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Carlos Canário: «Foi a união que nos deu a Taça»

Carlos Canário: «Foi a união que nos deu a Taça»
• Foto: Paulo Calado

Era o capitão do Sp. Braga quando os minhotos bateram o V. Setúbal na final de 1966. Filho da antiga glória do Sporting, Canário, da equipa dos Cinco Violinos, recorda como o pai o incentivou na véspera da final do Jamor. No domingo vai estar de coração dividido

RECORD – Carlos Canário foi o capitão que levantou a, até agora, única Taça de Portugal conquistada pelo Sp. Braga, em 1966. Quer contar-nos como foi essa experiência?

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CARLOS CANÁRIO – Obviamente que está na minha memória um título como este, pois infelizmente não tive muitos na minha carreira. Este foi o mais sonante, um momento que eu os meus colegas da altura recordamos com prazer e temos vivido sempre ao nosso lado durante estes 49 anos. Aconteceu porque nós, na Taça de Portugal, já depois de terminado o campeonato, criámos uma mentalidade forte com o novo treinador, o Rui Sim-Sim, que era nosso companheiro de equipa e ficou a tomar conta da equipa. Por uma razão ou por outra, ele transmitiu-nos uma coesão que até aquela altura não tinha acontecido. Não foi apenas a final que ganhámos, mas antes já havíamos ganho ao Benfica. Era a linha avançada com o Eusébio, Serafim, Nélson. Nós fizemos um excelente jogo em Braga, ganhámos por 4-1. Viemos ao Estádio da Luz perder por 3-1, mas ao intervalo ganhávamos por 1-0. Na altura não se falava muito nas arbitragens, mas notou-se na segunda parte que o árbitro nem parecia o mesmo... Enfim, conseguimos passar...

R – ... O Benfica foi nos quartos-de-final. E depois jogaram ainda com o Sporting.

CC – Sim. O Sporting era o campeão nacional. Empatámos 0-0 em Braga e 1-1 em Alvalade e na altura havia jogo de desempate, que ganhámos, no Restelo, por 1-0. Aí foi o toque a reunir para a final. Lembro-me que antes da final, um vereador da câmara de Braga foi à cabina e disse-nos algo que não irei esquecer. Disse-nos que Braga estava à espera da taça e fez uma comparação individual entre os jogadores do Sp. Braga e do V. Setúbal e no meu caso, comparou-me com o Jaime Graça e convenceu-me que eu era melhor do que o Jaime Graça. O que é facto é que fui lá para dentro convencido disso. Não é que tenha feito um bom jogo, mas entrei com o ego cheio. Tínhamos perdido por 8-1 em Setúbal quinze dias antes para o campeonato e ganhámos a final por 1-0.

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R – O V. Setúbal era, na altura, um grande do futebol português. Tinha ganho a Taça de Portugal na época anterior, estava um patamar acima do Sp. Braga?

CC – Sim, estava. Tanto que nós tínhamos um estrangeiro na equipa, o Perrichon, era o nosso goleador. Fez os três últimos golos na Taça. O Vitória, por exemplo, em 1966 teve cinco pré-convocados para o Mundial de Inglaterra e o Sp. Braga só teve um. A diferença via-se aí. Na final, o jogo correu-nos bem, o nosso guarda-redes, Armando, teve duas intervenções que tiraram golos ao V. Setúbal e nós tivemos uma ou duas e o Perrichon, como habitualmente, quando aparecia a bola em condições de chutar, normalmente fazia golo.

R – Para muita gente, o nome de Perrichon é o mais recordado dessa conquista, mas como disse, era uma equipa que valia pelo todo?

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CC – Sem dúvida. Tínhamos uma defesa rija, com bons elementos. O Armando, o guarda-redes, e o Mário, o defesa-direito, foram para o FC Porto passados dois anos. O Perrichon e quase toda a equipa ficaram lá na época seguinte e chegaram à terceira eliminatória na Taça das Taças, o que na altura era um feito. Eu já não estava, porque tive de sair devido ao serviço militar. Acho que essa coesão foi dada pelo Sim-Sim, que era um de nós, que falava a nossa linguagem, era amigo de todos, dizia as coisas que pensava. Ficámos agarrados a ele e a um outro ex-jogador do Sp. Braga, o Palmeira.

R – Essa vitória do Sp. Braga em 1966, na altura uma equipa de segundo plano no futebol português, é a prova que no futebol os favoritos podem perder? É o que pode acontecer agora, nesta final entre o Sp. Braga e o Sporting?

CC – Acho que no futebol há lógica e o facto de dizermos que na disputa de um jogo há uma equipa que é favorita, é a lógica que nos leva a dizer isso. Aquilo que penso é que numa final não há favoritos. Antes da final do Sp. Braga com o FC Porto, quando fui convidado para falar à equipa e disse-lhes: ‘Pediram-me para falar convosco não por ter ido à final mas por a ter ganho. Vocês têm de meter na cabeça que quando forem para dentro de campo não ganharam nada. O esforço que fizeram para chegar aqui é louvável, mas no fim só interessa vencer.’ Foi o que lhes disse. Estar na final é importante, mas ganhar é que fica. Braga é uma cidade que acolhe muito bem os jogadores de fora, como foi o meu caso.

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R – Como é aquele momento, aquele instante, de receber a Taça de Portugal e mostrá-la aos adeptos. Consegue explicar-se o que se sente?

CC – Quando ganhámos a Taça, fiquei tão contente lá em baixo no relvado que tiveram de me dizer que tinha de ir lá acima à tribuna para a receber porque já me tinha esquecido. Na tribuna, quando levantei a taça e vi aqueles milhares de adeptos do Sp. Braga a saudar a vitória, foi uma sensação inesquecível. A mim só me aconteceu uma vez na vida.... Há por aí capitães que já o fizeram mais de uma vez, mas a primeira é única e especial. Vê-se que fizemos qualquer coisa de muito bom para estar ali tanta gente em êxtase, porque os bracarenses naquele dia fizeram uma romaria para vir a Lisboa. Metade do estádio era do Sp. Braga e a outra metade do Vitória, sendo que Setúbal fica quase aqui ao lado de Lisboa e Braga fica a mais de 300 quilómetros. O momento mais emocionante para mim foi quando entrei em campo. Quando passei o túnel e cheguei cá acima das escadas, não tinha forças nas pernas, tremia por todo o lado. Só pensava para comigo: não vou jogar nada, já perdi, já estou cansado. Mas aquilo era a emoção de entrar no relvado do Jamor e ver aquelas pessoas todas. Quem me dera viver aquilo outra vez!

R – Sabemos que vai estar dividido nesta final entre Sp. Braga e Sporting, por uma questão familiar. O seu pai, Carlos Canário, era um dos elementos da célebre equipa dos Cinco Violinos do Sporting e ele próprio venceu a Taça de Portugal por quatro vezes...

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CC – Eu sou sportinguista, sócio número 361. Sou sócio há 69 anos e tenho 70 de idade. Comecei a ir ver jogos do Sporting pela mão do meu pai quando tinha três anos. Iniciei a minha carreira desportiva no Sporting aos 12 anos, no basquetebol, que pratiquei durante dois anos. Fiquei lá como futebolista, nos principiantes, juniores e seniores, mais quatro anos. Nunca deixei de ser do Sporting. Nunca fui tratado em equipa nenhuma onde joguei da forma como fui tratado no Sp. Braga. Aliado ao sucesso que tive – o último jogo que fiz pelo Sp. Braga foi a final da Taça de Portugal – também tenho o coração em Braga. Para mim é gratificante porque qualquer resultado me serve. Ficarei sempre satisfeito. Já me perguntei a mim mesmo quem gostava que ganhasse e francamente não sei responder.

R – Essa comunhão com o seu pai a nível da conquista da Taça de Portugal como foi? Falaram disso certamente?

CC – Recordo-me que eu tinha sido incorporado no serviço militar em Mafra 15 dias antes da final e já não treinava com a equipa. Vinha a casa à noite e o meu pai só me perguntava: "Deste uma corridinha hoje? Não te esqueças da final." Estava preocupado com o que eu pudesse fazer. Juntei-me à equipa na quinta-feira anterior ao jogo, que foi num domingo. O meu pai perguntou-me se não me importava que ele fosse comigo. Foi, claro. E o facto de eu ter ganho a final foi uma alegria muito grande para ele, claro. Para mim, desfrutei mais do resultado, mas meio preocupado pois no dia seguinte lá fui para o quartel de Mafra pensando que mais dia menos dia tinha de ir para a Guiné... Por isso não desfrutei como devia dessa vitória. Hoje, arrepio-me de pensar naquilo.

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- Os conselhos do pai na véspera da final de 1966

R – Sabemos que vai estar dividido nesta final entre Sp. Braga e Sporting, por uma questão familiar. O seu pai, Carlos Canário, era um dos elementos da célebre equipa dos Cinco Violinos do Sporting e ele próprio venceu a Taça de Portugal por quatro vezes...

CC – Eu sou sportinguista, sócio número 361. Sou sócio há 69 anos e tenho 70 de idade. Comecei a ir ver jogos do Sporting pela mão do meu pai quando tinha três anos. Iniciei a minha carreira desportiva no Sporting aos 12 anos, no basquetebol, que pratiquei durante dois anos. Fiquei lá como futebolista, nos principiantes, juniores e seniores, mais quatro anos. Nunca deixei de ser do Sporting. Nunca fui tratado em equipa nenhuma onde joguei da forma como fui tratado no Sp. Braga. Aliado ao sucesso que tive – o último jogo que fiz pelo Sp. Braga foi a final da Taça de Portugal – também tenho o coração em Braga. Para mim é gratificante porque qualquer resultado me serve. Ficarei sempre satisfeito. Já me perguntei a mim mesmo quem gostava que ganhasse e francamente não sei responder.

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R – Essa comunhão com o seu pai a nível da conquista da Taça de Portugal como foi? Falaram disso certamente?

CC – Recordo-me que eu tinha sido incorporado no serviço militar em Mafra 15 dias antes da final e já não treinava com a equipa. Vinha a casa à noite e o meu pai só me perguntava: "Deste uma corridinha hoje? Não te esqueças da final." Estava preocupado com o que eu pudesse fazer. Juntei-me à equipa na quinta-feira anterior ao jogo, que foi num domingo. O meu pai perguntou-me se não me importava que ele fosse comigo. Foi, claro. E o facto de eu ter ganho a final foi uma alegria muito grande para ele, claro. Para mim, desfrutei mais do resultado, mas meio preocupado pois no dia seguinte lá fui para o quartel de Mafra pensando que mais dia menos dia tinha de ir para a Guiné... Por isso não desfrutei como devia dessa vitória. Hoje, arrepio-me de pensar naquilo.

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