Morreu Manuel da Luz Afonso, o pai dos «Magriços»
Em 1958 acabou por aceitar o convite de Maurício Vieira de Brito para chefiar o departamento de futebol do Benfica. Quando abandonou o cargo, em 1964, conquistara duas Taças dos Campeões. Mas foi como seleccionador nacional que entrou definitivamente para a história do futebol português. Chamava-se Manuel da Luz Afonso
FALECEU domingo, ao princípio da tarde, Manuel da Luz Afonso, antigo dirigente do Benfica, mas que se notabilizou no futebol português como o seleccionador nacional que conduziu Portugal ao terceiro lugar no Campeonato do Mundo de 1966.
Tinha 83 anos, este algarvio de Loulé, nascido a 31 de Janeiro de 1917, que deixa obra feita e um nome para a eternidade.
O funeral não tem ainda data marcada, mas a notícia do seu desaparecimento apanhou desprevenida toda a família do futebol, a começar pelo “Rei”, que com ele conviveu desde a primeira hora.
EMOÇÃO DE EUSÉBIO - Eusébio não resistiu à emoção e confessou que estava sem palavras. Record alertou-o para o que ainda era apenas uma forte possibilidade.
Quando voltámos ao contacto a voz do “Pantera Negra” não enganava. “Estive ali em casa a chorar”, começou por dizer, para logo acrescentar, com dificuldade evidente, algumas frases dispersas: “Era um grande homem, foi sempre um grande amigo, um grande benfiquista... Ajudou-me tanto desde que cheguei a Lisboa.”
Emocionado recordou que as referências que tinha desde o momento em que veio para o Benfica “já estão todas do Outro Lado”. E foi por ali fora: “Paiva das Neves, Domingos Claudino, Borges Coutinho, agora Manuel da Luz Afonso... Ainda não acredito no que sucedeu.”
BENFICA EUROPEU - Estávamos em 1958, Manuel da Luz Afonso era apenas um bem sucedido empresário da indústria da cortiça quando Maurício Vieira de Brito, então presidente do Benfica, o convidou para chefiar e organizar o departamento de futebol, tendo como objectivo a projecção europeia do clube.
Ao longo da vida, sempre fez questão de dizer que seguiu o primeiro impulso e que esse o tinha impelido a recusar. Acabou por aceitar, por duas razões: “Porque o presidente ficou aborrecido e também porque, bem vistas as coisas, dispunha de boas condições para dar o tempo necessário ao clube.”
Quando abandonou o cargo, em 1964, cumprira integralmente o objectivo europeu a que se propôs: ganhara duas Taças dos Campeões e perdera outra na final, com o Milan. Talvez por isso, mas também porque “já não aguentava mais sacrifícios da vida empresarial, ao cabo de seis anos de ausência do dia-a-dia da fábrica”, decidiu afastar-se do futebol.
ELE E OS “MAGRIÇOS” - Era essa, pelo menos, a sua intenção, porque, de facto, regressaria logo a seguir, justamente pela porta que havia de conduzi-lo ao estatuto de uma das maiores figuras do futebol português de todos os tempos: o cargo de seleccionador nacional.
Mesmo depois da fase de qualificação e do fantástico terceiro lugar em Inglaterra, Manuel da Luz Afonso sempre considerou que chegou atrasado ao cargo.
Entendeu até ao fim dos seus dias que, para o Mundial de 1962, no Chile, Portugal estaria em melhores condições ainda para formar uma equipa mais forte. “Os mais jovens estavam lançados, Eusébio e Simões já eram campeões europeus, enquanto José Águas ainda seria chamado, Fernando Mendes estava operacional e Germano de Figueiredo tinha menos quatro anos.”
O certo é que, em 1966, com melhor ou pior equipa e tendo Otto Glória como treinador, Manuel da Luz Afonso foi o responsável pela campanha mais extraordinária da selecção nacional na fase final de uma grande competição.
CONTRA A SAD - Até ao fim da vida manteve a paixão pelo futebol e pelo Benfica. Sempre que era chamado a falar sobre a saga dos “Magriços” mantinha coerência no discurso e não reconhecia os erros que lhe eram atribuídos na gestão do grupo. Com a excepção de um: “Devia ter dado uma oportunidade ao Américo, o guarda-redes do FC Porto, depois do jogo com a Coreia.”
Ao Benfica esteve sempre ligado emocionalmente, mas longe do poder de decisão. Foi com surpresa generalizada que liderou, a par de Ferreira Queimado e Gaspar Ramos, o processo que resultou na providência cautelar apresentada para impedir que a SAD benfiquista proposta por Vale e Azevedo não fosse por diante. A última aparição pública que fez teve como cenário essa luta interna no seu clube de sempre.
MÁRIO COLUNA
"Estou bastante triste pelo desaparecimento físico de Manuel da Luz Afonso, pois era um amigo e foi o meu director no departamento de futebol do Benfica, além de seleccionador na célebre equipa do Mundial 66, quando Portugal ficou em terceiro lugar. Nunca mais foi repetido esse resultado nos Mundiais seguintes. Espero que Deus tenha a sua alma em paz."
JOSÉ TORRES
"Estou pesaroso. Foi um grande director do Benfica e da selecção nacional, um homem extraordinário e um profissional formidável. Todos choramos a sua perda. A família benfiquista está de luto pelo desaparecimento de Manuel da Luz Afonso."
JOSÉ AUGUSTO
"Os benfiquistas estão consternados pelo falecimento desta figura da história do clube. Jamais esquecerei que foi ele o grande responsável da minha vinda para o Benfica. Ele foi sempre um homem íntegro e um desportista de eleição."
FERNANDO MENDES
"Marcou uma época como seleccionador nacional, num período brilhante do futebol português. Era uma pessoa de trato apurado, quem conviveu com ele teve-o sempre como amigo e a melhor homenagem que podemos prestar-lhe é dizer que, embora tenha sido dirigente do Benfica, lidou sempre correctamente com todos os jogadores."
JAIME GRAÇA
"É com imensa pena que recebo essa notícia, pois a perda de alguém como Manuel da Luz Afonso deixa o futebol mais pobre. Além de seleccionador nacional, foi um grande dirigente do Benfica. Como curiosidade, lembro-me de que, uma vez em que vencemos na Escócia por 1-0, quando chegou o fim do jogo disse-me que o lugar seria meu."