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NUM momento de grandes dúvidas quanto à qualidade do muito debatido futebol português, aliadas às costumeiras questiúnculas internas apontadas como razões da desdita corrente, duas das equipas com mais jogadores nacionais nos seus quadros deram ontem a imagem do tal jogo rendilhado mas não "pontilhado" em matéria de golos, que se convencionou chamar de melhor futebol sem balizas mas sem reunir consenso quanto a tal adjectivação.
Sp. Braga e Belenenses entregaram-se a um abraço de amizade, com assomos de "traição pelas costas" em que pareceu uma tragicomédia -- como o estado actual do futebolzinho da gente -- ver um encaixe perfeito contrariado por episódicas tentativas de quebrar a concórdia assumida desde o início. Um pacto de não agressão, que os de Lisboa se comprometeram a respeitar com uma toada exclusiva de contra-ataque e os minhotos só metendo a bola na área contrária em lances de bola parada. Pelo meio, um só fora-de-jogo assinalado, pertinho do fim, é outro indicador do (bom?) encaminhamento pretendido às jogadas -- quando não se perdiam por inúmeros e repartidos passes... transviados.
NULOOOOOOOOOOOOOOOOO...
Percebe-se, então, a razão do nulo, em golos, em futebol, em emoção, em que a evidência das estatísticas é puramente ilusória, como foi a ideia de alguma equipa querer vencer o jogo. Havia um tácito acordo/receio de princípio, com cada equipa a tentar explorar as falhas de atenção do adversário, ao jeito de deixa-me bater o pé a ver se te assustas. Os centrais de cada lado, e os guarda-redes em esparsas situações, não estiveram pelos ajustes nem tiveram trabalho aturado -- longe disso, literalmente... Se a primeira parte já dera indicações quanto à improdutividade genérica, com um só remate dos azuis e a melhor ocasião bracarense logo aos dois minutos e meio, por Silva, no único dos quatro remates desse período que nem sequer foi enquadrado na baliza (torto desvio do brasileiro a cruzamento de Luís Miguel), a segunda foi igualmente nula, apesar da discrepância do "volume" de jogo com a eficácia patenteada. Já com Cajuda a corrigir gradualmente as más opções iniciais (com a surpresa do titular Tiago, alegadamente cansado de estar fora de casa com os sub-18 nacionais), pois as entradas de Nuno Cavaleiro e de Castanheira deram algum dinamismo aos minhotos, as tentativas arsenalistas, em dez remates, foram mais fumo que fogo real. Apesar da boa actuação de Botelho, com estiradas difíceis a remates de Nuno Cavaleiro (47 m) e de Silva (89 m, este de livre directo), e sem falhar nos cruzamentos como no Bessa, foram do Belenenses as mais claras e próximas ocasiões de acertar na baliza.
ORDEM AZUL
Perderam os de Belém a possibilidade de matarem um borrego de 13 anos sem ganhar em Braga, apesar de mais três remates enquadrados na baliza (dos quatro seus na segunda parte). Num deles, o recém-entrado Cafu falhou, primeiro, a emenda a cruzamento do irrequieto Seba, e quando acertou na bola já tinha Quim "em cima" (64 m). E como os "números" do Sp. Braga revelam um domínio aparente, com dez remates mas metade para fora no segundo tempo, a confusão em campo - e muita intranquilidade, acrescida por ainda não terem vencido em casa nem marcado qualquer golo, averbando este pontito - teve paralelo quando Idalécio desviou de Quim uma bola que quase introduzia na própria baliza (82 m).
Seria um acidente em jogo facilmente programado, com encaixe táctico do meio-campo em que as actuações de Tuck e Wilson, de volta ao Minho após vários anos no Gil Vicente, foram preponderantes para a boa ordem azul.
Pena é a insustentável ligeireza de João Paulo Brito, sem ligação ao ataque desapoiado, numa equipa de Belém que tem um bom começo de época a pontuar onde lhe é devido e permitido neste campeonato.
Depois das derrotas caseiras com Rio Ave e FC Porto, domingo a confirmar-se a enorme quantidade de passes falhados nos médios bracarenses, sem que os defesas se soltem para um ataque órfão de uma muleta para Elpídeo "Tyson" Silva, incapaz por si só de fazer a diferença. E ainda sem que seja apenas um Cavaleiro suficiente para saltar tantos obstáculos. Os minhotos perderam-se no jogo miudinho, com Bruno inventivo mas já sem capacidade "de chegada", e para as bolas paradas (nove pontapés de canto no segundo tempo propiciaram 70% dos 14 cruzamentos registados) não houve quem beliscasse os centrais do Restelo, com Nilson em boa estreia. A coesão do bloco azul resulta, aliás, da manutenção da equipa-tipo nestas cinco jornadas com oito titularíssimos (o nono, Gouveia, ficou de fora por indisposição gástrica).
Estranhamente, o Sp. Braga "de" Cajuda, sem alterações significativas, não engata, apesar de muito ter tentado, e de diversas formas, para arrancar uma vitória em casa. Pontuou e saiu assobiado...