N. Gomes: «Não tenho quaisquer dúvidas que sou ponta-de-lança nato»
Não está preocupado com as exigências do novo desafio, porque tem os pés bem assentes no chão. Não está deslumbrado com a chegada ao grande futebol europeu, porque olha para trás e vê o Benfica. Agora que vai, finalmente, poder gozar as suas férias tranquilo, não tem dúvidas em considerar-se ponta-de-lança autêntico. Ele, Nuno Gomes, o mais caro jogador português de sempre
QUATRO Golos bastaram para que a Europa perdesse a cabeça por ele. Quatro golos que foram suficientes para denunciar descaradamente um segredo que permanecia bem guardado no ainda mais ou menos incógnito campeonato português: Nuno Gomes, ponta-de-lança, 24 anos. Quatro golos, no fim de contas, que por terem sido apontados na fase final de uma grande prova valeram mais que os quase cem já marcados na I Divisão portuguesa.
Desde o final do Euro-2000 que Nuno Gomes não teve descanso. As informações de clubes interessados no seu concurso eram diárias. Para atrapalhar ainda mais, apresentou-se na Luz e foi recebido como herói. Domingo, surpreendentemente, chegou a acordo com a Fiorentina e transformou-se no mais caro jogador português de todos tempos. Algo que não o perturba:
- Convivo naturalmente com a ideia de me transferir para outro mundo, de sentir pressão maior a todos os níveis, de me tornar mais conhecido internacionalmente, de ver aumentadas uma série de exigências. Reconheço que esse mediatismo pode ser prejudicial, pelos riscos de subir à cabeça e transtornar as ideias, a nossa forma de pensar e estar no Mundo. Mas quanto a isso não estou preocupado. Tenho os pés bem assentes no chão. Sempre tive, como provei quando fui do Amarante para o Boavista e do Boavista para o Benfica.
- Está preparado para o grande embate?
- Graças a Deus, fui bem educado pelos meus pais e formei a personalidade bastante cedo, tendo como base aquilo que eles me ensinaram. Não é agora, já homem, aos 24 anos, que vou mudar, ainda por cima tendo como pressuposto para ser mais conhecido e ver-me obrigado a corresponder a mais solicitações. Sou um homem com responsabilidades, um chefe de família que deseja o melhor para si e para os seus. Isto sem adulterar os princípios básicos da minha existência.
- Há cerca de ano e meio dizia-me que para se considerar o melhor ponta-de-lança português lhe faltava a selecção nacional. E agora como é, depois do Europeu e da transferência para o futebol italiano?
- Sei que me consideram um dos melhores pontas-de-lança portugueses. É bom ouvir isso. Eu também sinto que estou entre os melhores, mas entendo que não devo ser eu a falar sobre o assunto. Deixo isso ao critério dos entendidos. Mas essa referência deixa-me feliz, por desmentir as perspectivas pessimistas de algumas pessoas que não acreditavam minimamente nas minhas capacidades.
- Desde que chegou ao Benfica a sua afirmação deu a ideia de ser contra a corrente, de haver alguém a pretender travá-la...
- Senti isso na pele, de tal forma que passei por momentos em que já duvidava se seria capaz de me afirmar ao mais alto nível. Os golos marcados ao serviço do Benfica foram animadores e estes agora no Europeu confirmaram as minhas melhores expectativas para além de me terem proporcionado mais-valia, que terei de aproveitar da melhor maneira. Digamos que fiquei mais descansado ao confirmar uma ideia de sempre: se marcava golos ao serviço do Benfica também os podia fazer na selecção. E espero continuar a marcá-los na Fiorentina, naturalmente.
- Tem a noção da responsabilidade de ir para um clube que acabou de perder Batistuta?
- Noção da responsabilidade tenho, mas sei eu, como devem saber todas as pessoas que acompanham o futebol, que Batistuta é um fenómeno insubstituível, pela qualidade futebolística, pelas características e pelo peso enorme que tinha no clube e na própria cidade. Eu só quero ser o Nuno Gomes, continuar a evoluir como jogador e ajudar a Fiorentina dentro das minhas possibilidades e, já agora, dentro das minhas características.
QUESTÃO DE MATURIDADE
- Até à época passada o seu número de golos cresceu sempre. Em 1999/2000 travou essa tendência, mas foi evidente o seu crescimento como jogador. Concorda com esta apreciação?
- Totalmente. Apesar de a contabilidade não ser tão eloquente e de pela primeira vez não ter marcado mais golos que na época anterior, fazer 18 golos no Campeonato - os mesmos que apontei na época de estreia no Benfica - parece-me um resultado satisfatório. Mas os números são traiçoeiros, porque neste caso escondem uma evolução indiscutível, um crescimento explicável pela maior maturidade que me levou a dominar mais fases do jogo. Creio ter evidenciado qualidades até aqui nunca reveladas. E agora que vou iniciar outra etapa na minha carreira espero dar mais um passo no sentido de consolidar esse crescimento.
- Essa evolução deve-se apenas ao crescimento normal de um ponta-de-lança que atingiu os 24 anos?
- Para ir ao encontro do que penso, direi assim: foi, acima de tudo, uma questão de maior maturidade. Aos 24 anos, um indivíduo já tem outra forma de ver as coisas e eu ando no futebol com a preocupação de aprender sempre. Costuma até dizer-se que só a partir dos 28 anos o futebolista nada tem para aprender, o que, aliás, não concordo. Até porque olho para trás e não tenho dúvidas em concluir que sou hoje muito melhor jogador que há quatro anos, por exemplo.
NÃO ENTRAR EM DEPRESSÃO
- Voltando à época passada: como se traduziu essa evolução em campo, nos 90 minutos de cada jogo?
- Reagia muito melhor a cada contratempo, a cada lance perdido, a cada golo falhado. Acho que a essência do problema foi criar mais autodefesas para nunca entrar em depressão, para manter a tranquilidade. Perdia agora, mas sabia que podia ganhar daqui a pouco e percebia melhor como podia mais facilmente ganhar vantagem nos despiques. Sempre ouvi dizer que um jogador vai ganhando calo com o passar dos anos, expressão que se aplica a todos os capítulos das nossas vidas...
- Muito se discutiu se o seu lugar seria o de ponta-de-lança, como era no Benfica, tendo João Pinto nas costas, ou se potenciaria melhor as suas qualidades jogando mais recuado, como fazia no Boavista, tendo Jimmy na frente...
- Neste momento já não tenho quaisquer dúvidas: sinto-me ponta-de-lança nato, em toda a acepção da palavra. Nas camadas jovens do Boavista joguei como segundo atacante mas nos seniores também actuei fixo na frente. O que está aqui em causa é um estilo, uma certa maneira de ser ponta-de-lança. As minhas características são distintas de um Batistuta ou de um Jardel, por exemplo. Mais que não seja por questões morfológicas, nunca serei como eles. Mas posso marcar golos utilizando outras armas.
O ESTILO JARDEL
- Como define a principal diferença de estilo entre si e esses avançados que mencionou?
- A principal diferença reside no prazer que sinto em tocar a bola, em participar no jogo, em recuar no terreno ou em descair para os flancos. Às vezes empolgo-me e esqueço-me que a minha obrigação é estar lá na frente, à espera que a bola chegue para finalizar. Costuma dizer-se que o ponta-de-lança é o jogador que surge no sítio certo à hora certa. Com razão. O Jardel, por exemplo, participa pouco e não se atormenta por passar largos minutos a ver jogar, ciente de que há-de tocar uma vez na bola e que dessa vez terá fortes probabilidades de marcar. Lá está, é uma questão de estilo, de maneira de ser e de estar no jogo.
- Apesar de tudo também consegue fazer muitos golos...
- Mas se calhar não tantos quantos podia fazer. Na ânsia de participar na construção do jogo eu próprio notei que jogava muito atrás, quando às vezes era necessário lá à frente. No Europeu até aconteceram situações curiosas. A certa altura de um jogo o Rui (Costa) voltou-se para mim e disse com todas as letras, apontando para os centrais adversários: "Deixa-te estar ali!" E tinha razão. Esse é um dos aspectos que terei de melhorar no meu jogo.
O ESTILO HENRY
- Por falar em Europeu, que comentário lhe merece o facto de entre os pontas-de-lança terem brilhado jogadores mais próximos do seu estilo? Lembro-me de Henry, Raul, do próprio Kluivert...
- De facto falamos de avançados que desequilibram mais pela velocidade e pela qualidade técnica, que pelo músculo ou pelo jeito de dominarem com instinto predador a zona limitada da área. Talvez por isso é que os pontas-de-lança tipo Jardel são mais preciosos. E por falar em Jardel, embora possamos falar de outros, admiro a sua capacidade para fazer golos sem ter de andar de um lado para o outro, actuando lá na frente, bem encostado aos centrais. Nunca serei como ele, mas em determinados momentos devo aproximar-me das suas características.
- Muitas vezes o erro é pretender que certos jogadores façam o que não sabem, ou estão menos aptos a fazer...
- As características do ponta-de-lança têm consequências directas na própria forma de jogar das equipas. Quando se tem um grande cabeceador, por exemplo, a aposta nos flancos é inevitável. Quando se tem um Henry, a aposta nas trocas de bola e nas jogadas de envolvimento nascidas de trás é naturalmente a mais correcta. Desde que não obriguemos o Jardel a jogar à Henry, e vice-versa, está tudo certo.
DO DESCONHECIDO A REVELAÇÃO
- No Europeu triunfou o seu estilo, falemos assim só para abreviar a conversa. E você foi uma das grandes figuras. Mais a frio como analisa o que lhe aconteceu?
- A maior de todas as diferenças reside no facto de ter chegado lá praticamente como um desconhecido e de ter saído como uma das revelações, com quatro golos no activo e membro de uma selecção que encantou todos os amantes do futebol. Pessoalmente, estou satisfeito com a prestação na fase final do Euro-2000 e muitíssimo orgulhoso de ter integrado um grupo excepcional e uma equipa notável. Por outro lado, mostrei-me como nunca tinha sucedido, processo concluído, para já, com a transferência para a Fiorentina.
- Como qualifica a experiência do Euro-2000?
- Inesquecível. Tão boa que espero repetir mais vezes até ao final da carreira. Já tinha estado em competições do género nas camadas jovens, mas não tem comparação. Ali é tudo muito maior, com outra atmosfera, com outra responsabilidade... É uma grande montra, na qual durante perto de um mês nos sentimos observados pelo mundo inteiro. Com tudo o que isso significa para as nossas carreiras e para as nossas vidas.
"HABITUADO ÀS PALAVRAS DE SOUNESS"
Antes do Portugal-Inglaterra, Graeme Souness teceu considerações pouco abonatórias em relação à selecção nacional e não foi meigo para com Nuno Gomes, afirmando que, quando visse Adams e Campbell pela frente, tremeria de medo.
“Por acaso tive conhecimento dessas declarações de Souness antes do jogo. Devo dizer, com toda a sinceridade, que não me aqueceram nem me arrefeceram, porque já estou habituado às palavras deselegantes e bizarras desse senhor. Pura e simplesmente não liguei. Mas, depois do jogo, lembrei-me e dei comigo a pensar como ele se sentiria naquele momento. O mais curioso foi saber o que ele disse depois, que Portugal tinha boa equipa e bons jogadores, só lhe faltou dizer que já estava à espera do contrário daquilo que tinha previsto. Em Portugal as pessoas já estão habituadas às cambalhotas do senhor Souness, por isso não me surpreendeu. Neste caso, se calhar até temos de lhe agradecer essas declarações, porque talvez nos tenham feito jogar melhor. Mesmo que isso tenha acontecido inconscientemente.”
"O SÁ PINTO DISSE-ME QUE IA MARCAR"
Permanece como uma das mais belas imagens do Europeu, a correria de Nuno Gomes até ao banco dos suplentes depois de ter marcado o golo à Inglaterra. Ele explica as razões:
“Com a Inglaterra o azar de Sá Pinto (lesionado) e Pauleta (castigado) foi a minha sorte, porque, à partida, tinha consciência de que não seria primeira escolha. O Sá, como boa pessoa que é, como amigo, desejou-me sorte, fazendo prevalecer a maior experiência que possui para me dar alguns conselhos. Sabia, por exemplo, que eu não tinha ainda marcado um golo pela selecção. Disse-me para controlar a ansiedade e não só: ‘Sinto que vais marcar hoje.’ No momento de fazer o golo lembrei-me das suas palavras e corri para ele como forma de agradecimento e de solidariedade para com alguém que me tinha ajudado e cuja infelicidade me proporcionara aquele momento único. O Sá tinha passado toda a época operacional, tinha jogado sempre na selecção e, por via de um lance ocasional, viu-se obrigado a ficar de fora.”
"JOÃO PINTO E JARDEL SÃO GRANDES JOGADORES"
Duas questões directas para respostas rápidas:
- Como vai ser o Benfica sem João Pinto e Nuno Gomes?
- Quanto ao Nuno Gomes outros que falem nisso. Quanto ao João direi que o Benfica perdeu um extraordinário futebolista, a quem desejo a melhor sorte do mundo, nesta nova etapa da sua carreira. É um amigo e uma das pessoas mais importantes na minha adaptação não só ao clube como à vida fora do futebol. Não esquecerei o modo como ele e a sua família nos acolheram quando viemos para Lisboa, o quanto nos ajudaram.
- E como vai ser o Campeonato sem Jardel e Nuno Gomes?
- Com a saída de Jardel, o Campeonato perdeu um grande jogador. Como vai ser sem nós? Em princípio deveria haver menos golos, mas como não há insubstituíveis alguém os há-de marcar.
"AINDA TIVE TEMPO PARA SENTIRQUE OS ADEPTOS ACREDITAM"
Ao cabo de três anos ao serviço do Benfica, Nuno Gomes parte com a sensação de felicidade pelo modo como foi recebido e aprendeu a gostar do clube, pela frustração de não ter sido campeão e pelo lamento que as circunstâncias o impeçam de nova tentativa de atacar o título:
- Passei três épocas fantásticas no Benfica mas saio com a frustração de não ter ganho qualquer título. Fui bem recebido pelos adeptos, integrei-me bem, conquistei o meu espaço e é para mim um orgulho muito grande ter representado um clube com esta dimensão. Na hora da despedida, saio com o amargo de boca de não ter conseguido ser campeão e com pena de não estar presente em novo ataque ao título. E apesar da solução encontrada para a minha carreira, ainda tive tempo para sentir que os adeptos acreditam, como ficou provado na apresentação da equipa. Nessa noite deram uma prova cabal da confiança que depositam para atingir o grande objectivo. Mas a vida é assim mesmo.
- Por falar na apresentação, foi o jogador mais ovacionado e tudo indicava que passaria a ser o novo menino bonito dos adeptos...
- Já afirmei publicamente que fiquei sensibilizado, comovido até, com a recepção, o que para mim nem sequer foi uma novidade, embora admita que nesta apresentação fui mais aplaudido em relação às anteriores. As conclusões tiradas a partir daí é que não me agradaram muito.
- Refere-se às considerações sobre o que seria a ocupação do lugar de João Pinto em termos de afectividade e de estatuto...
- Precisamente. Fui bem recebido, e quanto a isso não há dúvidas, mas daí a considerar-se que seria o substituto de alguém vai enorme distância. O João é o João, esteve oito anos no clube, ficará eternamente ligado à sua história, e eu sou o Nuno, estive no Benfica menos de metade do tempo, nada ganhei e nunca pretendi ocupar o lugar de quem quer que seja. Não entro por esses caminhos.
- A esta hora essas contas já estão ultrapassadas. A pergunta agora é outra: quem será o menino de ouro que substituirá Nuno Gomes?
- Acabei de dizer que não entro por esses caminhos... Percebo a necessidade dos media e dos clubes em criar essas figuras mais queridas e emblemáticas. É assim em todo o lado. No futebol haverá sempre jogadores com mais notoriedade que outros, mas o princípio básico de uma equipa é ser composta por vinte e tal jogadores. Todos ganham e perdem, e não apenas os heróis ou os meninos de ouro, para utilizar um termo muito na moda.