Rosenborg-FC Porto, 1-2: Quando o talento dita todas as leis
"A grande arte do FC Porto foi resistir ao embate musculado e conseguir em meia dúzia de situações sair a jogar em contra-ataque. (...) O primeiro golo tem mesmo as impressões digitais do talento individual dos mais criativos jogadores portistas"
Trondheim – Melhor o resultado que a exibição, quantas vezes já se disse uma coisa destas e quantas vezes mais se há-de dizer enquanto houver futebol? O FC Porto veio à Noruega abrir as hostilidades na Liga dos Campeões, pisando o terreno de um adversário incómodo, forte mas sem grande prestígio internacional, capaz de bater qualquer equipa na Europa mas proporcionando sempre a ideia de escândalo de cada vez que comete a proeza de travar um grande. Dito de outra maneira: o FC Porto ganhou ao Rosenborg e amanhã já ninguém se lembra disso na Europa, mas, se perdesse, daqui por meia dúzia de anos ainda se falaria da malapata que os portugueses têm com a equipa do senhor Eggen, o treinador bonacheirão já sexagenário do campeão norueguês, que para além de saber o que é bater os azuis e brancos, não fez por menos quando defrontou o Boavista e ganhou tranquilamente aqui e lá.
Não vale tirar mérito ao FC Porto na vitória de ontem, mesmo que, de passagem, se diga por amor à verdade que esta equipa do Rosenborg não mostrou o poder de anos anteriores. Está envelhecida e deu também a ideia de estar desarticulada, à procura de motivação para continuar a caminhada iniciada há nove anos, altura a partir da qual tem ganho todos os campeonatos cá da terra, aos quais se têm seguido prestações europeias interessantes mas que, está visto, não podem ir muito além do que já foram.
Mas se não vale tirar mérito à vitória, convém acrescentar que o FC Porto esteve longe de deslumbrar. E foi pena, porque tudo aponta, agora que o jogo acabou, no sentido de ter desperdiçado uma boa oportunidade para juntar jogo e golos. A equipa entrou bem, assumiu o comando das operações, chegou à vantagem quando a partida ainda não tinha dado sequer os primeiros sinais de definição e tudo parecia encaminhado, se não para um passeio, pelo menos para uma noite mais ou menos tranquila, que permitisse consumar a vitória ainda nos primeiros instantes.
Não foi isso que aconteceu. O jogo desaguou aos poucos no confronto físico de dois blocos, com muitas perdas de bola de parte a parte, com poucos motivos para aplausos. A grande arte do FC Porto foi resistir a esse embate musculado, chutando para a frente se era para chutar para frente, ou para a bancada se fosse essa a melhor opção. E em cima desse empate conseguiu em meia dúzia de situações sair a jogar em contra-ataque, com perigo, à custa da maior valia de alguns dos seus jogadores. O primeiro golo, então, é o melhor exemplo dos traços gerais que explicam a vitória, um lance com as impressões digitais do talento individual dos mais criativos entre os azuis e brancos: Pena leva a bola, entrega a Capucho, que solicita Deco, que coloca Pena isolado diante do guarda-redes.
Já com Paredes em campo, que substituiu um Rubens Júnior cedo marcado pelas instruções veementes de Octávio Machado, o FC Porto encaixou-se melhor em termos tácticos na forma como o Rosenborg actuava. Mantendo os pressupostos, os portugueses chegaram ao segundo golo através de um cruzamento espectacular de Mário Silva, que permitiu a Deco marcar de cabeça entre as torres norueguesas. O talento acabava de ditar todas as leis.
Até final o mais impressionante terá sido a forma como os da casa acreditaram que ainda tinham uma palavra a dizer. Menos mal que a tenham dito no derradeiro minuto, ou seja, numa altura em que já não tinham tempo para mais conversas. Porque se a oportunidade lhes surgisse, a julgar pela forma como as coisas aconteceram, os azuis e brancos poderiam ter passado por algo que conseguiram evitar: o sofrimento.
GRAHAM BARBER, o árbitro, teve uma actuação dentro do estilo inglês de ver e viver o futebol, deixando jogar até ao limite da dureza, mas sem permitir mais que isso.