Colapso do coração

A morte de Fehér volta a colocar os problemas de coração dos atletas na ordem do dia, menos de um ano após o senegalês Fadiga ter visto a transferência do Auxerre para o Inter ser "congelada" quando lhe foi detectada uma arritmia. Menos de um mês antes, o camaronês Marc-Vivien Foé faleceu em campo, vítima de uma hipertrofia

Colapso do coração
Colapso do coração • Foto: Luís Vieira
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Miki Fehér faleceu após duas paragens cardíacas, uma em campo, outra a caminho do hospital. Infelizmente, não é caso único no futebol, sequer no desporto de alta competição. Os problemas de coração nos atletas têm afectado sobretudo os africanos, no que toca ao futebol. Basta recuar oito meses e lembrar a tragédia do camaronês Marc-Vivien Foé.

Foé

Marc-Vivien Foé faleceu durante a meia-final da Taça das Confederações, disputada em Junho de 2003. A autópsia revelou um hiperde- senvolvimento da válvula esquerda. Quando se considera os rigorosos exames médicos a que são sujeitos os fu- tebolistas hoje em dia, não se percebe como um profissional de 28 anos pode cair redondo no relvado e morrer.

Fadiga

Menos de um mês depois, o senegalês Khalilou Fadiga rumou a Milão para realizar os rotineiros testes médicos que lhe abririam a porta do Inter. Mas o cardiologista Bruno Caru, um dos consultores do clube, tinha outra ideia:

"Ele tem um problema que pode causar uma paragem cardíaca em campo". Uma arritmia cancelou a transferência. O Auxerre insistiu que o jogador estava apto para jogar e depois dos arrufos públicos, o Inter, a custo, lá integrou o jogador no plantel.

Exames

O Inter de Milão é muito rigoroso nos exames cardíacos, sobretudo a atletas africanos. Foi o departamento médico deste clube que diagnosticou o defeito na aorta do nigeriano Kanu, em 1996 [ver peça à parte].

O mesmo aconteceu a Gerald Asamoah (Schalke 04), ganês de origem, internacional alemão que alinhou no último Mundial. Os médicos do seu antigo clube, o Hannover 96, encontraram algumas irregularidades no coração e decidiram suspender-lhe a actividade. Só voltou a jogar quando especialistas norte-americanos se responsabilizaram pela sua condição, defendendo que não corria risco de vida.

Alemanha

O futebol alemão recebe muitos africanos e, nos últimos anos, surgiram três outros casos nos escalões inferiores, todos ligados ao coração. Emmanuel Nwanegbo, nigeriano, faleceu em campo, numa partida da Liga Regional; Edith Agoye teve de parar meio ano devido a uma infecção, em 98/99, mas retomou a carreira na Tunísia, no Esperance; Olivier Djappa, camaronês, era a grande estrela do Borussia Fulda, até ser "apanhado" pelos exames, o que o obrigou a parar largos meses e a responsabilizar-se pelo regresso à competição, por sua própria conta e risco.

Emmanuel Petit criticou Blatter

"Às vezes é preciso pensar primeiro nas pessoas e só depois no jogo". As palavras são do internacional francês Emmanuel Petit, campeão do Mundo em 1998, e dirigem-se a Sepp Blatter, por este ter decidido que França e Camarões jogariam a final da Taça das Confederações, apesar da morte de Marc-Vivien Foé.

Mesmo ausente da selecção, o médio do Chelsea sentiu a tragédia na pele, pois perdeu o irmão mais velho, Olivier, quando este sucumbiu a uma hemorragia cerebral durante um jogo de futebol em 1988, aos 20 anos.

Tragédia de Pinto a Pavão

A data de 3 de Março de 2002 é de má memória para o basquetebol português. Decorria o primeiro período do jogo entre Aveiro Basket e Benfica, quando Paulo Pinto, capitão da selecção nacional, tombou dentro de campo numa altura em que o seu técnico, Carlos Lisboa, tinha solicitado um desconto de tempo. As diversas tentativas para o reanimar falharam.

Apesar de a família, com toda a legitimidade, ter decidido não divulgar os resultados da autópsia, a morte de Paulo Pinto, licenciado em Medicina, deveu-se a um colapso cardíaco. Não foi caso único no basquetebol luso. Em 29 de Julho de 1997, Angel Almeyda, espanhol da Portugal Telecom, foi traído pelo coração durante um treino de início de época, no Estádio da Tapadinha.

Rui Guimarães, jovem basquetebolista angolano, 22 anos, também da Portugal Telecom, caiu fulminado durante um treino "livre" (2 contra 2) realizado em Alvalade, a 6 de Julho de 1998.

No futebol, o caso mais famoso é o de Pavão. O médio do FC Porto morreu fulminado por uma paragem cardíaca no Estádio da Antas, durante o embate com o V. Setúbal, a 16 de Dezembro de 1973.

O último caso mediático foi o do congolês Landu, falecido aos 36 anos numa partida entre o seu clube, o Oliveira de Frades, e o Oliveira do Douro, referente à I Divisão da AF Viseu. A tragédia ocorreu em 17 de Fevereiro de 2002 e as causas ainda estão envoltas em mistério. Pelo meio, a jovem promessa Tonanha (Belenenses) foi obrigada a encurtar a carreira.

Ressurreição de Kanu

Nwankwo Kanu, internacional da Nigéria, era um jovem com o mundo na mão. Desde os 16 anos, foi um jogador seguido com atenção pelos grandes clubes europeus, mas o Ajax chegou primeiro, em 1995. Foi considerado Jogador Africano de 1996 e voltou a ser eleito em 1999. No período entre as duas datas, viu a vida devastada.

Após a mudança para o Inter de Milão, o médico do clube descobriu uma válvula defeituosa na aorta. Depois de examinado por três especialistas italianos, foi-lhe dito que não voltaria a jogar futebol... sob risco de perder a vida. Kanu recusou-se a aceitar o diagnóstico e partiu para os EUA, onde se sujeitou a uma penosa operação de quatro horas e meia no Hospital de Cleveland.

A convalescença foi longa e não haviam garantias de sucesso. Milagrosamente, voltou a jogar futebol, no Inter, 18 meses após o diagnóstico inicial. No entanto, os responsáveis do Inter continuaram cépticos em relação à sua recuperação e só no Arsenal relançou a carreira.

Em 1999, anunciou a criação da "Fundação do Coração Nwankwo Kanu", agradecido "pelo extraordinário trabalho de Deus ao salvar a minha vida". O jogador quis assim dar "uma modesta contribuição para a erradicação dos problemas de coração". O seu objectivo principal é construir cinco clínicas especializadas em África. Tem mau coração? Pelo contrário...

MORRER EM CAMPO

FOE

A autópsia de Marc-Vivien Foe, falecido ao minuto 72 da semi-final entre Camarões e Colômbia, revelou uma hipertrofia cardio-miopática causada pelo hiper-desenvolvimento da válvula esquerda. Segundo os especialistas, o defeito seria congénito e só detectável através de exames extensivos.

JOCK STEIN

Jock Stein, o mítico treinador do Celtic, campeão da Europa em 1967, não chegou a festejar a qualificação da Escócia para o Mundial 86. O seleccionador sofreu um ataque cardíaco no banco, quando os escoceses empataram a partida em Gales (1-1), conquistando assim o ponto que necessitavam. Stein morreu, dizem, onde queria.

OKWARAJI

O caso de Foe é similar ao do internacional nigeriano Samuel Okwaraji, 24 anos na altura em que caiu inanimado (Agosto de 1989), dez minutos após o início do embate com Angola a contar para a fase de qualificação do Mundial 2000. A autópsia descobriu um coração demasiado grande e forte pressão sanguínia.

MÁRCIO

Em Outubro último, o brasileiro Márcio dos Santos, 28 anos, faleceu de ataque cardíaco após marcar um golo pelo Deportivo Wanka, clube peruano.

LONGHURST

Na Inglaterra, o único caso conhecido é o de Dave Longhurst, falecido aos 25 anos quando o York City defrontou o Lincoln City, em Setembro de 1990. Sofria de uma doença rara no coração.

ROMÉNIA

Desde 1963, o futebol romeno tem sido devastado por várias mortes em campo, devido a colapso cardíaco. Começou com Constantin Tabarcea, aos 26 anos. Em quinze meses, entre 1999 e 2001, quatro jogadores faleceram. Entre eles, o jovem Stefan Vrabioru, que perdeu a vida no seu jogo de estreia ao serviço do Astra Ploiesti, ante o Rapid Bucareste.

TRAGÉDIAS EM PORTUGAL

PAVÃO (16-12-73)

Médio portista morre fulminado por uma paragem cardíaca, no Estádio das Antas, durante o jogo FC Porto-Vitória de Setúbal, da 13ª jornada do Nacional de futebol da I Divisão. Fernando Pascoal das Neves tinha 26 anos.

NAVALHO (23-08-87)

Paulo Navalho, de 20 anos, morre na Tapadinha, em Alcântara. Estavam cumpridos apenas quatro minutos do jogo de futebol particular entre o Atlético e o Al-Jazir, dos Emiratos Árabes Unidos. A causa: enfarte agudo do miocárdio.

ANGEL ALMEYDA (29-07-97)

O basquetebolista espanhol da Portugal Telecom é traído pelo coração durante um treino de início de época, quando corria no Estádio da Tapadinha.

RUI GUIMARÃES (06-07-98)

O jovem basquetebolista angolano, de 22 anos, campeão nacional de sub-22 pela Portugal Telecom, cai fulminado durante uma sessão de treino livre (jogos de dois contra dois), em Alvalade.

MÁRCIO (16-06-99)

O futebolista brasileiro da equipa do Marítimo gozava férias na sua cidade natal (Campo Grande) quando, numa simples corrida de manutenção, tombou vítima de embolia cerebral.

PAULO SÉRGIO (26-12-00)

Paulo Sérgio Marques Correia morre, aos 22 anos, vitimado por uma paragem cardíaca, durante uma partida do Campeonato Distrital de futebol do Inatel de Viseu, disputada em Vouzela.

LANDU (17-02-02)

O congolês Landu Ndonbasi, de 36 anos, morre por causas ainda desconhecidas, durante um encontro de futebol entre a sua equipa, o Oliveira de Frades, e o Oliveira do Douro, da I Divisão da Associação de Futebol de Viseu.

PAULO PINTO (03-03-02)

Decorria o período inicial do jogo de basquetebol entre o Aveiro Basket e o Benfica quando o capitão da selecção nacional tombou dentro do campo, numa altura em que o seu treinador, Carlos Lisboa, pedia um desconto de tempo. A causa da morte não foi oficialmente divulgada, mas fontes próximas do processo garantem que o jogador sucumbiu devido a problema cardíaco.

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