Pedro Miguel: «Foi muito difícil abandonar o basquetebol do Benfica»
O BASQUETEBOL português acaba de perder um dos seus mais brilhantes intérpretes da última década. Pedro Miguel, base e capitão do Benfica, vê-se forçado a abandonar prematuramente uma carreira invulgar devido a uma penosa lesão na cartilagem do joelho direito. O jogador anunciou, oficialmente, o final de carreira na última quinta-feira, antes do jogo com o FC Porto, na Luz, o qual ditou a eliminação dos encarnados do "playoff" do Campeonato da Liga. Aos 31 anos, Pedro Miguel deixa um vazio difícil de preencher. Para trás fica uma longa carreira de um jogador que se iniciou na "nobre arte" da bola ao cesto com apenas oito anos, nas escolas do histórico clube portuense Vasco da Gama. Deu o "salto" para o FC Porto com 17 anos. Aos 20 transferiu-se para o Benfica. Onde esteve nas últimas onze temporadas e onde construiu o estatuto de basquetebolista de eleição. O palmarés, invejável, fala por si: conquistou cinco Campeonatos Nacionais, nove Taças de Portugal, cinco Taças da Liga e cinco Supertaças. E envergou por 105 ocasiões o "jersey" das quinas.
- Quando é que verdadeiramente sentiu que teria de abandonar o basquetebol?
- Foi da última vez que me desloquei aos EUA para ser submetido a uma intervenção cirúrgica, em Los Angeles. Quando acordei após a operação e na presença do Steven Rocha, o médico disse que tinha de pensar na possibilidade de não voltar a jogar. Aí fiquei com a nítida sensação de que dificilmente voltaria a praticar basquetebol ao mais elevado nível. Apesar de tudo, prossegui com a recuperação em Lisboa e tentei prolongar a esperança. Mas... em vão. De qualquer modo, as pessoas do Benfica sempre estiveram informadas de tudo o que se passava. Foi a decisão mais difícil da minha vida.
- Perdeu-se o jogador, mas não se perdeu o homem. O que é que vai acontecer a seguir?
- Sinceramente, ainda não sei muito bem. Mas estou convicto de que o pior ainda poderá estar para vir. Foram 23 anos a jogar basquetebol. E logo ao mais elevado nível. Neste tipo de situações, quando se está integrado no seio de uma equipa aguenta-se melhor o sofrimento. Depois, quando se vai para casa, é diferente. Não sei, não vai ser fácil enfrentar esta situação, até porque a lesão no joelho ainda não está debelada. Vou ter de me submeter a uma nova intervenção cirúrgica para poder levar uma vida normal.
Não posso correr, fazer esforços a subir escadas. É triste mas é a realidade.
- Quando é que será novamente operado?
- Ainda não sei muito bem. Depende do que decidir com o dr. António Martins, o médico que mais me tem acompanhado em Portugal e que nunca me deixou esmorecer, ir abaixo. Devo-lhe muito e nunca é de mais agradecer o seu enorme apoio. De qualquer modo, a operação tanto poderá ser efectuada nos EUA, como na Bélgica. É uma decisão a tomar nos próximos tempos.
- Esteve cerca de ano e meio sem jogar. Nesse período, o Benfica qualificou-se para o "playoff" com extremas dificuldades sendo, em duas épocas sucessivas, eliminado logo na primeira ronda. A sua ausência na equipa foi muito notada, o conjunto ficou sem o líder natural. Facto que acentuou a crise de identidade e os maus resultados verificados num conjunto habituado a andar no "top". Considera que o seu abandono é o fim de um ciclo ou de uma geração de grandes jogadores na Luz?
- Sim, o meu abandono poderá significar ser o fim de um ciclo, mas a vida continua e o Benfica é um clube muito grande, com capacidade para recuperar e resistir a todas as dificuldades. Mas o que mais me magoou e revoltou, nestes últimos anos, foi constatar que muita gente do basquetebol começou a perder respeito por uma instituição como o Benfica. E isso sentiu-se a vários níveis, nomeadamente até na forma como começámos a ser tratados pelas arbitragens. Aproveitaram o facto de estarmos mal para nos prejudicarem. Isso, há uns anos atrás, não acontecia. O Benfica era tratado com o devido respeito dentro de campo.
- Mas não considera que, nos últimos anos, se perdeu um pouco a mística do clube?
- Não. O que se perdeu foi a dinâmica de vitória. Mas temos jogadores (Carlos Seixas, Felipe Gomes, só para citar estes exemplos) e um treinador (Mário Gomes) que têm paixão pelo clube e que gostam daquilo que fazem. Com organização e o necessário suporte financeiro, temos condições para regressar ao "top". Para que isso se concretize, a secção terá de se modernizar de forma a poder enfrentar com sucesso o desafio da autonomia e do profissionalismo. Há muita coisa a mudar no seio da própria secção.
- Na sua óptica, o que é que correu mal esta época. Ou melhor, qual foi o aspecto que mais contribuiu para a má campanha do Benfica nas várias frentes? E quais são os principais responsáveis?
- Vou responder a esta questão com um conhecido ditado português: o que já nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Foi o que aconteceu ao Benfica. Tudo começou com a indefinição que marcou o arranque da temporada. Em Agosto, quando começaram os treinos, nem sequer sabíamos com o que contávamos. Tínhamos salários em atraso e um plantel por construir. Não vou falar de responsáveis, porque toda a gente - jogadores, treinadores e dirigentes - deu o máximo para superar as dificuldades
- E o plantel, não terá sido mal estruturado, com tantas entradas e saídas de estrangeiros?
- Mais do que o valor deste o daquele jogador, o maior problema residiu na falta de identidade que os jogadores estrangeiros têm relativamente ao Benfica e à sua mística. Isso, no passado, não acontecia. Os jogadores novos eram rapidamente absorvidos pelo espírito reinante, pela chamada mística.
- Mas já não há jogadores da estirpe de um Carlos Lisboa, Henrique Vieira, Mike Plowden, Jean Jacques, Steven Rocha, José Carlos Guimarães. Qual foi, desta brilhante "fornada", o basquetebolista que mais o marcou?
- É difícil dizer. Mas foram, todos, atletas extraordinários. E há um que não foi citado mas que também me marcou profundamente. O Artur Leiria, um poste extremamente inteligente na sua forma de jogar. E o Fernando Carlos, que muito me ajudou quando abandonei a minha terra natal, o Porto, para me transferir para o Benfica. Isto na temporada de 1990/91.
- E treinadores. Qual foi aquele que mais o influenciou?
- Sem querer ser deselegante para com todos os outros (Armando Rodrigues, Aníbal Tavares, Jorge Araújo, Alberto Babo, Tim Shea e Carlos Lisboa), aponto o Mário Palma. Porque, antes de exigir aos jogadores, começava por ser muito exigente consigo próprio.
"A MINHA MÃE INFLUENCIOU"
- Como é que um portuense de gema, natural do bairro da Sé, no centro do Porto, se torna num ferrenho adepto benfiquista?
- A minha mãe, que já faleceu, influenciou-me nesse sentido. Lá em casa eram todos do FC Porto. O meu pai, o meu irmão José António, que ainda joga pelo Vasco da Gama, os meus avós e os meus tios, todos eram portistas fanáticos. Só a minha mãe, se calhar para ser do contra, é que era do Benfica. E incutiu-me, desde pequenino, um forte sentimento benfiquista. E também foi ela quem mais me apoiou na decisão de me tornar um profissional de basquetebol. Se não fosse ela, se calhar teria sido futebolista. Cheguei a ir, levado por um tio, a um treino de captação de jovens do FC Porto.
"NÃO FICO NA LUZ POR CARIDADE"
- O vice-presidente, José Manuel Antunes, já disse publicamente que gostava de ter o Pedro Miguel na estrutura técnica do Benfica. Já tomou uma decisão?
- Acho que ainda é muito cedo para tomar uma decisão. Não é fácil, tenho de reflectir muito sobre o meu futuro. Uma coisa é certa. Ao cabo de 11 anos a viver o Benfica, não é fácil abandonar o clube assim, de um momento para o outro. No entanto, não fico na Luz por caridade, por terem pena de mim e do que me aconteceu.
- Mas considera que tem perfil para assumir, por exemplo, um cargo como o de secretário técnico?
- A minha consciência foi sempre a de jogador. Assumir novas funções é sempre complicado. O problema fulcral incide em outro aspecto. Gostaria de assumir um cargo que me possibilitasse fazer um trabalho diferente, inovador, que pudesse verdadeiramente ajudar o grupo de trabalho. Não quero estar num cargo só por estar. Está na hora de o basquetebol do Benfica mudar, modernizar-se, criar uma verdadeira estrutura profissional. Se o clube seguir esta via, então posso afirmar que gostava de ajudar, de contribuir para o futuro. Mas isso já não depende de mim. O basquetebol do Benfica tem de seguir as pisadas de clubes como o Real Madrid e Barcelona.
ANTÓNIO BARROS