo (que qualificou como modalidade prioritária), afinal... Por outro lado, foi aprovada, por voto secreto, em assembleia geral, a criação de uma SAD para o ciclismo. Não sei até que ponto é legítimo que uma decisão da Direcção se sobreponha a outra da AG. Mas o pior é a questão social: muitos chefes de família confiaram no projecto e na grandeza do Benfica e agora são 'abandonados'. Para uma Direcção que, ao longo da campanha, sempre falou em honra, parece-me mau começar por aniquilar uma série de contratos legítimos de uma equipa que, na minha opinião, seria a mais forte de sempre do clube."
Luís Sarreira, ciclista do Benfica
"Se o ciclismo no Benfica continuasse nos mesmos moldes que se verificaram até agora, então, se calhar, não vale mesmo a pena... Mas antes de assinarem os contratos é que deviam preocupar-se em averiguar se a modalidade era ou não viável. Oficialmente, ainda não sei de nada, por isso, como é óbvio, não tenho quaisquer perspectivas de colocação noutra equipa. Vou aguardar, mas o que é certo é que já estou a passar por grandes dificuldades financeiras e, se não continuar no ciclismo (tem sido a minha vida nos últimos 20 anos e gostaria que continuasse a ser) terei de trabalhar noutra coisa qualquer..."
Joaquim Andrade, ciclista do Benfica
"Já estávamos um pouco à espera desta decisão, face aos desenvolvimentos dos últimos dias, mas havia sempre a esperança de a equipa poder continuar. Agora, os ciclistas estão numa situação complicada, pois as formações portuguesas já estão com os plantéis completos. Vamos aguardar para ver o que acontece nos próximos dias. De qualquer maneira, não descuro a hipótese de poder ir correr para Espanha. Não quero e não posso ficar sem correr um ano ou mais."
Michel Laddomada, ciclista do Benfica
"O director desportivo do Benfica, António Brás, telefonou-me ontem [anteontem], mas ainda não sabia de nada. Agora, você diz-me que a equipa acabou. Bem, agora vou tentar ficar numa equipa portuguesa, mas se não for possível vamos ver o que poderei arranjar no meu país, em Itália, ou mesmo em Espanha."
Serguei Smetanine, ciclista do Benfica
"Está a dar-me uma novidade, não sabia de nada. Apesar de ser ciclista da equipa, penso que tomaram a decisão certa, pois a equipa não estava bem, funcionava muito mal. Se era para continuar tudo na mesma, estou de acordo com a extinção. Existe uma equipa interessada em mim, em Espanha, mas por enquanto não posso dizer nada, pois sou ciclista do Benfica, tenho contrato por mais uma temporada, vão ter de me pagar. Por enquanto, fico a aguardar um contacto de alguém do Benfica, pois, como já disse, não sabia do que se estava a passar."