A paixão do povo: Tudo começou há 80 anos
Primeira edição teve 8 equipas: Lisboa (4), Porto (2), Coimbra (1) e Setúbal (1)...
Foi há 80 anos. Num país a preto e branco, onde o amargurado colorido era oferecido pelo funesto lápis azul da censura, foi dado com enorme pompa e circunstância, a 20 de janeiro de 1935, o pontapé de saída no primeiro Campeonato da I Liga organizado pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Sem relatos na rádio, já que a Emissora Nacional de Radiodifusão apenas foi inaugurada em agosto de 1935, e com a televisão a não ser mais do que uma miragem, seria exageradíssimo dizer que Portugal estava vazio naquela distante tarde de domingo. Contudo, os ecos dos jogos alastraram-se rapidamente por todo o país, graças ao esmerado labor dos jornais.
Influências
A designação “Campeonato da I Liga”, traduzida da palavra inglesa “League”, era a prova da crucial influência britânica, iniciada no final da penúltima década do século XIX, na implementação do futebol em Portugal. No entanto, a presença dos húngaros Joseph Szabo, Wilhelm Possak – este de origem romena – e Rudolf Jenny, treinadores de FC Porto, Sporting e Académica, indiciava uma influência recente e crescente dos magiares no futebol português, visível na deslocação ao território nacional, no final de dezembro de 1934, dos prestigiados emblemas Ferencváros, Újpest e Bocskai, os três primeiros classificados do campeonato húngaro de 1933/34, onde atestaram as qualidades e defeitos dos principais emblemas portugueses.
A origem
Chamartín, Madrid, 11 de março de 1934. Em jogo a contar para a qualificação para o Mundial’1934, Portugal foi cilindrado pela Espanha, por 9-0, o que foi alvo de duras críticas da imprensa lisboeta, insatisfeita com a titularidade de 6 jogadores do FC Porto, e de incessante escárnio popular, acicatado por uma canção interpretada por Beatriz Costa com letra corrosiva: “Se a Seleção trabalha como eu quero, agora é que não falha, nove a zero…”. Ricardo Ornelas, prestigiado jornalista e selecionador adjunto, então com 34 anos, refletiu nas páginas do “Diário de Notícias” sobre a pesada goleada, clamando a urgência da reformulação do quadro competitivo para frear o atraso e as deficiências do “foot-ball” indígena. Os campeonatos regionais, dada a sua pouca importância e desnível de valores, e o Campeonato de Portugal, prova por eliminatórias, não ofereciam a regularidade e rigor competitivos necessários, como também não cumpriam os requisitos satisfatórios para que os jogadores evoluíssem e pudessem esgrimir argumentos perante seleções de nomeada. A principal medida proposta por Ornelas passava pela criação de um campeonato que reunisse as melhores equipas do país numa competição disputada em “poule” a duas voltas, no sistema de todos contra todos, seguindo os bons exemplos de outros países.
Luz verde
O modelo competitivo espanhol era visto por Ricardo Ornelas como o exemplo a seguir, em virtude da divisão em três torneios: o Regional, de setembro a dezembro; o das Ligas, de janeiro a março; e o de Espanha, em abril e maio. Cândido de Oliveira e Ribeiro dos Reis, jornalistas, treinadores e pensadores do futebol português, afinaram pelo mesmo diapasão de Ornelas, que também conquistou o apoio do professor Cruz Filipe, então presidente da FPF, e de Luís Plácido de Sousa, colunista da revista “Stadium” e antigo presidente da FPF e da AF Lisboa. Depois de criada uma comissão de estudo, a Federação, no congresso prévio ao arranque da temporada 1934/35, decidiu organizar, a título experimental, os Campeonatos da I e II Liga, sem prejuízo dos campeonatos distritais, nem do Campeonato de Portugal.
Sucesso
O primeiro Campeonato da I Liga teve 8 participantes, oriundos de 4 associações – Lisboa (4), Porto (2), Coimbra (1) e Setúbal (1). O principal motivo para restringir territorialmente a competição prendeu-se com a viabilidade financeira, já que existiam fortes dúvidas sobre se a recetividade do público permitiria cobrir as despesas com as deslocações. As receitas brutas de 874.508,50 escudos, respeitantes ao primeiro campeonato, que seria ganho pelo FC Porto, atestaram o sucesso da iniciativa, que, ao fim de 4 anos, abandonou o caráter experimental.
Os pioneiros
Sporting, Benfica, Belenenses e União de Lisboa, os quatro primeiros classificados do Campeonato de Lisboa, FC Porto e Académico do Porto, este após uma incessante disputa com o Boavista apenas resolvida na secretaria, os dois primeiros classificados do Campeonato do Porto, Académica, campeã de Coimbra, e Vitória, campeão de Setúbal, foram os 8 emblemas participantes na edição de estreia.
Belenenses-FC Porto, 1-1
Resultado justo nas Salésias, num despique em que o FC Porto, beneficiando da maior qualidade técnica dos seus jogadores, assumiu o domínio perante um Belenenses que mostrou ser um “team” compenetrado, contando com uma exibição inspirada do “keeper” Reis, notável a travar os intentos portistas com um punhado de ótimas intervenções. Contra a corrente do jogo, os lisboetas chegaram ao intervalo em vantagem. José Luiz, arguto a desmarcar-se e a impor-se no duelo com o imponente “back” Avelino Martins, deu a melhor sequência a um passe de Bernardo, batendo o “keeper” Soares dos Reis.
No início da etapa complementar, o FC Porto chegou ao tento da igualdade, na sequência de uma incursão de Lopes Carneiro pelo flanco direito. Reis, importunado por Acácio, não conseguiu deter o cruzamento do extremo, com a bola a sobejar para Pinga, ardiloso a encontrar a cabeça de Nunes para o “goal” que definiu a paridade final. Até ao epílogo, foi o Belenenses a esbanjar a melhor oportunidade, quando Soares dos Reis defendeu com perícia um “penalty” batido por Bernardo, que castigou uma mão aparentemente involuntária de João Nova.
Benfica-Vitória, 3-1
Triunfo justo do Benfica, que poderia ter alcançado números bem mais vigorosos, ante um Vitória sadino com pouca vivacidade e escasso ardor nas disputas da bola. No fim do primeiro quarto de hora, os “vermelhos” já venciam por 2-0, graças a dois “goals” de Valadas: o primeiro, a dar sequência a um cruzamento da direita de Torres; o segundo, na transformação de um livre que o “keeper” Crujeira não conseguiu conter. Após um primeiro tempo em que o Benfica dominou o embate, beneficiando do vento que soprava favorável, a segunda etapa foi mais repartida, apesar do maior ascendente lisboeta com Valadas em destaque. Seria Torres, num potente remate após jogada individual, a dilatar o “score” para 3-0, tendo Rendas apontado o tento de honra dos setubalenses.
Académico do Porto-União de Lisboa, 3-3
Na única partida disputada no Porto, Académico e União protagonizaram um jogo entusiástico e emocionante, marcado por uma arbitragem paupérrima de Aureliano Lima, com claro prejuízo para o “team” da casa, que se queixou da anulação de um “goal” por “off-side” inexistente. Perante a ira dos adeptos portuenses, o juiz de Coimbra foi obrigado a sair do Estádio do Lima sob forte escolta policial. No primeiro tempo, o Académico mostrou mais competência a meio-campo, mas o União foi mais acutilante no ataque, o que conduziu a um “score” de 1-1. O segundo tempo caracterizou-se pela enorme agitação junto das balizas, o que proporcionou alternâncias constantes no marcador, encerrado com um 3-3.
Académica-Sporting, 0-6
Com 17 minutos de atraso face ao horário previsto, em virtude da cerimónia protocolar, o Sporting, a jogar a favor do sol, deu o pontapé de saída num jogo rápido e entusiástico para gáudio do imenso público presente nas bancadas. A manifesta supremacia técnica e territorial dos lisboetas permitiu-lhes assumir as despesas do prélio diante dos inexperientes “escolares”, que apresentaram um “team” com média de idades de 21 anos. Dois “goals” do avançado-centro Soeiro valeram, no fim do primeiro tempo, uma vantagem justa ao Sporting. No segundo tempo, a proeminência dos leões intensificou-se, indo de encontro a um dilatado “score” final de 6-0. Adolfo Mourão, Faustino, Ferdinando, de “penalty”, e Soeiro, autor de 3 “goals”, completaram a lista de marcadores.
CURIOSIDADES
Sistema piramidal. O 2x3x5, implementado na Grã-Bretanha durante a década de 1890, foi o único sistema utilizado na jornada de estreia do Campeonato da I Liga, em que as equipas se apresentaram com 1 guarda-redes (“keeper”), 2 defesas (“backs”), 3 médios (“half-backs”) e 5 avançados (“forwards”) esboçando uma pirâmide em campo. Esta situação prolongou-se nos anos seguintes, apesar de algumas experiências, por influência de Cândido de Oliveira e Ribeiro dos Reis, em WM (3x2x2x3), sistema introduzido, no final da década de 1920, pelo inglês Herbert Chapman.
O primeiro golo. Com o início das quatro partidas aprazado para as 15 horas, a leitura do documento de apresentação do Campeonato das Ligas, assinado pelo professor Cruz Felipe, então presidente da FPF, conduziu a atrasos no arranque das contendas. Valadas, extremo do Benfica, foi o autor do golo de estreia do Campeonato da I Liga.
A primeira grande penalidade defendida. Soares dos Reis, “keeper” do FC Porto, foi o primeiro a defender um penálti em jogos do Campeonato da I Liga. Nas Salésias, logo na jornada de estreia, o guardião travou o disparo de Bernardo.
O primeiro autogolo. Viriato, defesa do União de Lisboa, foi o autor do primeiro autogolo do campeonato, ao procurar evitar uma finalização vitoriosa de Fernandes, extremo do Académico do Porto.
O único estrangeiro. Jordan, avançado-centro austríaco do Académico do Porto, muitas vezes apresentado como Jordão nas fichas de jogo, foi o único jogador estrangeiro a pisar os relvados portugueses na edição de estreia do Campeonato da I Liga. O golo que apontou, na 5.ª jornada, ante o Belenenses (3-2), foi o primeiro de um futebolista estrangeiro em 80 anos do Campeonato Nacional.
Experiência. Joseph Szabo (FC Porto), Wilhelm Possak (Sporting) e Rudolf Jenny (Académica) constituíam a troika de técnicos estrangeiros na estreia do campeonato.
Muda o árbitro! António Palhinhas, árbitro setubalense indigitado para apitar o Belenenses-FC Porto, foi vetado pelos portistas, o que obrigou a FPF a nomear, em cima da hora, o lisboeta José Travassos.
Do impensável. Existem muitas dúvidas sobre o autor do primeiro golo do União de Lisboa, apontado após enorme confusão na área do Académico. “Primeiro de Janeiro”, “Comércio do Porto” e “Norte Desportivo”, três dos presentes no Estádio do Lima, apresentam marcadores diferentes, assim como “Sports” e “Stadium”, que coincidem na atribuição do golo a Armando Silva. Não deixa de ser curioso que o “Diário de Lisboa”, também presente no Porto, tenha optado, face às inúmeras dúvidas, por não atribuir um autor ao tento dos lisboetas. Não se pense que foi caso único. Ao longo das primeiras décadas do Campeonato Nacional existem inúmeras situações de diferentes autores para o mesmo golo, como também enormes discrepâncias em relação aos minutos dos tentos e confusões em relação aos onzes titulares.