Belenenses-FC Porto, 1-3: A noite em que a fera deu cabo do caçador
Havia a tradição de meia dúzia de anos, que dava ao Belenenses o título de melhor caçador de dragões da SuperLiga; havia também a imponência da liderança portista, feita de futebol e de uma superioridade como há muito não se via no campeonato português. Era, por isso e muito mais, um jogo especial, oito dias depois da grande demonstração azul e branca em Alvalade. E mais especial se tornou quando os azuis de Belém se adiantaram no marcador, à passagem do primeiro quarto de hora, ou seja, numa fase em que não estava ainda definida qualquer tendência para o encontro. Nessa altura, e durante 30', o Restelo assistiu não à recuperação de um Belenenses de qualidade – há muito que deixou de se ver – mas a sinais de quebra pouco habituais no líder.
O FC Porto não foi capaz de gerir emocionalmente o facto de estar em desvantagem no marcador, mas ainda mais grave, mesmo para quem estava de fora, foi a sensação de que tentava mas não conseguia impor o seu poder, o seu jogo, a sua capacidade. Certo que as oportunidades de golo se avolumaram à medida que o tempo ia passando; que o desperdício, somado ao acerto de Marco Aurélio, já tornava a desvantagem ao intervalo imerecido castigo para os portistas; mas não era suficiente para apagar totalmente os grãos de areia detectados na engrenagem do onze de José Mourinho.
Se a primeira parte de ontem pode ser considerado um dos períodos menos conseguidos do FC Porto nos últimos meses, convém acrescentar que juntou a esse ataque de infelicidade e desinspiração 45' de sonho, nos quais asfixiou por completo o adversário, à custa do melhor de si mesmo: pressão a todo o campo; perfeito funcionamento colectivo; movimentações criteriosas; qualidade individual em todas as zonas do campo. Quando, em menos de 10', Jorge Costa deu a volta ao texto, nem o Belenenses descobriu forças para reagir, nem o FC Porto encontrou motivos para tirar o pé do acelerador. O jogo decorreu, até final, sempre no sentido da baliza de Marco Aurélio. E nessa altura de nada valeu a tentativa de reacção azul, porque a cada dez metros que o conjunto lograva subir no terreno era obrigado a recuar vinte ou trinta, com todas as implicações que tal representava na sua organização.
Na noite em que a fera ajustou contas com o caçador, ou seja, quando o FC Porto conseguiu inverter a tendência recente no despique com o Belenenses – no período pós-penta é a equipa que mais pontos lhe roubou –, ficou a certeza de que a superioridade azul e branca neste campeonato é absoluta. Uma equipa que viveu ontem uma situação pouco habitual – fora das Antas nunca tinha estado a perder –, que não foi firme na reacção ao infortúnio, mas que reencontrou o rumo, a qualidade, a calma e o espírito de conquista para nova demonstração de classe, traduzida em vitória indiscutível. O Belenenses, que se limitou a defender na segunda parte, reagiu nos minutos finais, em busca do empate. Baía fez uma grande defesa, mas do avanço resultou a criação do espaço que valeu ao FC Porto o terceiro golo e uma série de oportunidades que podiam ter desnivelado ainda mais o marcador.
Olegário Benquerença foi um desastre na condução do jogo. Os disparates sucederam-se e para que tudo se conjugasse foi mal auxiliado. A seu favor o facto de, à primeira vista, não contabilizar nenhum erro com influência directa no resultado. Elogio escasso para quem confirmou, afinal, o que dele já se sabe: é um árbitro que mesmo na facilidade consegue dar nas vistas por motivos maus. Enquanto os observadores gostarem está salvo: pode continuar a ser como é.
Flores no mausoléu de Pepe
Mais uma vez, e como é tradição há longos anos, o plantel do FC Porto depositou uma coroa de flores no mausoléu erigido em memória de Pepe. Jorge Costa e Capucho foram os jogadores portistas que seguraram a coroa. Só depois de cumprida a tradição é que a equipa do FC Porto subiu ao relvado do Restelo.
Benfiquista Tiago assistiu ao jogo
Tiago, médio do Benfica, foi um espectador atento do jogo entre o Belenenses e o FC Porto. O jogador encarnado não conteve um sorriso por ocasião do golo apontado por Verona, o mesmo não acontecendo nos tentos obtidos pelo FC Porto. Tiago abandonou o Restelo cinco minutos antes do final e não quis prestar declarações.