Os cerca de 500 sócios do Marítimo que se deslocaram para conhecer o plano estratégico saíram desiludidos e sem perceber qual o futuro do clube, numa altura em que a época está quase a começar. A descida à 2.ª Liga ainda está no horizonte dos associados que encaram o futuro com muita preocupação. Algumas das "figuras" da oposição à liderança de Rui Fontes fizeram intervenções e teceram críticas à gestão do atual líder.
André Gomes, um dos possíveis candidatos à presidência numa futura eleição, foi direto: "O Marítimo é grande. Não foi apresentado qualquer plano estratégico, mas uma gestão corrente, com um ano de atraso. As pessoas têm de votar em consciência. Não existe um clube grande sem a voz dos sócios. Não posso dizer se Rui Fontes se deve demitir. Se estivesse no seu lugar punha o lugar à disposição. O clube é grande e não haverá vazio. Posso garantir que nunca deixarei o Marítimo cair e se os sócios acharem que eu poderei ser a alternativa, então, serei a alternativa".
Miguel Caires, outro dos rostos da oposição, também ficou desiludido: "Continuamos sem qualquer informação do que se vai passar nos próximos tempos, nomeadamente, na preparação desta época. E também gostaria de perceber o que se passou até hoje, pois vários sócios disseram que não se desceu por falta de dinheiro, mencionando alguns valores exorbitantes, cerca de 27 milhões de euros que foram gastos numa época e meia. É um clube à beira da bancarrota".
Luís Olim, ex-administrador da SAD, revelou que a única coisa apresentada foi "a profissionalização de departamentos, que já tinha sido colocada no programa eleitoral mas o presidente recusou. Os sócios é que vão decidir se a direção tem condições para continuar".
Luís Miguel Rosa, outra voz discordante, considerou que "houve a apresentação de um caderno de vontades". "Já tinha sido apresentado, dizendo que era para colocar o Marítimo no topo da Liga e o resultado foi a descida de divisão. Na próxima semana, ninguém sabe muito nem o que vem aqui fazer ou votar. No meio das convulsões, vamos ver se temos uma equipa para lutar pela subida, que esse sim, é o objetivo", referiu.
E continuou: "Se a direção tem condições para continuar? Boa pergunta! Depois de hoje, acho que é difícil. E se a proposta for chumbada na próxima AG é um voto claro que os adeptos do Marítimo não pretendem este rumo e deverá haver eleições".
Depois, contestou a declaração do presidente da AG, José Augusto Araújo, que afirmou estar contente por ver vários candidatos à presidência a falar. "Lamentável. É triste, porque ninguém está para ser candidato, mas sim para perceber o que poderá ser o futuro do clube. Essa afirmação só ajudou a incendiar mais o ambiente e não era isso que se pretendia nesta sessão de esclarecimentos".
Miguel Silva Gouveia, outra das caras da oposição a Fontes, também foi direto: "Os sócios saíram daqui menos esclarecidos porque não se sabe o que vai ser votado na próxima semana. Foi um plano muito incipiente. Parece mais uma tábua de salvação à atual direção. Todos os maritimistas devem ter em perspetiva contribuir naquilo que podem. A afirmação do presidente da Assembleia Geral em relação aos possíveis candidatos foi infeliz, pois incendiou um pavilhão que estava à espera de ouvir o presidente da direção, e dele, nem uma palavra se ouviu".
Fontes saiu sem falar
O presidente do Marítimo foi apupado, não dirigindo qualquer palavra aos associados presentes. Após a exposição de Hugo Caetano, da Quest 21 Consulting, Rui Fontes surgiu na sala de imprensa, mas ao contrário do que seria previsível, não quis prestar qualquer declaração, remetendo para outro dia, que poderá ser antes da AG decisiva agendada para 27 de junho.
Hugo Caetano: "Há investidores interessados na SAD do Marítimo"
Quem esteve na sala de imprensa foi Hugo Caetano. "Não foi um fracasso, houve um conjunto de inputs positivos, com vista à melhoria do que foi apresentado. O Marítimo tem um percurso a fazer para poder competir com os outros clubes que estão a lutar para o regresso à Primeira Liga. Se não o fizer, terá um trabalho muito mais difícil para alcançar os objetivos", começou por afirmar.
E prosseguiu: "A equipa de futebol já se começou a preparar, com o Tiago Lenho, em conjunto com o treinador Tulipa. O investidor precisa que este plano estratégico seja visto, pois, efetivamente, a parte principal é a necessidade de profissionalizar a SAD. Há um conjunto de empresas que, do ponto de vista da estrutura societária, não estão dentro da esfera do Marítimo. É impossível atrair um investidor sem ter estas situações resolvidas".
"A época desportiva está a ser preparada e havendo a aprovação deste plano estratégico há pelo menos dois investidores, um que no imediato pode entrar e um segundo que pode começar a fazer um trabalho, porque pretende cotar a SAD do Marítimo em Bolsa. Estão a aguardar pela aprovação deste Plano Estratégico".
Depois, deixou o alerta quanto à atual situação da SAD: "Independentemente dos resultados financeiros, há um conjunto de situações dentro do universo Marítimo que têm de ser reorganizadas. É nisso que o plano se foca. Se isto não acontecer, não há plano possível, pois parte daquelas empresas que fazem parte do universo Marítimo, na prática não pertencem a esse universo".
O responsável da empresa adiantou depois que "há dois grupos sediados em Portugal, mas com investidores de fora e há um investidor americano", garantindo que "quando houver propostas concretas, as mesmas serão apresentadas aos sócios em assembleia específica para tal".
Com muita mágoa fez uma revelação importante: "Andámos há um ano para tentar falar com as pessoas que têm o poder para resolver, mas efetivamente ainda não conseguimos. Quem? Leiam os documentos que são públicos…"
«Um dos cinco principais clubes em Portugal»
Hugo Caetano revelou depois que "o Marítimo tem um conjunto de ativos que foram construídos ao longo do tempo, entre eles a marca e depois um conjunto de pessoas que pelo mundo inteiro são simpatizantes do Marítimo, o que é uma diáspora gigante". "É um dos cinco maiores em Portugal", frisou.
"O Marítimo tem a sua situação minimamente controlada. O que vi, tem fundos para aguentar o próximo ano normalmente. Agora, quando se mete em cima o esforço financeiro para competir e fazer investimento para subir, isso já é diferente. Fiquei contente por ouvir diferentes sócios a dizer que até se podiam posicionar como investidores. É um bom sinal, mas não sei qual é o apetite deles. Nunca fui contactado, nem a direção, pelos atuais sócios para reforçar a sua posição em termos de investimento."
Depois, falou sobre o valor percentual a adquirir por potenciais investidores. "Os 40 por cento foi um exemplo. Procuramos uma estrutura em que o investidor entre, participe na gestão, mas não retire ao clube a maioria do capital da sua SAD. É nesse cenário que estamos a trabalhar, embora, na prática, só nessa altura saberemos qual é a contrapartida que esse investidor quer, se é 10 ou 40 por cento", revelou.
«Há uma proposta concreta»
Continuando a falar sobre o futuro próximo verde-rubro, revelou que há uma proposta de um investidor mas não referiu a participação ao nível da SAD. Entregou a estratégica para o futuro e aguarda esta reorganização". E reforçou: "A SAD é detida pelo clube. Vamos preparar a SAD para ser independente. Depois, vamos ver se é vendida ou não. Neste momento, se tal acontecer, há interessados em comprar. Os sócios depois é que dirão se aproveitam ou não".
Para finalizar, Hugo Caetano deixou uma mensagem: "Estou de consciência tranquila com o trabalho que fizemos e podemos prestar todo o tipo de esclarecimentos a qualquer entidade que queira e precise.Se a estratégia não for aprovada, daqui a pouco tempo, vamos voltar a ouvir alguém a falar nestes termos.
Por João Manuel Fernandes