Tiago, do Vianense ao Benfica sempre a queimar etapas
Tiago Cardoso Mendes, o médio que o Benfica recrutou ao Sp. Braga e que hoje deve estrear-se pelos encarnados na Luz, é protagonista de uma carreira invulgar, por ter sido sistematicamente cumprida em escalões para os quais não tinha idade. Chegou aos juniores do Âncora Praia com idade de juvenil, saltou para os seniores do Sp. Braga quando era júnior de segundo ano e, com apenas 20 anos, "pegou de estaca na equipa treinada por Jesualdo Ferreira
EDUCADO desde tenra idade para a prática do futebol, Tiago viu ser-lhe traçado o destino ainda antes de chegar à escola primária. A forma como se entregava ao jogo não deixava margem para o erro: estava ali um futuro jogador da bola.
Como é evidente, foi sempre o pai, Carlos Mendes, quem mais incentivou Tiago a trilhar os caminhos do futebol. Sendo ele próprio um ex-futebolista ao nível de clubes regionais como o Darquense, o Limianos ou o Vianense - "Tratei mal a bola", recorda a brincar -, cedo viu no filho atributos melhores que os seus. "Era um miúdo com bastantes qualidades para o futebol. Integrou as escolinhas do Vianense desde os sete-oito anos e reparei logo que tinha aptidão para o jogo."
Preocupado com a progressão do filho, Carlos Mendes não hesitou em retirá-lo do clube da terra quando sentiu que os resultados imediatos se sobrepunham à missão essencial da formação. "A mentalidade das pessoas baseava-se nos resultados e não na formação dos atletas. Passaram por lá muito mais miúdos que, bem trabalhados, poderiam ter seguido uma carreira semelhante à do Tiago. Mas, na altura, o facto de ser um rapaz franzino fez com que começasse a ser preterido em relação aos rapazes mais velhos. Achei por bem tirá-lo do Vianense, porque o miúdo estava a ser traumatizado."
"Tacticamente perfeito"
A solução temporária encontrada para manter o hábito da prática desportiva foi "encaixar" Tiago nas escolas de andebol do clube do seu bairro, Capitães de Abril [ver peça ao lado]. Até que o ingresso do cunhado José Santos nos quadros técnicos das camadas de formação do Âncora Praia voltou a abrir-lhe as portas do futebol. Já se habituara a jogar com as mãos quando, aos 14 anos, o pai lhe apresentou o Âncora como uma espécie de ultimato: "Ou vais com o teu tio, ou não contas mais comigo para o futebol." Carlos Mendes acrescenta agora que o filho não sentiu à-vontade para recusar. Foi assim que, à falta de equipa para o seu escalão, Tiago andou uma época inteira só a treinar-se com os mais velhos...
Ainda como juvenil de primeiro ano, Tiago teve a "sorte" de encontrar os juniores no "nacional" daquele escalão, numa história que passa a ser contada por um tio-treinador que descobriu "logo ao primeiro treino que havia ali um bom jogador". Desde muito novo foi um jogador "inteligente e tacticamente perfeito. Sendo franzino, dava muita luta", recorda José Santos, sem poupar nos elogios: "Tem classe, inteligência, carácter, humildade e uma vontade muito grande de ser jogador de futebol. Mas o seu maior privilégio foi ter o pai que tem, que desde miúdo disse que ele tinha pinta de jogador da bola."
Os projectos que José Santos traçou para o mais novo dos seus pupilos acabaram por se precipitar mais cedo do que alguma vez imaginou. Olhando à realidade regional cedo pensou que "o Sp. Braga seria o clube ideal para o projectar". O sonho concretizou-se no próprio ano em que estreou Tiago e ele próprio garantiu aos bracarenses que estava ali alguém "que lhes poderia ser muito útil".
"Tratámos logo de o contratar"
"Sobressaiu num jogo contra nós e o treinador [Vítor Santos] pediu-me que falasse aos dirigentes do Âncora para ir a Braga treinar-se. Só então vim a saber que ele ainda era juvenil e tratámos logo de o levar para Braga", conta o actual "vice" bracarense para o futebol de formação, José Martins, que foi o delegado ao jogo em que começou a ser traçada a sorte de Tiago. No imediato, este retrocedeu um degrau para regressar ao "seu" escalão de juvenis e só voltar no ano seguinte aos juniores.
Tiago foi viver para casa de uma tia com um subsídio de alimentação de cerca de 40 contos (200 euros). Em Braga, como em Âncora, "depressa começou a distinguir-se pela sua fibra e uma inteligência acima da média", atributos que o levaram a saltar para a equipa principal naquele que era suposto ser o seu segundo ano nos juniores. Ao treinador Manuel Cajuda bastou assistir a um jogo para ver que havia ali um craque em potência. Foi assim que Tiago "queimou" a última etapa da sua formação, evitando ainda a passagem com regularidade pela recém-criada equipa B.
Em 99/00, ainda com idade de júnior, participou em 18 jogos da formação principal (e só não fez mais porque a época irregular da equipa não ajudou). Na época seguinte cumpriu 27 jogos e tinha já o estatuto de "indiscutível" quando, este início de ano, o Benfica ganhou a corrida ao FC Porto para assegurar os seus serviços a troco de cerca de um milhão e 375 mil euros (275 mil contos). Apesar de ser o terceiro maior negócio da história do clube, os números conseguidos originaram grande contestação por parte dos sócios bracarenses, que consideraram tratar-se de uma venda característica da época de saldos.
«Era o mais pequeno mas já se destacava»
Entre os ex-colegas de Tiago no Âncora Praia, contam-se pelos dedos de uma só mão aqueles que seguiram carreira no futebol. Não porque faltassem miúdos com qualidade nessa equipa (tal como refere o então director das camadas jovens, António Joaquim, "era uma fornada de luxo e havia muitos outros Tiagos que se perderam"), mas pela decisão da Direcção do Âncora em acabar com os seniores, que deixou uma boa série de jovens a meio da carreira.
Para lá dos que acabaram pelos distritais e daqueles que optaram pelos estudos, apenas dois outros elementos daquela equipa seguiram a carreira: Lemos (que ingressou no Vianense, onde ainda permanece) e Luís, um guarda-redes que, entretanto, emigrou para Andorra. Nas instalações do clube, que foi sempre um bom viveiro de jogadores, permanece uma camisola de Tiago e a memória de que passou por lá "um grande jogador". É esta aura que Tiago mantém entre os companheiros que tiveram sorte diferente.
O trinco Nuno Bouças, que jogou um ano ao lado de Tiago (embora sendo três anos mais velho), lembra que o miúdo "já se destacava em termos técnicos, mas tinha uma certa dificuldade em se impor, por ser franzino e magrinho". Sendo "o mais pequeno de todos", Tiago retraía-se, naturalmente, nos lances de maior envolvência física: "Tinha um bocado de medo de entrar nas bolas divididas e nós brincávamos com ele, dizendo-lhe para meter o pé e não ser maricas."
Nuno Bouças foi um dos que acabou por enveredar pelos estudos. Enquanto se formou como professor, a carreira de futebolista ficou-se pelos distritais da Guarda, mas não se admirou ao ver o "magrinho" trepar os degraus da fama: "Não fiquei nada admirado por ele ir para o Benfica. Quando se falava na possibilidade de sair de Braga, pensei sempre que iria para o FC Porto, por o pai ser portista. Mas, mal se soube que ia para o Benfica, disse logo que ia chegar lá e conseguiria impor-se sem dificuldades."
«Perdeu-se um guarda-redes de andebol»
Ainda nos primórdios da sua carreira futebolística, Tiago esteve a um passo de atirar o futebol "às urtigas" e passar-se de vez para o andebol que começou a praticar no clube do seu bairro, Capitães de Abril.
Tudo aconteceu quando militava nos iniciados do Vianense e resolveu deixar o clube por sentir que não tinha as oportunidades que merecia. A história é contada pela mãe, Júlia Margarida, que elogia as suas qualidades como guarda-redes de andebol. "Aos 13 anos desistiu do futebol. Aborreceu-se no Vianense e foi jogar andebol para os Capitães de Abril, lá perto de casa. Era guarda-redes e cuidado com ele... Ainda tenho lá em casa taças que ganhou nessa altura. Penso que se perdeu um excelente guarda-redes de andebol."
Depois de ter visto o filho encarreirar de novo no futebol e atingir patamares que ela própria nunca sonhou serem possíveis, a mãe só lastima o clima de ansiedade inerente ao desporto-rei. Pela sua parte, confessa preferir "que ele tivesse outra profissão". Porque "o futebol comporta uma ansiedade horrível e o receio permanente de que as coisas não corram bem".
Pai era portista mas já torce pelo Benfica
Carlos Mendes, o pai de Tiago, era um portista convicto antes de o seu filho começar a brilhar na I Liga. Quando o filho se transferiu para Braga passou a "vestir" a camisola do Arsenal minhoto e, agora que equipa de águia ao peito, já começou a habituar-se a torcer pelo Benfica.
"Nesta altura não posso dizer que tenha um clube favorito... Dispo a camisola e prefiro gozar o jogo em si. E, como é evidente, sou pelo clube do Tiago, porque quero tudo aquilo que seja o melhor para o meu filho", conta Carlos Mendes, dando o exemplo do recente afastamento dos dragões na Taça de Portugal, frente ao Sp. Braga que o seu filho acabara de deixar: "Na altura em que o Braga marcou estava a falar com o Tiago ao telefone e gritámos os dois de alegria com o golo."
Quem brinca com a situação é a mãe de Tiago, Júlia Margarida, uma benfiquista dos sete costados. Também ela ficou "completamente bracarense" durante os quatro anos que o filho passou em Braga. Agora que o pai já se vai habituando a "torcer" pelo Benfica, regista com agrado as melhorias que são notórias na sua nova equipa. Porque "o Tiago e o Fernando Aguiar formam uma dupla de trabalho espectacular" e porque "já se nota um bocadinho mais de consistência no meio-campo, embora o entendimento com a defesa ainda não seja perfeito".
«Teve o privilégio de encontrar Cajuda...»
Manuel Cajuda, o auto-intitulado "padrinho desportivo" de Tiago, é visto pelos entes próximos do atleta como elemento fundamental no seu lançamento ao mais alto nível. É que, como refere o tio José Santos, o técnico bracarense é dos que não tem medo de apostar nos jovens: "O Tiago teve o privilégio de encontrar o Cajuda, que faz aquilo que muitos treinadores dizem e não fazem."
... depois de receber o carinho de José Maria
Outro técnico que o próprio Tiago guarda no coração é José Maria, pela forma como o acolheu quando chegou aos iniciados do Sp. Braga. "O José Maria também teve muita influência, pela forma como o acarinhou desde o início, quando o Tiago se viu, com 15 anos, afastado dos pais. Ainda hoje continuam muito ligados."
«O Tiago não tem fronteiras... ainda vai a este Mundial»
Para o tio-treinador de Tiago, a sua estreia logo no primeiro jogo em que estava apto a alinhar pelo Benfica não foi surpresa. "Sempre pensei que ele iria jogar e foi importantíssimo ter jogado bem... Parecia que já estava no Benfica há dez anos", conta José Santos, para quem "Tiago não tem fronteiras e, com um bocado de sorte, ainda vai a este Mundial".