Livres de Pierre van Hooijdonk e Sanchez para fazerem diferença
O holandês acertou três vezes na baliza dos adversários na I Liga e o boliviano quatro (o boavisteiro conta com 15 golos de livre directo na I Divisão nacional). Os seus atributos são uma solução para a vitória, quando o resto falha
QUE influência terão os livres directos no resultado final do Benfica-Boavista de domingo? Uma pergunta cuja resposta está nos pés de Van Hooijdonk e Sanchez, exímios marcadores daquele tipo de lances que têm provado com golos a eficácia dos seus atributos.
O holandês leva três golos marcados de livre na I Liga, mais um na Taça UEFA (ante o Halmstad) e o boliviano quatro, mais um na Taça UEFA (ante o Barry Town).
A destreza de Erwin "Platini" Sanchez já é conhecida no futebol português, desde os seus tempos no Estoril. A época 91/92 foi coroada com oito golos, dois dos quais em livres directos (ao Famalicão e Torreense).
Depois do salto para o Boavista, a torneira abriu: dois ao FC Porto e U. Leiria, um ao Belenenses, D. Chaves, Gil Vicente, Marítimo, D. Aves e Beira Mar (dez no total).
Pelo meio, mais três com a camisola do Benfica, em 97/98, ao Belenenses, Leça e... Boavista. No total, quinze golos de livre directo.
Pierre van Hooijdonk está a mostrar o que insinuou quando foi contratado pelo Benfica: "Gosto de marcar os lances de bola parada." E tem-no feito em todos os clubes por onde passou, se bem que os "penalties" estivessem sempre à frente. Mas, no Benfica, encontrou um espaço ideal para fazer a diferença nos livres.
Marcou três (dois frente ao Beira Mar, na Luz e em Aveiro, e um ante o E. Amadora), para além de ter aproveitado um livre directo e outro indirecto apontados por companheiros, no caso, Roger e Chano.
As diferenças no estilo são algumas [disso falam os especialistas ouvidos por Record], mas ambos surgem, neste momento, como soluções para a vitória.
Mais claro é o caso benfiquista: na era Toni, a equipa apontou 18 golos, 11 dos quais de bola parada. Domingo, o "jogo da liderança" apresentará um duelo muito particular.
A arte do livre
Marcar livres directos é um talento pouco aproveitado em Portugal. A marcha da história do futebol nacional não apresentou muitos especialistas, mas um nome, como em todos os demais aspectos do jogo, sobressai: Eusébio. O pé-canhão do "Pantera-Negra" fez mossa em muitos anos de carreira.
Jogadores como Fernando Peres, Mendes (o pé-canhão de Guimarães) ou Paco Gonzalez (goleador do Belenenses) foram excepção num tempo onde os lances de bola parada eram mais-valias pouco aproveitadas. Na mesma altura, no Brasil, Zico executava, todos os dias, cem livres como treino.
A década de 80 trouxe Oliveira, Sousa, Diamantino, Madjer, Carlos Manuel e outros que tentaram fazer da arte do livre directo uma solução para as vitórias dos respectivos clubes. Maradona ensinava então como incutir eficácia e beleza a uma bola parada, transformando-a num golo de arregalar os olhos.
Os brasileiros deram o mote: Celso, Branco, Geraldão, Ricardo Gomes e Valdo. Portugal começou a perceber a importância destes mágicos que não olhavam a distâncias ou barreiras para cumprirem o objectivo: fazer uma bola "morta" vibrar as redes contrárias.
Apareceram então Guetov, Sanchez, Timofte, Balakov...
Hoje em dia, marcar bem livres directos é sinal de estatuto. Figo percebeu isso e lançou-se no aperfeiçoamento de uma jogada que deixava sempre para outros: Stoitchkov, Ronaldo, Rivaldo... Van Hooijdonk trouxe ao Benfica a noção de que uma grande equipa precisa sempre de uma mecânica qualquer para vencer quando o futebol praticado não chega.
O FC Porto tinha Jardel, o Sporting tinha André Cruz, o Benfica tem o holandês (e Roger) e o Boavista, que perdeu Timofte, arranja-se bem com Sanchez.
Sousa enaltece atributos de Sanchez
O actual treinador do Beira Mar, exímio marcador de livres quando jogador, dá a sua opinião: "Quer um quer outro são dois grandes executantes de bola parada, com aptidões muito próprias. O Van Hooijdonk é mais forte e remata de forma mais seca, sempre cortado e normalmente tem sucesso nos livres na meia esquerda. O Sanchez tem mais atributos porque bate de qualquer posição."
«À-vontade» de Sanchez admirado por Gonzalez
Paco Gonzalez, paraguaio que fez história no Belenenses, especialista em livres: "Não vi ainda o Van Hooijdonk a marcar livres, mas sei que o faz em curva, com efeito. O Sanchez marca em força, mas também o faz colocado, se necessário. Sente-se mais à-vontade para rematar de longe, fá-lo de qualquer lado, com um pontapé seco. Não é para todos."
Ricardo sofre livre de Sanchez
O último golo de Sanchez ao serviço do Benfica foi celebrado após a marcação de um livre directo. Aconteceu a 28 de Março de 1998, ante... o Boavista. A equipa axadrezada venceu na Luz por 2-1 e o boliviano marcou o golo de honra encarnado. Na baliza estava o jovem Ricardo, actual titular da formação do Bessa.
Timofte muito aquém do recorde do boliviano
Sanchez já marcou dez golos de livres na I Liga, ao serviço do Boavista. É um recorde nos axadrezados e a marca de um verdadeiro especialista. O romeno Timofte, outro virtuoso no livre, marcou seis com a camisola do Bessa, quatro deles na sua melhor época (98/99). Os outros dois foram obtidos em 97/98.