Farioli: «Já tive de lembrar a alguns jogadores que se quiserem um desporto individual têm sempre o ténis...»
Apontou festa do título do FC Porto como exemplo para os estudantes universitários
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Na conversa com estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, esta quinta-feira, Francesco Farioli também abordou diretamente, além da filosofia, o futebol e a forma como olha para o seu papel de liderança. Abordando a sua carreira de uma forma global, o italiano falou sobre alguns dos seus princípios e mecanismos de trabalho como técnico, desvendando algumas mensagens mais duras já transmitidas a jogadores. Farioli apontou também a festa do título dos dragões como a metáfora perfeita para a forma como aqueles devem olhar para a vida e para as respetivas carreiras.
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Em baixo a transcrição de algumas das ideias transmitidas por Farioli:
"Abordamos o futebol pela beleza do jogo. Ao fim e ao cabo, mesmo num jogo muito aborrecido, podemos encontrar um momento de beleza. E beleza não significa que, durante 90 minutos, tenha de ser algo brilhante. A forma como eu abordo, e como nós abordamos as coisas, é certamente sendo muito bem organizados, tendo, como disse, uma identidade e a capacidade de sermos capazes de lidar com todas as exigências do jogo. Algo que usei recentemente numa aula como esta, mas para treinadores que me perguntavam como construo a nossa própria ideia de jogo: vejo que o papel de um treinador hoje, na minha opinião, e da equipa técnica, é de certa forma construir um modelo de jogo que seja um tipo de encruzilhada onde o nosso objetivo é deixar o menor número de pontos negros possível no mapa. Quanto mais formos capazes de integrar tudo e de ligar as diferentes fases do jogo, provavelmente melhor e mais próximos estaremos da possibilidade de ser bem sucedidos.
Muitas vezes, quando estou nesta posição, mas um pouco sob o fogo de alguns jornalistas... Claro que existem comentários com diferentes intenções e desejos. E depende, claro, dos 50 e tal jogos que vamos disputar. Esses comentários sobre se o jogo foi fantástico ou se devia mudar isto ou aquilo... Eu gosto de dizer que, para o que fazemos, se mudarmos apenas uma única letra, do lado de fora parece apenas uma letra. Para nós, essa letra muda completamente a encruzilhada. Portanto, qualquer adaptação e quaisquer mudanças precisam de ser, de alguma forma, apoiadas pelo ajuste de todo o resto. E é assim que eu penso, é assim que trabalhamos. E é especialmente assim que tentamos traduzir as nossas mensagens para os jogadores, de forma a construir uma interpretação comum do que fazemos, uma compreensão comum... usarmos mais ou menos os mesmos óculos para observar a realidade e o cenário que vamos enfrentar.
E a partir daí seguir, porque, como disse, começamos aqui, sabemos mais ou menos onde queremos chegar, mas depois, como sabem, o futebol é uma questão de seres humanos, é uma questão de ego, é uma questão de grandes egos. Porque, no final, lidar com personalidades e jogadores com grande personalidade... é preciso essa capacidade. E aqui voltando ao ponto do meu ensaio, que é a capacidade de como nos limitarmos a nós próprios e a importância desta parte. Porque no final, e foi aqui que o meu ensaio começou, foi uma comparação entre uma equipa de futebol e uma sociedade. Porque, no fundo, ser uma equipa de futebol é como ser um cidadão. Vivemos sob regras, vivemos limitando a nossa liberdade para termos segurança. Limitamos a nossa liberdade para termos uma sociedade e interação com os outros.
Isto parece uma coisa muito pequena, mas na sociedade moderna e no futebol moderno, que é provavelmente a expressão máxima do individualismo, ou está a caminhar para lá, é por aqui que tenho de começar e não é uma batalha fácil. Aconteceu-me várias vezes falar com jogadores individualmente e lembrar-lhes que, se eles querem praticar um desporto individual, têm de ir para o campo aqui ao lado, que é um campo de ténis e não um campo de futebol. E este espírito de equipa, este desejo de estar num grupo, este desejo de estar numa sociedade... Se estendermos a metáfora do futebol à vida, na minha opinião, é onde tudo começa. E esta parte dá-me uma grande sensação de beleza. Porque, pessoalmente, na ordem ou especialmente na capacidade de reduzir o caos, de reduzir a entropia do mundo, é onde sinto que o impacto humano tem a possibilidade de mostrar as qualidades que temos.
E há poucos dias tivemos aqui no Porto uma imagem fantástica disto: até às 3 da manhã a cidade estava cheia de gente a saltar, a celebrar, a mostrar todo o desejo e o que significa ganhar pelo FC Porto; e menos de 10 horas depois tudo tinha voltado à realidade, em ordem. Para celebrar, tens de sofrer. Tens de passar pela dor. Para te tornares um grande estudante, tens de suar sobre os livros. Para seres uma equipa capaz de ser campeã, ou que consiga criar as condições para ser campeã, precisas de acreditar e precisas de colocar o esforço quando não há garantia de recompensa. E digam-me se isto não é algo que podem levar como comparação para o que fazem todos os dias. Digam-me quantos de vocês sentem o mesmo sobre o vosso futuro. Digam-me quantos de vocês sabem exatamente quem serão daqui a 10 anos. Para vos deixar confortáveis, há 15 anos eu não sabia.
Essa é a parte que eu queria partilhar convosco. O facto de eu sentir que, de alguma forma, isto vos poderia ajudar. Muitas vezes, quando vou a cursos de treinadores, perguntam-me: 'Míster, pode mostrar-nos o que faz?'. E eu recuso, primeiro porque sou um pouco ciumento pelo nosso trabalho, como podem imaginar, mas segundo porque não acredito que esse seja o caminho. O que eu gosto de partilhar é isto: partilhar a ilusão, partilhar convosco uma possibilidade que, mais uma vez, espero que todos alcancem... a mesma recompensa que eu tenho recebido nos últimos anos. Sinto-me um verdadeiro sortudo por vivenciar este tipo de emoções e sentimentos. Sinto-me muito grato porque, no final, não há sucesso ou oportunidades sem pessoas que te deem a mão e te deem uma oportunidade de fazer algo.
E como vos disse, a única coisa que vocês podem fazer é estarem preparados ou tentarem estar o mais preparados possível. E outra coisa que gostaria de vos sugerir, apenas como um irmão mais velho e não como um pai — tenho dois filhos pequenos e muitas vezes questiono-me se sou um pai bom o suficiente para os preparar para a vida. Portanto, para vocês, esta sugestão é de um irmão mais velho: não subestimem nenhuma entrevista de emprego, não subestimem nenhum momento que vão viver. Porque pode ser que de uma conversa surja outra, e outra... e caminhem 10 metros à frente e talvez encontrem o sonho da vossa vida, ou algo que nem sequer esperavam. Porque há 15 anos, quando eu estava aí sentado, nunca imaginaria que aos 37 anos seria campeão aqui no FC Porto, depois de já ter trabalhado noutras instituições incríveis. Portanto, a única coisa que aprendi durante o processo foi: prepara-te, prepara-te, trabalha muito e depois, sim, cruza os dedos e espera que algo apareça... E agarra-o! Isto é o que eu gostaria que retirassem da minha experiência. Uma bela lição de vida."