Tiago Madureira: «Centralização de direitos não é o Robin dos Bosques do futebol português»

Diretor executivo da Liga Portugal diz que intenção "não é tirar" um euro aos contratos atuais e garante que processo é "irreversível"

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• Foto: José Reis/Movephoto
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A centralização dos direitos audiovisuais é um dos temas que promete marcar a atualidade do futebol português nos próximos anos. O assunto tem sido alvo de uma discussão permanente em todas as frentes, designamente em assembleias gerais da Liga Portugal ou em cimeiras de presidentes, e voltou a estar em cima da mesa esta quarta-feira, numa webinar organizada pelo organismo que tutela o futebol português e na qual participaram António Tadeia, jornalista, Tiago Madureira, diretor executivo da Liga Portugal, Pedro Brinca, professor da Nova SBE, e Luís Vicente, chairman da Apex Capital.

A conversa, que durou mais de uma hora, ficou marcada por uma declaração inicial de Tiago Madureira que serviu de mote para o que se seguiu. Nessa primeira intervenção, o dirigente fez algumas salvaguardas em relação a este processo, descansando os mais céticos com uma tirada curiosa.

"Centralização não é o Robin dos Bosques do futebol. Este é o ponto de discórdia que tem contribuído para o ruído que tem existido neste assunto. Os ativos audiviosuais são relevantes e o objetivo não é tirar aos que recebem mais para distribuir pelos mais pequenos. Que todos possam ganhar mais, nivelar por cima", começou por dizer Tiago Madureira, ressalvando que a única forma de algum clube passar a ganhar menos é se o mercado "estiver a diminuir nessa fase".

Para além disso, o dirigente fez também outra garantia, esta relativamente à execução da intenção de centralizar os direitos. "Discutir centralização é primitivo. É uma discussão que nem devia acontecer. Com todo o respeito e tenho respeito por pessoas que fomentam a discussão, acho primitivo discutir os benefícios da centralização, o que nos pode trazer. A centralização vai ser um game changer, vai ser definidor do futebol em Portugal. Não estamos muito na fase de se vai haver ou não ou se há caminho alternativo, isso não existe. Há um decreto-lei que foi aprovado e que define que a centralização vai acontecer no pior caso em 2028/29, que é quando acabam os últimos contratos. Em 2025/26, a Liga tem de apresentar proposta de decreto ao governo que irá balizar e definir condições associadas à centralização, nos mais diversos âmbitos", referiu, prosseguindo com a mesma ideia.

"Em 2025/26, a Liga, em articulação com a FPF, vai apresentar uma proposta que tem de ser aprovada pelo governo e pela Autoridade da Concorrência. Não há caminho alternativo, não vai andar para trás. Hoje, o presidente da Liga dizia uma coisa muito acertada, que, acontecesse o que acontecesse, os clubes seriam os primeiros a exigir a centralização. Há unanimidade. Os clubes estão representados numa empresa que foi criada para efeito de conduzir preparação deste trabalho e vão acompanhando. Foram criados sub-grupos da área legal, comercial e financeira. Há transparência total neste tema. É um processo irreversível. Vendermos a ilusão, pressionando seja quem for, de que pode ser revertido, não é verdade. Vai acontecer", acrescentou, apontando também que há uma "ambição unânime" de que sejam estudadas "possibilidades de tentar antecipar este processo o mais rápido possível".

A análise aos benefícios da centralização traçada por Tiago Madureira recebeu concordância de Luís Vicente, chairman da Apex Capital, que estava envolvido no Valencia aquando da centralização de direitos em Espanha. "Todos os desportos que se tornaram globais centralizaram. Se olharmos para o que aconteceu no futebol, com as competições das Federações e da Premier League, o Campeonato do Mundo centralizou. Os Jogos Olímpicos também centralizaram, a Fórmula 1 centralizou e várias ligas começaram a seguir a Premier League, que hoje continua a ser caso de sucesso. A Premier League já centralizou há 30 anos e tem uma construção de produto de muitos anos", disse, considerando a centralização uma oportunidade única por várias razões.

"O que é que vamos mudar e implementar para construir produto mais forte e lutar contra a situação gravíssima e complexa em termos financeiros do desporto? Quando olhamos para os números da UEFA, vemos que o futebol acumulou quase 12 biliões de perdas nos últimos três anos. Muitas dessas perdas foram geradas por um pequeno número de clubes. Todos os clubes deveriam gerar resultados positivos e isso não acontece. Há também aumento brutal de despesas operacionais, de salários de jogadores. A dívida bancária aumentou quase 51% e temos de fazer algo sobre isto. Temos uma oportunidade única por causa da centralização para podermos olhar e criar um negócio sustentável para todos", acrescentou.

Por outro lado, Pedro Brinca, professor na Nova SBE, levantou algumas reservas quanto ao processo. "Uma negociação centalizada tem potencial de criação de mais receita. Mas não acredito que vá ser muito superior. De acordo com contas que fiz com os colegas, o português já paga pelo futebol, segundo números de 2019, preço mais caro da Europa em proporção. Que margem existe para aumentar a receita?", questionou, respondendo quase de seguida: "Não acredito que esse aumento de receita seja significativo. Não é que não acredite que a Liga até possa melhorar o produto. Não acho é que possa ser monetizada."

O docente disse também que usar o exemplo de Espanha é "errado". "Espanha é sempre usada como exemplo. O que é errado. Espanha tem sempre clubes e jogadores em fases finais. Não é bom exemplo. Têm palco no futebol mundial", referiu.

Por fim, Pedro Brinca disse não encarar este processo como irreversível, até porque houve um outro, nomeadamente o do cartão do adepto, que também o era e foi revertido. "O cartão do adepto também era irreversível e deixou de ser. Acontece em todas as circunstâncias e ambiente. Lagarde [n.d.r.: presidente do Banco Central Europeu] a 12 de maio de 2020 fez uma conferência a dizer a propósito do impacto da pandemia a dizer que não temos nada a ver com isto, que a crise era financeira e não sanitária. Os juros dispararam e, seis dias depois, a Lagarde faz conferência a dizer que afinal não era bem assim. Se de facto os clubes decidirem que não querem centralização, o estado irá revogar decreto lei. Isto é algo que os clubes querem. Disso não tenho dúvidas. O governo fez o que fez a pedido dos clubes e dos representantes", atirou, recebendo, depois, resposta de Tiago Madureira. 

"Cartão do adepto não é processo similar. Só nós Chipre, Ucrânia e nós é que não têm direitos centralizados. Ir no sentido contrário da auto-estrada não faz sentido", referiu o diretor executivo da Liga Portugal.

Outro tópico que gerou discussão foi a questão do ranking europeu. A este propósito, Tiago Madureira disse que a centralização será importante, uma vez que criará condições às equipas que disputam a Liga Europa e a Conference League para chegarem mais longo, algo que, segundo o próprio, será importante também para os clubes que disputam a Liga dos Campeões. "O desenvolvimento dos clubes de média dimensão é decisivo para as receitas que mais impactam nos clubes grandes. Não temos mais equipas na Liga dos Campeões porque não somos reis da Conference League. A Holanda fez 65% dos pontos na Conference League no ano passado. Nós fizemos 61% na Liga dos Campeões. Mas é fundamental que os clubes médios possam também contribuir com pontos, de forma a que todos, grandes e não só, possam beneficiar da subida no ranking, bem como das receitas geradas pelas competições europeias, sejam diretas ou através da valorização de atletas", frisou.

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