«Duplo Impacto»: Jardel/Drulovic
MÁRIO Jardel voltou às noites de glória. Depois da frustração de Molde, onde desperdiçou diversas oportunidades para marcar, o melhor marcador mundial da temporada passada necessitava de repor as coisas no devido sítio. Nada melhor que três golos logo no dia em que completou 26 anos de idade. Uma prenda que tão cedo não vai esquecer.
O goleador brasileiro soma já cinco golos em quatro jogos disputados no campeonato (uma média superior a um golo por jogo), o que vem uma vez mais comprovar o papel decisivo que detém na manobra ofensiva da equipa portista. Na hora de recolher os louros, Jardel não esquece os colegas.
"Como estou sempre ali por perto da baliza tenho mais possibilidades de marcar golos. No entanto, considero que o mérito é de toda a equipa. Sem eles o Jardel não era o que é. Tenho de manter os pés bem assentes no chão e provar sempre o meu valor. Espero alcançar os meus objectivos no final da época: ser o máximo 'artilheiro' português e da Europa. Tenho consciência que vai ser cada vez mais difícil, porque depende da sorte e do mérito. Este ano já se está a ver que as marcações vão ser mais serradas. Como acontece isso, quem tem de aproveitar são os meus companheiros, que terão mais oportunidades para marcar", explicou Jardel.
Apesar de sublinhar com insistência mérito no trabalho do conjunto, o Bota de Ouro reconhece ser um "jogador importante para o FC Porto. Estou sempre a trabalhar em prol da equipa e sei perfeitamente que as pessoas vão ‘cobrar' do Jardel. Por isso, tenho de manter sempre a regularidade.
Trabalhei bem, senti-me bem e o que interessa é estar lá, na hora de finalizar. Ontem estava inspirado. Em Molde parecia que a bola não queria entrar. Nesse jogo faltou tranquilidade, mas isso já foi ultrapassado com a boa exibição de sábado. Os cinco golos que já tenho marcados no campeonato dão outra confiança".
Jardel já esqueceu a exibição desinspirada da primeira jornada da Liga dos Campeões. A noite mágica de sábado voltou a elevar o nome do jogador portista ao patamar mais alto dos goleadores nacionais. Fica o desabafo de quem faz dos golos a sua profissão. "As fracas exibições só se esquecem com golos. Quando não marco fico chateado. Mas acima de tudo, o mais importante é que a equipa ganhe. Já disse que não me importo de ser campeão e ganhar todos os jogos por 1-0."
O FC Porto está a um apenas um tento de alcançar a marca de 4000 golos no campeonato, o que pode muito bem acontecer contra o Campomaiorense, na próxima jornada. Mais um “troféu” que o goleador brasileiro não pretende deixar escapar. "Tenho no pensamento bater todos os recordes. Será uma alegria para mim marcar esse golo. Para que a felicidade seja maior precisamos de ganhar primeiro ao Olympiakos."
PERTO DA CENTENA
Jardel está a três golos de atingir a centena no campeonato nacional. Desde a primeira jornada da temporada 96/97 até ao jogo do último sábado frente ao Rio Ave, o goleador brasileiro conta com 97 golos ao serviço do FC Porto (sem contabilizar a Liga dos Campeões e a Taça de Portugal). Se mantiver a média de que dispõe actualmente-- cinco golos em quatro jogos --, Jardel poderá fazer uma época ao nível das anteriores.
"Super-Mário" vive um momento feliz. Domingo de manhã, após a conferência de Imprensa, revelou um sinal que confirma isso mesmo. Pegou no filho Jardel Júnior, que completou três anos de idade sábado, exactamente no mesmo dia em que o pai fez 26, e brincou com ele durante alguns minutos. Apesar da tenra idade, o miúdo soube muito bem fazer o sinal do "hexa", com os seis dedos bem à vista. Afinal, quem sai aos seus não degenera...
DRULOVIC: "AFINAÇÃO IDEAL À ESQUERDA"
O extremo sérvio Drulovic iniciou a época assumindo querer ser o sucessor do esloveno Zahovic e o técnico Fernando Santos fez-lhe a vontade, reconhecendo-lhe argumentos para tal. As comparações são inevitáveis e do benefício da dúvida nos primeiros jogos depressa evoluiu para um notório sinal de perda. Tudo porque chegaram novos jogadores e a engenharia de Santos para o “chassis” 99/00 dos dragões acusou falhas, não se adaptou. A concretização ressentiu-se, o FC Porto não conseguia colocar no terreno a reconhecida "imensa" cavalagem do seu ”motor de ataque”. Para corrigir o problema recorreu-se à simples estratégia da bem sucedida fórmula do passado: recuperar o "duplo carburador Deco-Capucho”, ajustar o "precisómetro Drulovic" para fazer funcionar o aríete Jardel.
No último encontro ante o Rio Ave foi precisamente o reajustamento da colocação de Drulovic, um dos mais importantes aspectos para devolver à equipa portista potência concretizadora através de Jardel: o sérvio fez duas assistências para os quatro golos frente aos vila-condenses, mas já no jogo anterior, em Molde, a contar para a Liga dos Campeões, a sua nuclear importância na linha de montagem de golos tinha ficado evidente. Faltava afinar pequenos pormenores. Os elementos acamaram depois da necessária "rodagem" e o produto final, a julgar pela amostra ante o Rio Ave, provou a sua aptidão. Mas este processo valeu a Drulovic a cedência da posição organizador de jogo ofensivo que tanto desejava.
"Não acho que me tenham corrido mal os jogos iniciais em que joguei no lugar que era do Zahovic. O que se tenha passado, talvez, é que as pessoas estavam habituadas ao estilo de Zahovic (um jogador com uma classe de jogo que não é fácil de fazer esquecer) e, porque nestas coisas as comparações são inevitáveis, custou um pouco, até pela impaciência, aceitarem o meu estilo, diferente do Zahovic. Mas tudo bem, percebo como são essas coisas e aceito-as com naturalidade. O importante não é a situação individual de cada um mas a produção do colectivo e já era tempo de fazer qualquer coisa para mudar e deixar outros aspectos técnicos se calhar para mais tarde", analisa o flanqueador.
Conclusão: Drulovic está definitivamente condenado a orientar-se pela linha lateral-esquerda do terreno de jogo.
"Acho que sim. Já faço essa posição há três anos e com excelentes resultados. Dado que a equipa demorava a fazer boas exibições decidimos que o melhor era não pensar mais no assunto e eu voltar para o lado esquerdo. Comigo nessa posição a afinação do ataque da equipa é o ideal neste momento. Não quer dizer que as coisas não mudem outra vez, depende do que o técnico pensa e quer para cada jogo", confirma o jogador, fazendo, neste ponto, uma nota pessoal que considera importante: "Não fique a ideia que não gosto de jogar na extrema-esquerda ou que me sinto injustiçado ou triste por não conseguir ficar a jogar na posição que fazia o Zahovic. Gosto muito e se repararem surjo muitas vezes no meio campo a ajudar os meus companheiros dessa zona. A táctica no futebol não é tão rígida como isso e a única coisa que me preocupa é que os resultados daqui para a frente sejam tão positivos como os do último jogo."
AUGUSTO LEITE e RUI SOUSA