Van Langenhove: «Vata estava encoberto por jogadores»
Marcel van Langenhove não precisa de esforçar-se para perceber a razão do nosso contacto. "Já me telefonaram dois jornalistas portugueses", diz, assim que nos identificamos. Por estes dias, o belga, de 65 anos, vai estar nas bocas do mundo: ele foi o árbitro do Benfica-Ol. Marselha realizado a 18 de abril de 1990, no qual as águias asseguraram a qualificação para a final da Taça dos Clubes Campeões graças ao golo apontado com a mão por Vata.
Ao cabo de 20 anos, e a poucos dias de novo embate entre as duas equipas, o agora autarca da cidade de Wemmel fala do lance com o à-vontade de quem está de consciência tranquila, recusando ter havido qualquer premeditação. "O lance começou num canto. Havia uma grande aglomeração de jogadores na área e eu estava encoberto."
Certo de que tomou a decisão em consciência, explica não ter consultado o assistente, porque este também não viu qualquer infração. Considera ter sido "um lance muito difícil" de ajuizar e, já que se fala tanto de nova tecnologias, apoia-se nos comentários feitos na televisão francesa TF1. "Só à terceira imagem, através da câmara que estava colocada atrás da baliza, é que conseguiram ver que o remate tinha sido feito com a mão."
Concluindo, Van Langenhove assevera que tomaria outra decisão se tivesse visto Vata infringir as regras.
Tapie inexistente
Após o encontro da Luz, o antigo árbitro tornou-se no alvo dos franceses. Tigana, então médio dos marselheses, acusou-o de estar corrompido, ao passo que o presidente do clube, Bernard Tapie, afirmava: "O Marselha tem melhores jogadores, mas o Benfica tem melhores dirigentes."
"Não falei com ninguém do Marselha no final do jogo", assegura, garantindo "não ter sido alvo de qualquer ameaça". Mas há um nome que lhe provoca fúria: "Tapie incendiou os ânimos. Esse senhor, para mim, não existe". Afável, Van Langenhove ameaça, no entanto, cortar a ligação se insistirmos em falar do antigo líder do emblema gaulês. "Você sabe o que ele disse..."
Para Van Langenhove, o encontro entre Benfica e Ol. Marselha foi apenas "mais um, como muitos outros", apesar de em causa estar a qualificação para a final da mais importante competição europeia de clubes. "O jogo só se tornou mediático, por causa do golo. Sei que fiquei na história do futebol europeu, mas muitos outros árbitros também. Na Liga dos Campeões tem havido muitos erros", sustenta, defendendo-se.
Van Langenhove deixou a arbitragem em 1990, após o Mundial de Itália, competição em que dirigiu alguns jogos, e uma carreira de 11 anos como juiz internacional. Hoje, é vereador da Câmara Municipal de Wemmel, cidade situada na região de Flandres. Colabora com o Anderlecht, prestando assistência aos árbitros. "Recebo-os e levo-os a jantar".
Continua a seguir o futebol e adianta que não quer perder o reencontro entre águias e franceses, duas décadas depois. Mas diz que vai ver os jogos apenas como amante do desporto-rei. "Espero que tudo corra bem", concluiu Van Langenhove, mantendo a tranquilidade na hora de recordar um dos lances mais polémicos das competições europeias.