Gil Vicente-FC Porto 2-1: Campeão despede-se sem glória do título, do corpo e da alma

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O FC Porto consentiu em Barcelos a quinta derrota da época, acabando o campeonato com um dos piores "scores" dos últimos anos nesse domínio particular. Provou a si próprio e aos seus adeptos que dificilmente poderia ser campeão nessas condições, porque é difícil na liga portuguesa um candidato ao título aspirar à vitória final com uma série de resultados tão negativa. Seria um dos campeões menos brilhantes da história da I Liga, este grupo de jogadores portistas.

Não o foi, desde logo porque dependia do resultado de terceiros, mas, mesmo que dependesse absolutamente apenas de si, este FC Porto que jogou em Barcelos não teria - como não teve - futebol com substância para passar a prova real que se lhe punha, muito ao contrário do seu adversário, um quinto classificado que muito honra o campeonato, pelos resultados e, principalmente, devido à qualidade do jogo desenvolvido ao longo da época.

Fernando Santos, o primeiro treinador do FC Porto que, nos últimos vinte anos, tendo oportunidade de o fazer, não conseguiu realizar o "bi" pessoal, pôs a jogar frente ao Gil Vicente a equipa que mais confiança lhe dava, mas desde cedo se viu que ela continha jogadores em situação de sub-rendimento, nomeadamente os brasileiros Esquerdinha e Deco. O primeiro deixou o seu flanco à mercê de Carlitos - o melhor barcelense em campo - e o segundo não teve a mobilidade suficiente para jogar como o adversário exigia. Este Deco não é o jogador cuja contratação tanto gozo deu a Pinto da Costa, e tantas indisposições tem provocado entre os adeptos do Benfica. E por não ser capaz de assegurar os níveis de rendimento exigidos a um jogador-chave, a equipa ressentiu-se e o treinador pagou pela sua aposta.

CISNE CANTA

O FC Porto, suposto candidato ao hexacampeonato, perdeu o jogo no meio-campo, onde as trabalhadoras, mas também refinadas "formigas" de Álvaro Magalhães, demoraram pouquíssimo tempo a acertar o compasso entre a fase de recuperação da bola e a distribuição para o ataque. Petit, Ricardo Nascimento e Guga, com a colaboração de Casquilha, posicionado sobre a esquerda, jogaram demasiado para Deco, Domingos e Paulinho Santos. E Carlitos pulverizou Esquerdinha.

Em desvantagem, Fernando Santos arriscou uma alteração estratégica, a modos que o famoso e estafado "canto de cisne" do agora ex-campeão. Tirou Nélson e fez entrar Clayton. Isto é, os portistas passaram a jogar com Jorge Costa-Aloísio-Esquerdinha na defesa, Paulinho Santos e Deco mantiveram-se no meio-campo e Drulovic posicionou-se atrás de Jardel e Domingos, estando Capucho e Clayton nas alas. Um candidato ao ataque, que conseguiu chegar ao empate. Mas que esteve nessa situação por pouco tempo.

Paulinho Santos foi sempre mais um falso segundo defesa-central, do que propriamente recuperador e organizador. E, face à exibição deficitária de Deco, o Gil Vicente, que já controlava o meio-campo e, em parte, o jogo, teve o tempo e as ocasiões suficientes para explorar os golpes de contra-ataque protagonizados por Carlitos. Até este conseguir o golo da vitória.

Por essa altura, os golos do Sporting soavam já no Adelino Ribeiro Novo e os homens do penta, mais o seu engenheiro, desligaram-se da realidade. Chainho, que entrara a substituir Paulinho Santos, era o único elemento a jogar com clareza, e demasiadas vozes se ouviam em campo. O FC Porto, imagem de rigor e pujança, caía na anarquia dos vencidos.

Os portistas não cumpriram o objectivo do hexa, mas, no culminar do ciclo que ontem findou, no futebol português, têm um recorde suficientemente valioso: cinco campeonatos consecutivos. Como também continuam a deter o recorde do jejum mais prolongado (19 anos), depois de o Sporting domingo ter terminado com a sua aflição. Algum dia teria de acontecer e coube a um pentacampeão matar a fome ao leão. Um facto que fica na história.

ANTÓNIO VARELA

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