Sporting-Sp. Braga, 1-2: A vitória de uma ideia sobre o leão sem cabeça
O Sp. Braga demorou uma hora até colher os frutos da ousadia de ter entrado para discutir o jogo. Esteve a perder e, mais que isso, esteve perdido. Recompôs-se e concretizou a ameaça através de um furacão chamado Zé Roberto
ALGUMA razão tinha Manuel Cajuda para entrar em Alvalade com um quarteto ofensivo de respeito, indício claro de que, pelo menos em teoria, estava ali para discutir o jogo. E quem se predispõe a lutar por algo tem o direito de pensar que pode vencer, tem legitimidade para exigir do adversário e dos espectadores o respeito devido a quem está pronto para a luta e olha para o papel sentindo que tem armas para atingir o objectivo.
A questão é que na maior parte dos casos as equipas quando chegam aos redutos históricos do futebol português abdicam de jogar. Normalmente perdem por poucos, porque sim, porque o antagonista foi mais forte, sem se aperceberem que se tudo aconteceu em função desse motivo, mais valia nem ter o trabalho de fazer a deslocação.
Antes do início do jogo, o Sp. Braga estabeleceu como prioridade entrar cara a cara com o Sporting e teve ousadia de o fazer colocando ao mesmo tempo um quarteto ofensivo que conjuga as vantagens do talento de extremos rápidos e bons dribladores (Luís Filipe e Riva), o veneno do golo (Fehér) e a inteligência capaz de jogar e fazer jogar, aproveitando qualquer desatenção do adversário (Edmilson).
Serviu como declaração de intenções, mas não resultou na prática. O meio-campo, composto por Tiago e Castanheira, auxiliado por Edmilson (que recuava) e por Sousa (que acompanhava Tello), não suportou a maior pressão de um Sporting inspirado na dinâmica de Toñito, nos passes bem medidos de Tello, na movimentação de Acosta e no saber de Pedro Barbosa.
Mpenza na direita abria a frente de ataque e Paulo Bento filtrava atrás as iniciativas minhotas, de tal forma que Beto e André Cruz não tiveram necessidade de intervir e Schmeichel não passou de espectador.
Acontece que o tempo se tornou inimigo do Sporting. Quando houve pulmão, a equipa soube utilizar as pernas para assumir a procura do golo e encontrou disponibilidade para usar a cabeça na forma como foi cercando a baliza de Quim.
Mas importa referir, no entanto, que no momento do golo de Toñito, à passagem da meia hora, o leão dava os primeiros sinais de fraqueza. O domínio era cada vez menos firme, a luta no miolo era ganha com dificuldades cada vez maiores e a sorte aparente da equipa de Manuel Fernandes era precisamente que o adversário, afinal, tinha gente para atacar, queria fazê-lo mas não sabia nem como, nem quando.
Um furacão chamado Zé Roberto
No meio de tudo isto, o leitor já deve estar baralhado. Mas o Sp. Braga não tinha entrado mostrando claramente que desejava discutir o jogo? O Sporting não superou esse atrevimento e não chegou ao intervalo a ganhar, nas calmas? Tudo verdade. Mais: os minhotos, durante a primeira parte, pura e simplesmente não jogaram, perdiam por um como podiam estar a perder por dois ou três. Mas a história ainda só ia a meio...
Prova de que é um homem de convicções fortes, Manuel Cajuda não perdeu a ideia inicial. Manteve-a, mas trocou os intérpretes. Se Edmilson não era capaz de levar a bola até Feher, nem mostrou à-vontade para ajudar os companheiros que actuavam mais atrás, o mais indicado era trocá-lo por alguém que o fizesse melhor – e entrou Zé Roberto.
Se o meio-campo estava a perder por falta de agressividade, tirou Tiago e meteu Zé Nuno (como defesa-esquerdo), fazendo adiantar Andrade para o lado de Castanheira. Com estas duas alterações, o Sp. Braga não só manteve o instinto traçado antes de entrar em campo como, finalmente, o pôs em prática e lhe deu sentido.
De um momento para o outro, os bracarenses passaram a ser mais rápidos, mais resistentes e mais potentes no meio-campo e tornaram-se mais móveis e agressivos a toda a largura da frente de ataque.
Aos 4’ Luís Filipe deu o primeiro aviso, através de boa iniciativa pelo flanco direito. Três minutos depois, também pela direita, Riva assinou um lance espectacular, culminado com centro perfeito para a cabeça de Zé Roberto (golo 1), que oito minutos volvidos aproveitou uma bola mal aliviada pela defesa sportinguista e fuzilou Schmeichel (golo 2).
O furacão brasileiro tinha operado a reviravolta no marcador. Manuel Cajuda confirmava, ao cabo de uma hora, que não estava enganado: era mesmo possível discutir o jogo; não era a ideia que estava errada, apenas os intérpretes tinham sido mal escolhidos.
Até ao fim aconteceu o inesperado. Ou talvez não. O Sporting entrou em depressão, e sabe-se que nada pior para uma equipa que estar em campo deprimida. Não corre porque não pensa, não reage porque as pernas não correspondem; cava-se a fronteira entre querer e não poder; transmite a imagem de uma manta de retalhos, cada um a pensar por si, todos rumo ao abismo de uma confusão colectiva na qual ninguém se entende. E ninguém se salva. Nessas alturas é mais fácil detectar os equívocos.
Confirmou-se então que Tello (boa primeira parte, com dois ou três passes a rasgar a defesa) não é o extremo-esquerdo anunciado, que o ponta-de-lança Cáceres foi chamado de aflição para actuar encostado à linha do lado esquerdo e que naquele cenário desconjuntado Kirovski não veio ajudar Acosta, apenas serviu para atrapalhar.
O Sporting caminhou para o final sem sequer exigir o direito de revoltar-se com a preocupante situação desenhada em campo. A equipa entregou-se ao destino da derrota, permitiu que o adversário se defendesse sem problemas, e a prova de tudo isso está no facto de Quim ter feito um jogo tranquilo, sem qualquer intervenção verdadeiramente decisiva.
José Pratas fez um trabalho pobre, sem critério, condicionado em demasia pelas reacções do exterior. O costume, poderá dizer-se. Os sportinguistas reclamaram duas grandes penalidades. A primeira num contacto entre Mpenza e Andrade (muito difícil de ajuizar, pelo que não custa conceder-lhe o benefício da dúvida), a segunda aos 61’ por mão claramente intencional de Ricardo Rocha.