Benfica-Gil Vicente, 0-0: Benfica triste e descrente ganhou um ponto e vá lá...
Só não vê quem não quer que não é para o ataque que os encarnados precisam de reforços. Se nada mudar no equilíbrio do plantel, Toni estará a receber, em época natalícia, o presente mais envenenado da sua vida
TONI repetiu domingo, no seu regresso à Luz como treinador principal do Benfica, o nulo com que se tinha despedido do banco encarnado há precisamente 1972 dias. As condições de um e outro empates são, todavia, diversas. Em 29 de Maio de 1994 o Benfica festejava o título conseguido dias antes, em Braga, frente ao Gil Vicente e a divisão de pontos com os vimaranenses fez parte das celebrações e não impediu que a alegria se espalhasse pela nação encarnada. Domingo, o sabor do nulo foi bem mais amargo. Toni, depois da derrota em Alverca, não viu a sua equipa bater o lanterna vermelha (o Gil tinha perdido os sete jogos que disputara até então fora de Barcelos) e, mais do que isso, presenciou uma exibição descolorida do Benfica, a sugerir muito trabalho pela frente e ainda a necessidade imperiosa de reforçar o plantel em lugares-chave.
Depois do espectacular triunfo sobre o Sporting de há duas semanas, as alterações verificadas na Luz, com tudo o que de traumático encerraram, abanaram o clube. Estes dois últimos resultados (um ponto em seis, frente a Alverca e Gil Vicente) não contribuíram para a galvanização dos adeptos e o Benfica prepara-se para entrar em 2001 com mais dúvidas que certezas. Com os assobios ouvidos no final da partida a traduzir a desilusão de uma massa adepta inconformada com mais um ano de jejum em perspectiva.
Toni não mexeu no onze que tinha começado o jogo em Alverca. Mas, das duas, uma. Ou o treinador do Benfica convence a Direcção e os investidores da necessidade de reforçar as laterais, na defesa, e o centro do meio-campo, ou o clube da Luz vai passar, até ao fim da época, por pesadelos iguais ou piores do que aquele ontem vivido frente ao Gil Vicente. É por de mais evidente que o Benfica tem um bom guarda-redes e centrais que garantem qualidade. Também na frente e nas alas a situação é... aceitável. Porém, é para as posições 9 (André) e 10 (Roger) que o clube está a reforçar-se, enquanto que as necessidades prioritárias se situam ao nível das posições 2 (lateral-direito), 3 (lateral-esquerdo) e 6 (trinco).
Gil atrevido
Luís Campos apresentou-se domingo na Luz com um modelo de jogo inteligente e moderno, capaz de tapar os caminhos para a baliza de Paulo Jorge ao mesmo tempo que permitia elasticidade para incomodar (e de que maneira) Robert Enke. O treinador do Gil Vicente privilegiou um sistema de base 4x5x1, desdobrável em 4x3x3, manifestando sempre a preocupação de defender tão longe quanto possível da sua baliza e contra-atacar com um número significativo de elementos. Sem marcações individuais nem ferrolhos, a zona do Gil chegou para as encomendas da Luz e foi o clube de Barcelos a criar as primeiras situações de perigo.
O Benfica demorou muito a encontrar ritmo e respondeu quase sempre em lances protagonizados por Carlitos. O ex-gilista deu muito que fazer a Nuno Amaro, mas como uma andorinha não faz a Primavera o Benfica raras vezes animou a sua plateia.
Com João Tomás e Miguel desinspirados e Maniche “perdido” no terreno, os donos da casa criaram a ocasião mais flagrante na sequência de um canto apontado por Calado (38 minutos) que João Tomás cabeceou à trave. Antes, aos 28 e 33 minutos, Enke, o melhor benfiquista, teve de se aplicar para que a surpresa não fosse ampliada. E antes do intervalo o alemão, com um golpe de rins, evitou o golo de Rui Jorge Figueiredo.
Toni bem tenta
Para a segunda parte (que começou com dois sustos para o Benfica devido a perdas de bola de Dudic e Diogo Luís aos 46 e 47 minutos), Toni trocou Maniche por Sabry, mas o egípcio foi mais fumo que fogo. Numa primeira fase, o “faraó” colocou-se nas costas de João Tomás, embrulhando de mais o jogo.
Depois, já com Pierre van Hooijdonk em campo (63 minutos), foi para a esquerda, onde subiu de rendimento, passando do medíocre ao sofrível. Com o internacional holandês a fazer par, na frente do ataque, com João Tomás, Luís Campos, ágil a responder no banco, fez entrar Lemos e mudou o sistema do Gil Vicente para 5x3x2, medida que se mostrou completamente acertada. O Benfica passava a ser mais perigoso na frente do que no meio, por isso o equilíbrio encontrado acabou por favorecer os forasteiros.
Claramente, André – o melhor em campo – Vítor Vieira e Matias garantiam superioridade nessa zona, enquanto Lemos, Ivo e Sérgio Lomba se ocupavam, com eficácia, dos pontas-de-lança.
O treinador do Benfica, mais à frente, arriscou tudo, tirando Calado (79 minutos) e enviando Poborsky para jogo, mas o checo (que eventualmente poderia ter entrado antes, para a direita, já que Carlitos perdeu muito gás da primeira para a segunda parte) acabou por não ser a resposta às preces dos encarnados.
A última grande sensação do jogo acabaria por pertencer aos de Barcelos, quando uma jogada maravilhosa de André foi concluída por este jogador com um remate que quase traía Enke. E nem mesmo os 7 minutos e 15 segundos de “descontos” chegaram para que o Benfica se aproximasse dos três pontos.
Em resumo, o empate do Gil na Luz é um prémio justo para uma equipa que bem precisa de acreditar que pode permanecer entre os maiores. Quanto ao Benfica, Toni sabe bem o que precisa. E precisa, sobretudo, que lhe dêem ouvidos...
Cunha Antunes fez um bom trabalho.