Seninho: "O jogo que virou toda a minha vida"
Foi o herói de Manchester, em 1977, onde sentiu a relva a tremer. Antes do jogo era uma figura discreta. Depois dele saltou para as primeiras páginas dos jornais e acabou por rumar para o Cosmos
RECORD – Vem aí mais um confronto com o Manchester United, altura ideal para recordar a eliminação dos ingleses na já extinta Taça das Taças, em 77/78. Foi o grande herói do jogo da segunda mão. Que recordações ainda tem?
SENINHO – Todas. Lembro-me de tudo como se fosse hoje. Tínhamos ganho 4-0 nas Antas e estava lá toda a imprensa mundial para ver a equipa que tinha conseguido esse feito. Marquei dois golos, por sinal muito bonitos, que foram decisivos, porque perdemos 5-2. A nossa equipa era fabulosa e na semana passada até estive a almoçar com o Rodolfo Reis, que era a nossa força no meio-campo com Octávio e Teixeira, a recordar esse jogo. Sofremos um pouco com o árbitro, pois o Murça marcou dois golos na própria baliza, mas foi autenticamente empurrado lá para dentro. Esse foi também o jogo que virou toda a minha vida.
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R – Foi lá que o Cosmos o viu jogar?
S – Segundo me disse depois o Pelé, eles já me conheciam, pois tinham vindo a Portugal ver alguns jogos, mas ninguém soube. No final do jogo, fiquei a saber que os olheiros do Real Madrid, Atlético Madrid, AC Milan e até mesmo o próprio Manchester United, tinham gostado da minha exibição. Fiquei naturalmente entusiasmado. Mas foi na manhã seguinte ao jogo de Manchester que o representante do Cosmos me colocou uma proposta fabulosa à minha frente. Meio milhão de dólares (o que era 20 mil contos nessa altura) e um contrato para três anos. Era mesmo muito dinheiro para aquela época e aceitei de imediato, mas também avisei que tinha uma entidade patronal que tinha o direito de opção sobre o meu passe e que teria primeiro de falar com o FC Porto. Tive algumas dificuldades em sair do FC Porto, mas a situação acabou por se resolver para bem de todas as partes.
R – No Cosmos sentia-se "pequenino" no meio de tantas estrelas?
S – Costumo dizer que era a "minhoca", porque era dos poucos que nunca tinha estado num Mundial. Além do Pelé, do Beckembauer e do Neeskens, que eram os mais conhecidos, também joguei com o Bogecevic, o jugoslavo que foi treinador do Belenenses esta época. Tínhamos um italiano, mais um alemão, um turco, um belga, um inglês e até um jogador do Irão. Eram nove estrangeiros, mas depois isso acabou porque os americanos decidiram impor um limite e o futebol foi decaindo aos poucos.
R – Voltando ao jogo. Mais recordações?
S – Houve muita coisa que me marcou nesse jogo. Além dos golos irregulares, faltas e constantes empurrões, houve uma ameaça de bomba no hotel que os nossos dirigentes conseguiram ocultar para não ficarmos afectados. Também se disse que o árbitro, que era da ex-RDA, foi ameaçado. Ainda hoje não sei se foi boato ou existiu mesmo, mas o que sei é que senti a relva a tremer quando entrámos para fazer o habitual reconhecimento do relvado. O estádio tinha bancadas de madeira e os ingleses a bater com os pés faziam estremecer tudo. Foi uma sensação impressionante, mas a nossa equipa tinha um colectivo muito forte e experiente e conseguiu superar tudo. O nosso treinador, José Maria Pedroto, sabia como motivar-nos.
R – Como é que foram recebidos no Porto?
S – Foi uma loucura. Estávamos a fazer uma época espectacular e até fomos campeões. Parecia que tínhamos ganho uma Taça. Afinal, eliminámos o Manchester United, que era uma das melhores equipas do Mundo, como ainda é hoje. Depois, acabámos por ser eliminados pelo Anderletch da Bélgica. Mas isso não apagou a façanha que cometemos perante o poderoso Manchester.
"FC Porto actual é uma grande equipa europeia
R– Acha possível o actual FC Porto voltar a repetir essa façanha de eliminar o Manchester?
S – Claro que sim. Não podemos comparar as coisas. Hoje já não existem diferenças entre as grandes equipas, porque o FC Porto também é uma grande equipa europeia, caso contrário não estaria na fase em que está.
R – Mas a quem dá mais favoritismo?
S – Se o jogo fosse há dois meses atrás, até dava mais hipóteses ao FC Porto, mas agora coloco as possibilidades em cinquenta por cento para cada lado. O Manchester United melhorou muito com o novo jogador francês, o Louis Saha, e o FC Porto não está tão forte, mas ainda serve para dominar os acontecimentos ao nível nacional. Na Europa, este confronto será um grande teste para sabermos até que ponto a equipa não vai sentir em demasia a falta de jogadores importantes.
R – Está a referir-se ao Derlei?
S – Principalmente ao Derlei, um jogador fabuloso e um caso raro no futebol actual. Marca golos e é o primeiro a defender, fazendo aquela pressão alta tão característica do FC Porto. É um jogador de raça e muita luta. Um daqueles jogadores que todos os adeptos e treinadores gostam. Mas o Mourinho tem um bom leque de opções. É um treinador muito astuto, como provou no ano passado ao ganhar tudo o que havia para ganhar. E o FC Porto continua a ter uma arma que já vem dos meus tempos, que é a grande união que existe entre todos.
Um pedido especial a Cristiano Ronaldo
Seninho era um extremo-direito na verdadeira acepção da palavra. "Coisa rara nos dias de hoje", garante o ex-jogador dos dragões, ao mesmo tempo que tem dificuldades em referenciar jogadores actuais que tenham características idênticas às suas. Curiosamente, Seninho encontra algumas semelhanças na forma de jogar de Cristiano Ronaldo, adversário do FC Porto neste confronto.
"Ele pega na bola e segue logo direito ao defesa, o que dificulta o corte. Também fazia isso quando jogava", regista Seninho, que vai aproveitar para conhecer Cristiano Ronaldo quando o jogador do Manchester United estiver no Porto, fazendo um pedido especial ao ex-jogador do Sporting.
Seninho vai pedir a Ronaldo para tentar arranjar junto dos responsáveis do Manchester o vídeo do famoso jogo de 1977. É que Seninho tem uma cassete, mas sem som e quer voltar a sentir a emoção do jogo que mudou de forma radical a sua vida.
Histórias por contar
Sport Refice dava 2400 contos
Seninho chegou ao FC Porto em 1969. No ano seguinte, houve uma digressão pelo Brasil e o Sport Recife queria o rápido extremo. Ofereceu aos portistas 2400 contos, mas a resposta foi a de que Seninho era "inegociável, uma pérola por lapidar". Mas em 1971, o jogador teve de abandonar o futebol, pois foi chamado para a guerra do Ultramar. Que lhe deixou marcas psicológicas para sempre...
O mais rápido da Europa
Velocidade era a principal característica de Seninho. Os seus companheiros brincavam com ele, dizendo que até fintava os polícias que estavam na linha lateral. Um dia foi cronometrado e, com vento a favor ou contra (não se sabe...), fez 10,8 segundos aos 100 metros. Por isso levou com o estatuto do jogador mais rápido da Europa. Naturalmente...
Convite do Cosmos
Na manhã seguinte ao jogo de Manchester, Seninho tomou o pequeno-almoço e foi ao encontro do moçambicano Abdul Zubaida, o seu empresário. Na mesa estava um emissário do Cosmos de Nova Iorque com um contrato de 20 mil contos para três anos. Irrecusável em 1977, pois claro. Para trás ficou o interesse de Real Madrid, Altético Madrid, AC Milan e do próprio Manchester United.
Pinto da Costa disse "nim"
Antes da eliminatória com o Manchester, Seninho recebeu uma proposta de renovação pelo FC Porto apresentada por Pinto da Costa, na altura chefe do departamento de futebol. Havia uma pequena diferença de valores entre as partes e o assunto ficou adiado até Seninho surgir com a proposta do Cosmos. O FC Porto ainda tinha direito de opção e Pinto da Costa disse "nim", exigindo um garantia por escrito dessa fabulosa proposta. O telex, via Marconi, chegou no dia seguinte...
O telefonema de Pelé
O Cosmos esperava a resposta de Seninho, mas o FC Porto demorava a dar o aval. Um dia, Seninho recebeu um telefonema. Do outro lado era Pelé, nessa altura ainda jogador do Cosmos, mas já a funcionar como uma espécie de "manager". E foi assim: "Seninho estamos à tua espera. Qual é o problema? Atenção que não é só pelo jogo de Manchester. Se for preciso, falo com alguém do FC Porto." Não foi preciso...
Cosmos e Chicago Sting
Seninho assinou por três anos pelo Cosmos, onde ficou mais um. Ganhou três campeonatos e várias Taças, assinando depois pelo Chicago Sting por dois anos, sagrando-se também campeão na sua última época como futebolista. Regressou em 1984, com 34 anos e decidiu acabar a carreira.