A viver uma segunda juventude em Vila do Conde, Mozer reconhece que mudou muito a sua maneira de jogar, conquistando a pulso um papel decisivo na estrutura idealizada por Carlos Brito. "Felizmente, parece que mudei para melhor", comenta entre sorrisos, lamentando o tempo perdido por culpa de duas rupturas num ligamento, uma em cada joelho, ocorridas em jogos contra o Benfica e o FC Porto. "Se calhar, muita gente deu-me como acabado para o futebol", admite, tendo conseguido ser "psicologicamente forte" para dar a volta por cima. "O importante é ter conseguido chegar aonde estou hoje", salienta.
Aos 32 anos, está longe de tremer quando se aproximam jogos com os grandes, como esta estreia no Estádio do Dragão. "No Rio Ave, cada jogador sabe o que deve fazer em campo", assegura, não dando grande importância à presença ou não de Diego na equipa portista. Seria apenas mais um craque para marcar na já longa lista do "assassino silencioso" do meio-campo vila-condense. Qual é o segredo da sua eficácia? "Há uns anos, talvez jogasse de forma muito mais agressiva. O tempo ensinou-me a não ser maldoso, embora nunca tenha lesionado ninguém. No passado, talvez corresse mais e estivesse menos vezes no sítio certo. Agora corro melhor. Estamos sempre a aprender", assevera.
Depois de uma grande exibição na Luz, coroada com um empate que soube a pouco, o Rio Ave tentará agora confirmar as suas credenciais frente ao líder da SuperLiga. "Vamos sempre para ganhar. Seja no Dragão, na Luz ou em Alvalade. Simplesmente temos de ser inteligentes, e perceber que, quando não dá para conquistar os três pontos, é sempre melhor garantir pelo menos um."
Uma fanática como advogada de defesa
É um caso pouco vulgar. Sandra Abreu, a mulher de Mozer, é natural de Vila do Conde e adepta do Rio Ave desde pequena, apesar de ter chorado das primeiras vezes em que o seu pai a levou ao Estádio dos Arcos. Dizia que era portista "por causa do irmão", mas rapidamente se rendeu às cores do principal clube da sua terra. Conheceu o que viria a ser o seu marido numa noite de "reveillon", em 1992, quando este ainda representava o Leixões. A partir daí, acompanhou-o em Braga, numa cidade que qualifica de "maravilhosa", mas sofreu muito quando Mozer se mudou para o Farense. Por isso, quando surgiu o interesse do Rio Ave, a nível familiar não houve qualquer dúvida sobre a aceitação do convite. Por alguma coisa Sandra Abreu anda sempre com o cachecol do clube no carro...
Mas como será para um profissional de futebol ter em casa uma fanática do clube que representa? "Não há qualquer problema", garante Mozer, assegurando: "Para ela, estou sempre bem. É a minha melhor advogada de defesa."
Orgulhando-se de manter uma relação muito forte com Sandra, o trinco revoltou-se quando tentaram colocar em xeque a sua vida familiar, antes do regresso de Carlos Brito ao comando técnico. "Se me virem na noite, é porque estou com ela. Não temos filhos e não saio sozinho. Fiquei indignado quando quiseram acusar-me de andar na má vida", lamenta. O casal está radicado na Maia, onde abriu um pronto-a-vestir à imagem das suas preferências em termos de vestuário. Mozer dá-se bem com a faceta de empresário: "Se não fosse o proprietário, gostaria de vir aqui fazer compras. Tem tudo a ver comigo."
Um trinco que não estraga o espectáculo
A função primordial de Mozer é impedir que os elementos mais criativos das formações adversários possam dar espectáculo. Esta época, somou sucessos contra Juninho Petrolina, João Pinto ou Jorginho, apenas para citar alguns exemplos, faltando ainda esclarecer se medirá forças com Diego.
Será um futebolista como Mozer um desmancha-prazeres para os espectadores? "O futebol é mesmo assim. Não tenho a obrigação de marcar ninguém individualmente mas, havendo uma zona de acção definida, cabe-me procurar que esse adversário não jogue bem, para permitir que a minha equipa jogue melhor. Por isso, entendo que o espectáculo não sai prejudicado."
Seja como for, Mozer admite que "quem está a ver um jogo de futebol prefere um jogador que faça maravilhas com a bola. Isto em detrimento de alguém que tenha a minha função. Eu dou valor às duas coisas..."
«Gosto muito do Costinha»
Na sua posição, Mozer identifica imediatamente uma referência nacional: "Gosto muito do Costinha. A sua forma de jogar e de estar, dentro do FC Porto, são importantes, bem como o respeito que impõe. Na nossa posição, é difícil ser valorizado por quem não esteja por dentro do futebol. Ele conseguiu-o."