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André Villas-Boas na entrega das Rosetas de Ouro: «O FC Porto não seria o que é sem sócios como vocês»

• Foto: FC Porto

Em vésperas de clássico, o Dragão serviu de palco para a cerimónia de entrega da Roseta de Ouro, distinção que homenageia os sócios com meio século de ligação ao FC Porto. André Villas-Boas discursou para os associados presentes, lembrando que, sem eles e a sua lealdade, o clube não teria a dimensão que tem atualmente. 

"Fazer 50 anos de Sócio do FC Porto é um feito só ao alcance da excelência. São décadas de presença, de identidade, de orgulho e, tantas vezes, de resistência. Enquanto há títulos que se ganham num jogo - amanhã temos um importante e que uma vitória nos leve ao Jamor -, este ganha-se numa vida de dedicação e amor singular por uma causa. A isto também se chama lealdade", começou por dizer o presidente portistas, terminando com um agradecimento: "O FC Porto não seria o que é sem sócios como vocês. Sem a vossa constância. Sem a vossa exigência. Sem o vosso apoio e o vosso espírito crítico. Sem o vosso sentido de pertença. Um clube pode ter grandes jogadores e grandes treinadores. Mas só um clube de sócios tem esta profundidade. Só um clube com sócios como vocês tem esta identidade." 

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Leia o discurso de André Villas-Boas na íntegra: 

"Caros Portistas,  

Fazer 50 anos de Sócio do FC Porto é um feito só ao alcance da excelência. São décadas de presença, de identidade, de orgulho e, tantas vezes, de resistência.  

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Enquanto há títulos que se ganham num jogo - amanhã temos um importante e que uma vitória nos leve ao Jamor -, este ganha-se numa vida de dedicação e amor singular por uma causa. A isto também se chama lealdade. 

E deixem-me começar com uma provocação em tom de brincadeira: estou cheio de inveja. Inveja da boa, claro! Não vejo a hora de estar no vosso lugar. Imagino o que vos vai na alma e a alegria intensa e imensa que estão a viver.  

Em primeiro lugar gostava de enaltecer o vosso altruísmo. Ter 50 anos de FC Porto ao peito, com número de sócio em dia e com quotas pagas é um vício saudável. Saudável e difícil. Porque atravessou no tempo a altura dos cobradores, as idas ao estádio das Antas para renovar a quota, até à modernidade e a entrada no Clube da transformação digital. Para muitos este caminho implicou também um esforço financeiro considerável para manter, aquela que é,  a nossa verdadeira identidade.  

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Em segundo lugar quero que juntos façamos uma viagem no tempo. A estes vossos e nossos 50 anos. 

Vocês foram Sócios numa fase em que Portugal mudou de forma abrupta. O fim da ditadura, a chegada da Liberdade. O 25 de Abril de 1974 marca a mudança social, política e cultural que todos ansiávamos. Mudou o país, mudou a vida das pessoas e a sua forma de estar mas, no meio dessa transformação, manteve-se uma constante: o FC Porto. Não como diversão social, mas sim como âncora. Como casa. Como pertença. Lugar mágico onde pela mão de um avô, um pai, um tio ou um amigo começou a vossa vida Portista. Memórias únicas que nos marcam profundamente a infância e que fazemos questão que os nossos descendentes a vivam da mesma forma.  

No desporto e no futebol em particular, também viram um mundo a ser virado do avesso. Da rádio e do relato na sala, ao ecrã gigante, ao minuto-a-minuto, às redes sociais e ao julgamento permanente. Do futebol “de domingo” ao futebol global, onde tudo se comenta e quase tudo se tenta condicionar. 

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E agora vem o ponto que interessa: o FC Porto não se limitou a sobreviver a esse tempo. O FC Porto afirmou-se nesse tempo! 

Há cinquenta anos, ser do FC Porto era, muitas vezes, acreditar antes de confirmar. Era saber que a grandeza estava lá mas que o caminho para chegar ao topo ia exigir muito mais do que aos outros. E vocês estavam lá quando esse ciclo começou a mudar.  

Estavam lá no momento em que o Clube rompeu um jejum que parecia interminável: o título de 1977/78, com José Maria Pedroto. Um campeonato que não foi apenas um troféu: foi um ponto de viragem. Foi o dia em que o FC Porto voltou a dizer ao país, com factos, que não aceitava viver de promessas.  

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E é impossível falar desses anos sem falar de figuras e símbolos: João Pinto, Fernando Gomes, Lima Pereira, Zé Beto, e tantos outros que marcaram uma geração. 

Durante os anos 80, o FC Porto deixou de pedir licença e começou a impor respeito. Viram o Clube ganhar músculo, ganhar ambição, ganhar método e ganhar muitos títulos com Pinto da Costa ao leme, Reinaldo Teles, Teles Roxo e Raul Peixoto. Viram o FC Porto transformar-se numa potência que não se limitava a discutir campeonatos: queria discutir Europa. 

E discutiu. E venceu. 

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Em 1987, viveram uma das páginas maiores do futebol português: a Taça dos Campeões Europeus. Viveram a noite em que o FC Porto se sentou na mesa dos grandes. Viveram Juary, Madjer, Futre, Rui Barros, o Estádio das Antas a ferver, o país a perceber que havia um Clube no Norte capaz de conquistar a Europa. E viveram, nesse ciclo, a Supertaça Europeia e o título em Tokyo. Foi uma mudança de estatuto. O FC Porto passou a ser a referência para todos. 

Nos anos 90, viveram a afirmação interna como poucos clubes no mundo conseguem viver. E aqui não há como fugir à palavra: pentacampeão. Cinco campeonatos seguidos. A marca que distingue os melhores. Isto é cultura vencedora. Isto é uma máquina bem montada e alimentada por exigência diária. Viram treinadores, viram equipas, viram jogadores que se tornaram memória coletiva, nomes que cada um de vocês guarda à sua maneira, porque cada geração tem o seu “onze” na cabeça e no coração. 

E viveram também o outro lado da moeda, aquele que só quem está cá dentro conhece: os tempos duros, o centralismo bacoco, os atentados à verdade desportiva. Houve momentos em que o FC Porto teve de lutar com tudo, e contra todos e sim, houve até tempos em que se falou da penhora ao Estádio das Antas.  

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Isso não envergonha ninguém. Pelo contrário: dá-nos força e mostra-nos a dimensão dos obstáculos que temos de ultrapassar. Mostra que o FC Porto se distingue dos demais. As suas gentes, do que são feitos, o que nos motiva. 

Pelo meio deste espaço temporal, mudamos do Estádio das Antas para o Estádio do Dragão. Na visão global de Pinto da Costa o crescimento do FC Porto também se sustentava nas suas infra-estruturas. Nos anos 2000 chega então o Dragão, o Arena, e o Olival para reforçar o estatuto e grandeza do FC Porto a nível nacional e internacional.  

E se alguém tinha dúvidas, 2003 e 2004 trataram de as esmagar. Taça UEFA em 2003. Liga dos Campeões em 2004. Outra vez a Europa, outra vez o topo. E, novamente, um título mundial. Viram o FC Porto ser campeão europeu e campeão do mundo, viram o nome “Porto” ser pronunciado com respeito em todo o lado, e viram jogadores que ficaram para sempre associados a uma era Vitor Baía, Jorge Costa, Maniche, Deco, Ricardo Carvalho, Derlei, e tantos outros e um treinador que marcou uma geração. 

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Em 2011, viram novamente a Europa ajoelhar-se perante o Dragão, com a Liga Europa. Viram um FC Porto dominador, afirmativo, ofensivo, com uma equipa inesquecível. Viram Falcao, Hulk, Moutinho, James, Helton e uma geração que deixou marca. 

E, ao longo de tudo isto, vocês viveram o mais importante: viveram o FC Porto como ele é de verdade com vitórias, com quedas, com injustiças, com noites épicas, com domingos de nervos, com finais, com autocarros, com viagens, com discussões em casa e abraços no estádio. Viveram o FC Porto como uma coisa séria. Porque para um Portista, isto nunca é só desporto. 

E é aqui que eu quero ser absolutamente direto: 

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o FC Porto não seria o que é sem Sócios como vocês. 

Sem a vossa constância. Sem a vossa exigência. Sem o vosso apoio e o vosso espírito crítico. Sem o vosso sentido de pertença. 

Um Clube pode ter grandes jogadores e grandes treinadores. Mas só um Clube de Sócios tem esta profundidade. Só um Clube com Sócios como vocês tem esta identidade. 

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Por isso, quando hoje recebem esta Roseta de Ouro, não recebem “uma medalha”. Recebem um símbolo. Um símbolo de quem esteve cá antes de ser fácil, antes de ser “natural”, antes de ser quase inevitável o FC Porto vencer. Recebem o reconhecimento de um Clube que sabe de onde veio e que respeita quem o acompanhou em cada etapa. 

E deixem-me terminar com a mesma frontalidade com que comecei: 

o FC Porto continua a precisar de vocês. O futuro não se espera. Constrói-se. E constrói-se com esta base, com Sócios que dão a cara, que sustentam, que exigem, que empurram e que nunca deixam o Clube sozinho. 

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Por isso, parabéns. Parabéns por 50 anos de Sócio. Parabéns por 50 anos de FC Porto. Parabéns por terem sido testemunhas, e parte ativa, de uma das maiores transformações de um clube europeu no último meio século. 

E sim: invejo-vos. Porque vocês já fizeram 50 anos desta História. E eu, como todos os Portistas, quero continuar a escrevê-la convosco. 

Viva os nossos Sócios.  

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Viva o FC Porto!"

Por José Miguel Machado
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