Mozer e as histórias dos seus Mundiais

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Rio de Janeiro – O ex-benfiquista Mozer é uma figura sobejamente conhecida tanto em Portugal como no Brasil (ou mesmo França), países onde espalhou a sua classe de defesa-central. Aproveitando a passagem pelo Rio, onde assistiu ao regresso do ”seu” Flamengo aos triunfos no Cariocão, o diário ”O Globo” publicou algumas das histórias que o antigo internacional canarinho tem para contar sobre a sua carreira, antecipando o livro ”Mozer em três tempos”, que deve surgir nas bancas portuguesas no final do ano. Os três Mundiais (1986, 1990 e 1994) que viveu por dentro [nem sempre a jogar...] servem de pontapé de saída para revelações eventualmente chocantes, que metem dinheiro, traições, esperanças e desilusões.

Do Campeonato do Mundo disputado no México, Mozer lembrou a forma como o sonho de ser titular se esfumou numa inesperada lesão. ”Um dia, acabado o treino, resolvi ir para o autocarro que nos levaria à concentração. Já estava sentado e vi o preparador de guarda-redes, Valdir Moraes, no campo fazendo alguns exercícios com o Leão. Resolvi ajudar e desci para me treinar com eles. Fui cabecear uma bola, torci o joelho e caí no chão.

Passei a noite inteira acordado com gelo no joelho, na esperança de que o problema não fosse grave, mas, de manhã, o joelho estava uma bola. Senti que não poderia continuar no grupo,” afirmou o agora empresário, estabelecido em Lisboa. Depois do infortúnio, Mozer foi operado nos Estados Unidos e ainda regressou ao grupo, assistindo a ”alguns jogos como convidado privilegiado, um turista de luxo”.

Em Itália 90, no único Mundial que jogou, as frustrações foram ao nível competitivo, com o Brasil, tal como quatro anos antes, a ser eliminado prematuramente, mas o ex-defesa recorda outros problemas. ”A Copa de 90 começou complicada já em Teresópolis,” revelou Mozer, lembrando o facto de os jogadores terem coberto com a mão o escudo da Pepsi [patrocinadora da selecção] na foto oficial, por a CBF e a empresa não lhes terem pago. O pedido de ajuda ao seleccionador Lazaroni, que ”recebia dinheiro por fora” no âmbito do contrato, não foi bem sucedido, mas a empresa norte-americana acabou por ceder já em Itália.

”A Fiat deixou 15 carros para a delegação. As chaves ficavam nas mãos dos jogadores e a maioria saía à noite durante a Copa,” acusou ainda Mozer, que não poupa os chamados Atletas de Cristo [”Por tudo o que vi, respeito apenas três jogadores como verdadeiros atletas de Cristo: Jorginho, Baltazar e João Leite,” refere] ou as tácticas de Lazaroni.

Há cinco anos, no Mundial 94, uma misteriosa lesão voltou a afastar Mozer do Campeonato do Mundo, de nada valendo ao então benfiquista a intervenção do médico encarnado, Bernardo Vasconcelos. Após ter sido avisado por um companheiro famoso de que estavam a tramá-lo, a verdade é que foi o próprio jogador a abandonar a concentração, face à autêntica perseguição de que foi alvo.

”O fisioterapeuta apareceu com um aparelho para medir a potência da perna. Sinceramente, era um aparelhinho ridículo, mas ele garantia que aquilo media a força que eu tinha nas pernas. Peguei numa bola, fui para o campo e, da pequena área, dei um chuto. A bola atravessou o campo. Fiquei olhando para a cara dele...,” explicou, mostrando-se sentido com Parreira, o seleccionador, e o médico Lídio Toledo.

ANTÓNIO CARLOS, correspondente no Brasil

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