Do título do ataque ao título da defesa
Quando, antes do arranque da temporada 2009/10, Jorge Jesus chegou à Luz e disse que, sob a sua alcada, a equipa iria jogar o dobro do que fizera na época anterior, a promessa soou a basófia. Contudo, meses depois, as águias estavam a festejar o título e, pelo meio, rubricaram exibições de "encher o olho", aqui e ali devidamente condimentadas com goleadas que fizeram as delícias dos adeptos encarnados.
A conquista desse título não surpreendeu. O Benfica foi a equipa que melhor jogou, que maior número de golos marcou (78, mais 30 que o Sp. Braga, o segundo colocado) e que chegou a vulgarizar vários adversários, nomeadamente no seu reduto, onde só não ganhou um dos 15 encontros (o primeiro, perante o Marítimo, que terminou com uma igualdade 1-1) e construiu um sensacional saldo de 46-6 em golos, com "doses" consideráveis a V. Setúbal (8-1), Leixões e Olhanense (5-0), Nacional (6-1) e Académica (4-0).
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A primeira versão do Benfica da "era-Jesus" funcionava sempre em alta voltagem. A ideia base era ganhar forçando o ataque de princípio a fim. Se, para isso, fosse necessário desguarnecer a defesa... não havia problema. A única condição era procurar sempre marcar mais golos do que aqueles que eventualmente se sofriam.
Cardozo, com 26 golos obtidos, foi o jogador que mais beneficiou deste modelo onde, basicamente, a bola andava quase sempre perto da baliza contrária.
Os anos da seca
Mas, como se sabe, desde então até aos dias de hoje passaram mais três temporadas em que as águias apenas conseguiram vencer Taças da Liga. Jesus tentou repetir a "tática" colocada em prática na sua primeira época, mas a verdade é que o sistema não produziu os resultados desejados. Porquê? Essencialmente porque mesmo evidenciando um rendimento ofensivo interessante, a equipa revelou problemas na defesa e não aguentou o ritmo exigente de quem jogava em várias frentes, apostando quase sempre nos mesmos jogadores.
Ora, o título 2013/14 ficará para a história como aquele em que Jesus mudou de filosofia. Agora, mesmo continuando a marcar em todos os jogos do Campeonato e quase em todos realizados em Portugal (só ainda falhou no Dragão, na primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal), a grande arma chama-se defesa.
De facto, o Benfica só sofreu 2 golos nos últimos 11 compromissos (todos vitórias) na Liga e ambos na Choupana, perante o Nacional, com a particularidade do primeiro ter sido obtido de penálti. Desde o jogo em Olhão, que assinalou a lesão de Artur e a entrada em ação de Oblak, os encarnados só sofreram 3 golos. Os dois já referidos e um da autoria de Vítor Gonçalves, em Barcelos, aquando do empate com o Gil Vicente.
Nesta altura, os 56 golos do Benfica não são nada de especial (embora representem a melhor marca entre os 16 participantes na prova), mas os 15 sofridos revelam uma consistência defensiva notável. Nos últimos meses, a equipa passou a adoptar um modelo de gestão algo perigoso, é certo, mas que funcionou em pleno. Em vários encontros, mais na condição de visitante mas também na Luz, os encarnados trataram de marcar um golo e, logo de seguida, tiraram o pé do acelerador, poupando energias e convidando os opositores a avançar para, em contra-ataque, ser teoricamente mais fácil o dilatar da vantagem.
Haverá sempre quem diga que esta nova filosofia não é tão atrativa, que em alguns jogos (na Choupana ou em Braga, por exemplo) não ajudou a acabar com as dúvidas mais cedo e que, aqui e ali, a estrelinha da sorte acabou por dar uma mãozinha. Tudo isso é verdade. Contudo, aquilo que adeptos e dirigentes mais desejavam - a conquista do título - foi alcançado com toda a justiça e bem antes do termo da prova. A "nota artística", de facto, nem sempre foi a melhor, mas quem queria mais "shows" durante largos meses para, depois, em poucos dias, ver as festas noutras paragens? Assim, com esta versão alternativa, o sucesso voltou e o Terceiro Anel fez as pazes com Jesus.
Os golos das águias com Jesus