Atmosfera neutra de Molde rompida por "Save Timor"
ANTÓNIO VARELA, AUGUSTO LEITE e PAULO CÉSAR, enviados especiais
Molde -- A Liga dos Campeões, em Molde, é um acontecimento resumido aos 90 minutos de cada jornada, nada mais. Não há atmosfera, não há vibração. O facto de a equipa local ter ultrapassado os russos do CSKA Moscovo e os espanhóis do Maiorca nas duas pré-eliminatórias, antes de ter atingido a fase regular da melhor e mais rica prova continental de clubes, pouco diz à população local de 23 mil habitantes.
A proeza do clube teve maior eco nos meios especializados da federação e nas cidades de tradição futebolística, como Trondheim, do que no lugar onde as vitórias são novidade. O Molde nunca foi campeão da Noruega (foi quatro vezes segundo classificado) e não conseguiu ainda fidelizar uma verdadeira "aficion". O novo estádio, com capacidade para 13 400 espectadores, de construção recente (inaugurado em Abril de 1998), teve o recorde de afluência batido, em Setembro do ano passado, com a visita do Rosenborg (13 303 espectadores).
A visita do FC Porto poderia ser um teste à insensibilidade dos "moldenses", mas ao cabo de 48 horas, o resultado é significativo: nas ruas, a partir do entardecer só se ouve português e os dias têm sido marcados pelo ruído de quem ainda não calou a questão de Timor e usa camisolas negras onde se lê "Save Timor" (Salvem Timor). A população local deixa passar os ruidosos portugueses, apática, sem interesse.
Terça-feira, o dia foi marcado pelas demonstrações de solidariedade do presidente e do treinador do FC Porto, este impedido de o fazer durante a conferência de Imprensa oficial da Liga dos Campeões, como era sua intenção: "Eu também gostava de estar com uma dessas camisolas vestidas, mas a UEFA não o permite". Já fora da sala, Fernando Santos equipou-se com uma "Save Timor" e posou para os repórteres de imagem, solidário com o povo timorense.
Erik Brakstad, treinador do Molde, a finalizar as suas declarações públicas, também fez menção à causa: "Estou sensibilizado com a vossa atitude".
A acção mais incisiva viria, no entanto, do próprio presidente do FC Porto. Pinto da Costa falou primeiro, enquanto descontraidamente os jogadores faziam o treino da manhã, no estádio velho do Molde.
"O futebol pode contribuir para melhorar o mundo e esta e outras iniciativas que foram feitas em Portugal provam isso mesmo. Para além disso, esta tragédia de Timor também mostrou que quando se trata de questões justas, o povo português une-se, não é egoísta." Pinto da Costa revelou não ter nada pensado para relevar a questão de Timor, durante o jogo de hoje, "porque a UEFA também não o permite". Mas prometeu falar com o delegado ao jogo, até "porque esta não é uma questão política, é uma questão humanitária. São facínoras que perseguem e matam um povo".
Na ocasião, respondendo às perguntas dos jornalistas, o presidente portista revelou a vontade de levar o FC Porto até Díli. "Quando a cidade for restaurada isso será possível. Agora está tudo no zero." E o facto de Xanana Gusmão ser um confesso adepto do Benfica não incomoda Pinto da Costa: "Temos de respeitar as opções das pessoas. Em Timor haverá gente de todos os clubes."
O JOGO-INCÓGNITA
O quadro para o jogo de quarta-feira está definido. A furar a apatia que cobre a cidade e os eventuais adeptos do Molde interessados na estreia na Liga dos Campeões só a questão de Timor. Nem mesmo o norueguês Erik Brakstad contribuiu para o "suspense", guardando a equipa ao abrigo de qualquer opção de última hora. Revelou a sua composição logo a abrir a conferência de Imprensa. Por uma questão de mentalidade. A mesma que impediu Fernando Santos de o fazer, por respeito aos jogadores. "Eles são sempre os primeiros a conhecer a equipa."
No quadro de equipas prováveis publicado nesta página, provável, pois, só a do FC Porto. Record pensa que Fernando Santos, em relação a Braga, vai manter Argel e substituir Alessandro por Drulovic. Tudo passa por gerir a experiência dos jogadores na Liga dos Campeões com a frescura física que cada um possa ter. Daí que também Aloísio possa ter a sua oportunidade de reaparecer. Um jogo de opções escondidas que o espião do Molde presente em Braga não entendeu.
UM ÁRBITRO DEBUTANTE NA LIGA DOS CAMPEÕES
O árbitro Alain Hamer, que dirigirá o encontro de abertura da Liga dos Campeões desta época do FC Porto, logo ante o Molde, é um debutante na competição.
Hamer nasceu na cidade luxemburguesa de Bereldange há 34 anos -- um jovem internacional, portanto --, é empregado bancário e iniciou-se na arbitragem em 1982, sendo promovido à I Divisão em 89 e quatro anos depois recebia a insígnias da FIFA. Tratando-se de um estreante na Liga dos Campeões tem já um interessante currículo internacional, tendo sido um dos juízes seleccionados para a fase final do Campeonato da Europa de Sub-21 realizado o ano passado na Roménia.
Mas no encontro de logo não representará a estreia deste bancário com equipas portuguesas e o passado é animador para o FC Porto, uma vez que Hamer dirigiu o encontro entre o Sporting e o Rapid de Viena, a contar para a, agora extinta, Taça das Taças, em Outubro de 95, cujo resultado se saldou num triunfo para os leões, por 2-0, em Alvalade.