Um golo no primeiro jogo e o apanha-bolas no nevoeiro
O antigo capitão revive a participação activa na vitória de 75/76, em partida marcada pela intensa neblina e por polémica, pois os leões contestaram os tentos adversários. E Damas jurou que o segundo fora obtido por um estranho
AO LONGO de doze épocas no Sporting, Manuel Fernandes jogou nas Antas em múltiplas ocasiões, mas só venceu por duas vezes, uma para o campeonato, outra na Taça. O primeiro caso aconteceu logo na temporada de estreia, quando os leões triunfaram por 3-2 num jogo controverso. "Havia nevoeiro intenso, situação que chegou a colocar em risco a realização do encontro. Jogámos, o Chico Faria fez o primeiro golo e eu o segundo. Mas, pouco depois, o Murça reduziu, num lance em que o fiscal de linha assinalou fora-de-jogo. Pensámos que a jogada fora ilegal, mas o árbitro, com poucas condições de visibilidade, validou-a. O pior foi na segunda parte, quando um remate do Gomes levou a bola a ficar presa do lado de fora da rede e, por entre a neblina, um apanha-bolas aproximou-se e colocou-a dentro."
A confusão instalou-se, Válter foi expulso. "O Damas ajoelhou-se, jurando que o golo fora ilegal, todos protestámos e até sentimos que o árbitro, o senhor Alder Dante, percebera ter errado, mas não havia condições para voltar atrás. Curiosamente, no dia seguinte encontrámos o árbitro e este admitiu que talvez pudéssemos estar certos." O caso terminou bem depois de uma situação inusitada. "Era jovem, senti que poderia cometer alguma asneira se continuasse em campo e pedi a Juca para me substituir pouco depois. Entrou o Baltasar que seria o marcador do golo do nosso triunfo. Até fomos aplaudidos pela massa associativa do FC Porto."
Só em 86/87 os leões voltaram a ganhar nas Antas, então para a Taça, em partida das meias-finais. Alder Dante voltou a ser o árbitro. "Lembro-me bem desse jogo e do golo marcado pelo Mário na baliza do lado norte, em remate forte desferido de longe quando se estava perto do final do prolongamento. Já não estava em campo, mas fiquei a ver o jogo junto ao túnel. O FC Porto era favorito, mas fizemos um jogo colectivamente brilhante, não demos espaços e vencemos com justiça."
No camarote e no banco
Claro que Manuel Fernandes não recorda todos os jogos que efectuou nas Antas pelo Sporting, apesar de algumas memórias dispersas. Em 77/78, Octávio foi a grande figura ao obter dois dos três golos (o outro marcou-o Duda, poucos dias depois de os portistas terem derrotado o Manchester United por 4-0) e na época de 79/80 regista-se um empate no encontro que teve três árbitros (António Garrido, bem como César Correia e Mário Luís como auxiliares). "O Freire deu-nos vantagem e continuo convencido de que me anularam mal o golo que daria o 2-0. Depois o Romeu empatou na recarga a um “penalty” discutível por alegada falta do Bastos sobre o Biffe. O Oliveira permitiu que o Vaz defendesse, mas o Romeu não perdoou", lembra.
Antes de deixar o Sporting ainda passa dois jogos como espectador: em 84/85, embora limitado, segue para estágio com a equipa, faz um teste em Vila do Conde, mas ressente-se de lesão e vê de um camarote o desafio em que Venâncio foi expulso. Na época seguinte é suplente não utilizado e recorda: "Vinha de uma série de golos. Na palestra, Manuel José disse que iria mudar algo e surpreenderia todos, ou seja, o Manuel Fernandes fica de fora. Hoje percebo a sua intenção, voltada para a aposta no contra-ataque com jogadores mais rápidos. Perdemos e, no fim, confessou: 'Já fiz asneira. No domingo és tu e mais dez.'"
Quando Jordão vigiou Jacques
Na última jornada do campeonato na época de 1981/82, o FC Porto recebeu o Sporting que já era campeão. No entanto, ainda havia pelo menos um ponto de interesse especial para decidir, como recorda Manuel Fernandes: "Se o Jacques não conseguisse qualquer golo seria o Jordão o melhor marcador do campeonato. Só que acabámos por sair derrotados, o Eurico foi expulso por acumulação de cartões amarelos e o Jacques marcou mesmo um tento. Engraçado é que, a determinada altura, o Jordão andou a marcá-lo, procurando impedi-lo de chegar ao golo. E ainda teve tempo de aparecer isolado frente ao guarda-redes, desviou bem a bola dele, só que esta perdeu-se pela linha de fundo."
Jacques (30) e Júlio (78) foram os autores dos golos.
Guardião improvisado
Antes de se transferir para o Sporting, Manuel Fernandes actuou com a camisola da Cuf durante cinco épocas e teve oportunidade de efectuar os primeiros encontros nas Antas.
Numa entrevista concedida a Record a anteceder o primeiro jogo pelo Sporting no estádio dos portistas, o antigo jogador lembrou que fazia sempre "jogos giros" por lá. Agora, mais de vinte e cinco anos depois, explica a sorrir: "Disse isso porque consegui empatar lá em duas ocasiões e, numa delas, até acabei o jogo como guarda-redes. O Conhé foi atingido no rosto, já estavam efectuadas todas as substituições, como achava que tinha jeito e me sentia extremamente calmo, ofereci-me para ocupar o lugar. Faltava pouco tempo para acabar, muitos tentaram o remate de longe, em desespero de causa, para me surpreender, mas não conseguiram."
De facto, em 72/73 e 73/74 a Cuf obteve duas igualdades, em ambos os casos a um tento. Primeiro, foi a 28 de Janeiro de 1973, na 22.ª jornada. Ricardo marcou primeiro para os dragões, mas Monteiro empatou a um quarto de hora do fim. No penúltimo minuto, Abel foi bem servido por um companheiro, Conhé saiu da baliza e lesionou-se no choque com o adversário, Manuel Fernandes ocupou o seu lugar na baliza. O segundo empate sucedeu a 29 de Setembro de 1973, à 4.ª jornada. Rodolfo foi o autor do golo portista, a Cuf igualou após “penalty” de Bené sobre... Manuel Fernandes.
Espião na Jugoslávia para afastar o Dínamo
Várias vezes o actual técnico leonino ficou fora das Antas devido a lesão. A época de 82/83 foi um desses exemplos.
Devido à pubalgia, Manuel Fernandes não jogou e, como fora operado em Belgrado pelo mesmo médico que tratara Pietra e Alves, voltou à Jugoslávia para ser observado. Só que o Sporting defrontava o Dínamo Zagreb pouco tempo depois e, aproveitando a viagem, o antigo futebolista foi observar o adversário, colaborando com o jogador-treinador António Oliveira. Recolheu tantas informações que foi precisamente Oliveira o principal responsável pela eliminação dos jugoslavos, obtendo três golos no jogo em Lisboa...
"Freitas era o mais valente"
Duelos com as defesas foi algo que não faltou na carreira de Manuel Fernandes, situação que se tornava muitas vezes mais complicada nos desafios com os portistas. E o antigo avançado nem precisa de ponderar durante muito tempo para destacar um nome de entre os que o vigiaram mais de perto. "Freitas era o mais valente, terrível a marcar, pois exercia a vigilância de modo bem apertado. Normalmente, quando actuávamos fora, eu costumava actuar em apoio do Jordão, num papel semelhante ao que representa hoje o João Pinto, por exemplo, mas era difícil escapar às marcações. Outro jogador que também representou o papel de marcador de forma exímia foi o Teixeira."