André Cruz: «Cheguei ao Sporting com dez anos de atraso»

PERTENCE à grande família do futebol. Foi companheiro e adversário de alguns dos melhores jogadores do mundo das últimas duas décadas, deuses dos estádios que ele, André Cruz, 32 anos, defesa do Sporting, trata por tu, na cumplicidade que aproxima os monstros sagrados e os torna um caso à parte.

De Ponte Preta a Lisboa percorreu um longo caminho, perturbado por desvios inesperados na estrada imaginária de uma carreira sempre adornada com a magia da selecção do Brasil. Jogou no “escrete” quando não tinha clube, mas por não ter clube falhou o Mundial de 1990, e já era uma estrela quando correu todos os riscos ao escolher o Standard Liège como porta de entrada no futebol europeu. A Bélgica estava destinada a ser ponto de passagem, mas lá ficou, “sumido”, para usar as suas próprias palavras, durante quatro anos, que lhe custaram a ausência no Campeonato do Mundo de 1994.

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Nápoles, Milão, outra vez Liège e Turim. Escalas de um percurso com meta em Alvalade, onde chegou “com dez anos de atraso”, mas a tempo de dar seguimento à elite de outros compatriotas, de ofício e posição, que fizeram a história recente do futebol português: Mozer, Geraldão, Luisinho, Ricardo Gomes, Ricardo Rocha, Aldair e Aloísio.

Esta é uma conversa elaborada com o objectivo de dar a conhecer o grande jogador que é André Cruz, central que tem para trás de si um rasto de classe tão grande que a sua presença entre nós só prestigia o futebol português e orgulha o Sporting Clube de Portugal.

- Ao fim de quase um ano em Portugal, se voltasse para trás teria vindo para o Sporting?

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- Não tenha a mínima dúvida. Essas coisas são difíceis de avaliar pegando desse modo. Quando fui para o Milan, por exemplo, antes cheguei a acordo com o Inter, porque o treinador na altura era Gigi Simoni (que está actualmente no Torino), com quem tinha trabalhado no Nápoles. Ele colocou-me no meio-campo e resolvemos assim muitos problemas da equipa. Na altura dei uma entrevista dizendo que a minha preferência, apesar do êxito da adaptação, era jogar atrás. Não sei se por isso ou não, a verdade é que depois o negócio esfriou. Acabei por transferir-me para o Milan, onde não fui totalmente feliz, e hoje, repito, hoje, há quem me diga que se tivesse ido para o Inter ainda a esta hora lá estava.

- Alguma vez se arrependeu das opções que tomou?

- Vamos cair na mesma coisa, porque também há exemplos ao contrário. Se pudesse andar para trás e me perguntassem: “André, em vez da Bélgica você viria para o Sporting há dez anos?”, a minha resposta seria clara: viria certamente. Acho até que cheguei ao Sporting com dez anos de atraso.

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- Outros grandes jogadores brasileiros, como Mozer, Valdo, Ricardo Gomes e Aldair, fizeram de Portugal a sua porta de entrada na Europa...

- ... E se quer saber a minha opinião, a entrada na Europa mais fácil, mais segura e mais lógica para um brasileiro é por Portugal. Falamos a mesma língua, a vida é boa, o clima é parecido, a adaptação é mais fácil, o choque futebolístico é menor, existem bons clubes, enfim só há vantagens.

- É um homem feliz em Alvalade?

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- Absolutamente. Ainda por cima o Sporting proporcionou-me a alegria de ter ganho o título nacional.

- Ficou surpreendido com essa conquista?

- Olhe, quando cheguei, ao fim de alguns dias, tive uma dúvida: não sabia se o grupo estava à altura de ganhar o título. Mas nessa altura senti também uma confiança muito grande, um ambiente extraordinário entre os jogadores e logo detectei muita qualidade. Depois fui vendo, através da televisão, os adversários directos e depressa concluí que podíamos ser campeões. Não seria fácil, teríamos de correr, de suar a camisa, de batalhar os 90 minutos, e teríamos de vencer outros aspectos extracampo que nos podiam travar a caminhada. Foi isso que fizemos, é isso que vamos continuar a fazer.

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- A exigência dos adeptos está a ser maior esta época...

- Talvez, mas nós também estamos mais fortes este ano. O grupo é maior, chegaram grandes jogadores, com mais experiência, e estamos preparados para resistir a essa cobrança maior. Não quero dizer que vamos ganhar o Campeonato, mas não nos resta alternativa senão lutar como até aqui para repetirmos a proeza do ano passado.

- Como analisa a participação do Sporting na Liga dos Campeões?

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- Agora é tempo de pensar no Campeonato. Quando for altura de pensar na Europa sabemos perfeitamente que, para termos alguma esperança, precisamos de ganhar ao Spartak em Alvalade. O resto passa pela vitória nas outras partidas, esperando que o Real Madrid vença os seus compromissos, menos com o Sporting. Temos de acreditar, porque, apesar de complicado, nada está perdido.

- A época passada dizia-se que a possibilidade de ganhar o título aumentou a pressão sobre a equipa...

- Na época passada falou-se da pressão como se fosse um exclusivo nosso, quando a pressão existe no futebol em geral, nos clubes grandes e pequenos.

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A GRANDEZA DE SCHMEICHEL

- No Sporting, entre outros grandes jogadores, encontrou um guarda-redes excepcional chamado Peter Schmeichel. Como reage à exuberância dele no contacto com os companheiros durante um jogo?

- Compreendo o objectivo do Schmeichel, mas continuo a pensar que, por vezes, exagera um pouco na forma como se dirige aos companheiros. Vejo muitos guarda-redes fazerem o mesmo que ele, mas é preciso entender que há jogadores que ficam ainda mais nervosos com os reparos e, sobretudo, com a exuberância com que são feitos. No que diz respeito ao Peter, é uma coisa dele, com a qual a gente tem de aprender a conviver, apesar de não ser do meu agrado.

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- Tirando esse pormenor...

- A tranquilidade que ele nos dá é muito grande. Porque toda a equipa, e sobretudo nós, os defesas, sabemos que lá atrás temos não só uma pessoa como o Peter mas um grande guarda-redes, excepcional na baliza e fora dela. E esta última característica, por exemplo, permite-nos jogar um pouco mais subidos. Eu sei quando uma bola vai com mais força para as minhas costas que posso estar calmo porque ele está lá. Ainda por cima joga bem com os pés.

OUTRO PARCEIRO DE LUXO

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- Passou uma carreira a jogar ao lado de alguns dos melhores defesas do mundo e agora encontrou Beto, um jovem com grande potencial. Como o define?

- É um dos melhores centrais que existem em Portugal e uma excelente pessoa. Sabe ouvir, procura melhorar todos os dias e, apesar de ainda ser um jovem, creio ter poucos aspectos do seu jogo a corrigir. Talvez precise de trabalhar um pouquinho a velocidade, para referir um tema sobre o qual já falámos, e encontrar um ponto de equilíbrio emocional em certos momentos. Por vezes vai muito afoito à bola e acaba fazendo faltas que poderiam ser evitadas. Mas isso todo o mundo faz, eu próprio às vezes cometo esse erro, muitas vezes originado pela convicção de que vamos chegar primeiro que o adversário. O Beto já tem dimensão europeia e se continuar a evoluir desta maneira não tarda vai aparecer um clube italiano ou espanhol interessado. Desejo que ele fique no Sporting muito tempo, mas, face à qualidade já mostrada, não vai ser fácil segurá-lo.

- O interesse de vários clubes europeus já foi noticiado mais de uma vez, só que o Sporting tem conseguido resistir...

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- E ainda bem para nós, mas não tenho dúvidas de que é um problema para os clubes segurarem eternamente um jogador muito cobiçado. Por um lado existe a possibilidade de um bom encaixe financeiro, depois não podemos perder de vista que o próprio jogador poderá estar diante da sua independência económica, da hipótese animadora de enriquecer os seus conhecimentos, de contactar com uma nova realidade e, neste caso, de ir jogar para uma Liga com outra dimensão. Sinceramente, creio que será muito difícil ao Sporting segurar o Beto, mais ainda se ele continuar a evoluir desta maneira.

UMA VIAGEM ATRIBULADA

- É incompreensível que um jogador da sua qualidade, internacional pelo seu país, com 22 anos na altura, tenha optado por sair do Brasil para jogar no Standard Liège. Que explicação tem para isso?

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- Saí do Brasil porque tive, em determinado momento, problemas com os dirigentes do meu clube, o Ponte Preta, de Campinas. Nessa altura todos os grandes clubes brasileiros queriam contratar-me, mas o presidente não aceitava negociar o meu passe. Abria apenas uma excepção ao Vasco da Gama.

- Já não era mau...

- Pois não, o problema é que eu tinha uma divergência inultrapassável com um responsável do Vasco e a minha resposta foi clara: “Para o Vasco eu não vou.” Fiz entretanto um contrato com o Flamengo, enquanto o presidente do Ponte Preta vendeu o meu passe ao Vasco. No meio de toda esta questão legal, jurídica e, sobretudo, moral entendi que a saída do Brasil seria a solução.

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- E como chega ao Standard Liège?

- É uma história um pouco longa. Na sequência de toda essa confusão, o meu passe acabou por vir para a Suíça, para o Chiasso, e, quando voltou ao Brasil, joguei seis meses no Flamengo. Ao fim desse período voltou à Suíça, para tornar mais fácil a transferência que seria, em princípio, para o Como, equipa italiana que estava na Série B com aspirações de subir. Aconteceu que nessa época caiu na Série C, ficando eu em situação meio complicada. De qualquer forma tomei uma decisão: não voltaria ao Brasil. Esperei um pouco e foi aí que apareceu o Standard Liège. Procurei informar-me junto de algumas pessoas sobre o clube e, depois de ouvir muitas opiniões, nem todas coincidentes, aceitei o desafio e disse: “Vou arriscar!”

O PARIS SAINT-GERMAIN

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- A Bélgica surge então como porta de entrada na Europa, deixe-me situar no tempo, em 1990...

- Precisamente. Concluí que, para as minhas ambições, talvez fosse mais fácil dar o salto estando cá, tendo já experiência da vida europeia, que rejeitar o Standard, voltar ao Brasil e esperar lá por uma proposta de um clube melhor. E isso, de facto, aconteceu. No final do primeiro ano, o Paris Saint-Germain mostrou-se interessado e fez uma oferta. Que foi rejeitada porque o Standard pediu muito dinheiro. No segundo ano apareceram alguns clubes italianos, a Cremonese e a Reggiana, por exemplo, mas o problema foi o mesmo. Na quarta época, quando achava que já não ia sair de lá, o clube enveredou por outra política e quis vender os jogadores com salários mais elevados. E, como eu estava no topo da lista e ainda por cima era estrangeiro, passei a ser um atleta negociável para o clube.

- E foi para Nápoles...

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- Eles apareceram de repente, fizeram-me uma proposta e não pensei duas vezes, apesar de já estar ambientado ao clube, à cidade e à vida de Liège.

SE PUDESSE COMEÇAR TUDO DE NOVO...

- Que balanço faz da experiência belga. Foi feliz lá?

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- Nem me quero lembrar do primeiro ano, quando cheguei. Sofri e chorei muito... Um jogador brasileiro, de selecção, a jogar no Flamengo, acostumado a uma temperatura de 35 graus, tem de sentir o embate ao vir para a Europa e para um país como a Bélgica, onde encontra frio, uma mentalidade totalmente diferente e uma língua estranha. Ainda por cima a equipa era muito, muito má. E os fracassos, que foram muitos, sobravam sempre para mim. Naturalmente. Tive muitos problemas nesse primeiro ano.

- Encontrou, ao menos, um bom grupo?

- Nem me fale, porque isso ainda atrapalhou mais: o ambiente na equipa era péssimo. A melhoria no segundo ano começou precisamente na troca de treinador e na saída de alguns jogadores com quem não me dava bem e na aquisição de outros com mais qualidade em todos os aspectos. Só assim se explica grande parte do facto de ter estado na Bélgica quatro anos, onde trabalhei com alguns treinadores de quem guardo boas memórias, como o Arie Haan e o Tomislav Ivic.

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- Considera, então, que foi uma boa experiência?

- Foi uma boa experiência, consideradas as coisas dessa forma, mas hoje, se pudesse começar tudo de novo, não teria ido para a Bélgica. Ficaria no Brasil com toda a certeza.

PAIXÃO DE NÁPOLES PELO FUTEBOL

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- Que Nápoles encontrou? Não deve ter sido fácil, aquele período pós-Maradona...

- O Nápoles foi grande durante um período, aquele em que pôde contar com Maradona. Nessa fase ganhou tudo, mas também foi a única vez na sua história, porque antes era uma equipa normalíssima e um clube sem grande expressão. Eu estive lá na ressaca dessa fase de ouro e sou testemunha do ambiente extraordinário que se vive na cidade. As pessoas vivem do futebol, um pouco como em Lisboa, embora lá exista ainda mais paixão. A gente não tem sossego na rua, quando o clube vai bem e quando vai mal. Quando vai bem é uma festa quase permanente, quando vai mal... é melhor ficar em casa.

- Foi o clube da sua vida?

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- Não sou capaz de dizer isso com tanta clareza, que foi o clube da minha vida. Penso no Flamengo, sou muito feliz no Sporting e não se esqueça que também joguei no Milan.

INCOMPATIBILIDADE COM ZACCHERONI

- Para um jogador com a sua qualidade, o Milan parecia perfeito para o seu percurso...

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- Parecia e creio que só não foi por duas razões: por uma lesão nas costas detectada em Novembro, que tentei debelar de todas as formas, levando até ao limite a esperança de ficar bom (não consegui e no final da época tive de ser operado), e porque, já recuperado, recomecei a jogar e fui logo para a selecção, coincidindo esse momento com a saída de Fabio Capello, que fora o grande responsável pela minha transferência do Nápoles.

- Refere-se ao momento da chegada de Zaccheroni?

- Isso. Com ele tive, infelizmente, uma incompatibilidade de carácter e de simpatia também. De qualquer modo, arrisquei ficar mais um ano, ao longo do qual entendi que deveria ter jogado mais vezes, pelo meu trabalho nos treinos e até pela forma pouco conseguida como a equipa foi actuando. Durante toda a época só tive uma chance, num jogo com a Roma, que o Milan ganhou jogando muito, muito mal.

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MARCAS ITALIANAS PARA SEMPRE

- Até que ponto uma passagem tão longa por Itália foi determinante para o seu enriquecimento futebolístico?

- A Itália enriquece uma pessoa em todos os sentidos, principalmente em termos culturais. Para a família e para mim também, como homem e como jogador. Cresci e profissionalizei-me no Brasil, tive essa passagem pela Bélgica, mas esses seis anos em Itália foram os mais marcantes para a minha vida em todos os aspectos.

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- Em termos futebolísticos têm aquela ideia quase obsessiva de basear tudo na táctica...

- Sem dúvida que sim, e isso como consequência da pressão muito grande notada aos mais variados níveis. Mas não devemos pensar que todos os clubes são e vivem assim. Eu vejo o Milan como clube número 1, dá tudo ao jogador que só tem duas preocupações: treinar e jogar. Depois tive experiências extraordinárias a nível de treinadores, de métodos, de preparação física. No Nápoles, no Milan e no Torino nem todos trabalham da mesma maneira. Às vezes a gente pode pensar que em Itália trabalha-se a táctica nesse jeito obsessivo de que falava, mas nem todos os treinadores a encaram desse modo. O Zaccheroni, por exemplo, é dos mais fiéis a esse conceito de treino.

- Eriksson disse um dia que o “calcio” é como uma droga: quem lá chega jamais o quer largar...

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- Hoje em dia o futebol italiano e o espanhol são os mais atractivos. Mas o italiano é o mais completo, o mais difícil, não o mais bonito e não me atrevo a dizer que o melhor. Mas as grandes estrelas estão lá, os salários, de um modo geral, são os mais elevados, a pressão é incrível, continua a funcionar como a maior vitrina do futebol mundial e isso, tudo junto, é muitas vezes suficiente para que as pessoas se apaixonem pelo “calcio”. E depois os italianos têm um jeito muito especial para embrulhar o espectáculo. Enaltecem as coisas boas e dão a volta às más de forma que a gente nem percebe.

JOGADORES RÁPIDOS OU LENTOS?

- Há anos que ouço como definição para vários jogadores, sobretudo defesas, que são lentos, o que sempre me fez confusão, porque a melhor divisão é entre bons e maus. Você, que é um desses sobre quem há a tentação de considerar lento, alguma vez sentiu necessidade de ser mais rápido?

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- Há alturas durante a época nas quais, por vários motivos, me sinto mais preso, ou por excesso de jogos, ou por cansaço ou por pequenos toques. Mas a velocidade entendida assim de uma forma geral não me parece que seja, de facto, um factor prioritário. Numa disputa de bola, por exemplo, tem apenas importância no arranque e no tempo do arranque, ou seja, no momento de iniciar a acção. Quem arranca primeiro chega primeiro, mais ainda porque no futebol de hoje falamos em distâncias curtas. Se um jogador traz a bola na minha direcção e me faz uma finta, claro que nessa acção ele vai ser mais rápido, porque eu estou parado e para ir atrás dele terei de me virar e arrancar mais tarde.

- O segredo está, então, em adivinhar o que o adversário vai fazer...

- Quem chega primeiro é aquele que pensa mais depressa, quem adivinha a jogada antes de ela se iniciar. Por outro lado, já vi muitos jogadores velozes que não conseguem pegar um lento e já vi lentos que, em determinados lances, conseguem ser mais rápidos que os rápidos. Chegamos assim à minha opinião sobre o assunto: em causa está o momento do arranque e a capacidade de adivinhar o que vai acontecer. Porque em termos físicos, hoje em dia, as diferenças no futebol não são muito acentuadas.

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VAN BASTEN E CARECA

- Falemos de avançados. Quais são, para si, os mais difíceis de marcar?

- Se for falar com qualquer defesa acredito que todos vão responder-lhe da mesma maneira: os pontas-de-lança que dão mais trabalho e criam mais problemas são aqueles que se movimentam mais, porque dispersam a atenção. Agora esses que participam mais no jogo e são mais rápidos nem sempre são os melhores. Dito de outra maneira não é só por isso que são melhores. E vou citar um exemplo para que todos percebam: o Jardel. Participa pouco ou quase nada, mas, em duas ou três bolas que joga, marca dois ou três golos. E aí a coisa fica difícil de definir. Seguindo o raciocínio, o Jardel, por exemplo, passando tantos minutos sem jogar, a gente até se esquece dele, acha que não dá trabalho. Mas, depois, quando nos lembramos, na maior parte das vezes é tarde de mais.

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- Quais foram os melhores avançados que defrontou na sua carreira?

- Na minha opinião, os dois melhores atacantes que defrontei, e é difícil dizer qual é o melhor, embora o primeiro talvez ganhe um pouquinho em relação ao outro, foram Marco van Basten e António Careca. Eram quase perfeitos em tudo, tanto de cabeça como em mobilidade, velocidade, inteligência, visão de jogo... E faziam golos. Esses é eram o cabo dos trabalhos.

O JEITO DE "PEGAR NA BOLA"

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- Esse jeito que você tem de pegar a bola nos livres nasceu consigo ou assimilou-o com o tempo?

- É um jeito antigo. Se você consultar o meu “site” vai ver um golo marcado na cobrança de um livre, tinha os meus onze/doze anos. O estilo está lá todo e nessa altura ninguém me tinha ensinado. A única diferença é que nesse lance tomo um pouco mais de balanço, porque a forma como bato na bola e faço o golo é igual. É um talento de garoto que fui aprimorando todos os dias, sempre que podia, na escola e na rua, chutando, jogando futebol, atirando a bola contra a parede... Depois, quando se atinge um certo nível, os treinos dão-nos o resto. Não é só o dom de chutar bem, é o trabalho de muitos anos para o aperfeiçoar.

- De entre os marcadores de faltas que viu em toda a sua vida quem destacaria?

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- Para mim existem dois jogadores que servem de referência. Na minha infância tive a sorte de ver o Zico jogar pelo Flamengo, quando ganhava tudo, e era ele o nosso ídolo. Fazia muitos golos de livre, apesar de ser um estilo diferente do meu, mais em jeito. E depois, claro, o Maradona, também noutro estilo, mas que era de uma eficácia terrível. Eles foram os que mais me marcaram. Mas eu aprimorei-me com outro jogador, chamado Gilmar. Era um médio que jogou no Flamengo há muitos anos, esteve nas Olimpíadas de 1984 e creio ter vindo depois para Portugal. A gente chamava-o de Gilmar Boboca e foi meu companheiro do Ponte Preta. Ele cultivava o remate forte e com efeito, de forma a que a bola subisse e caísse dentro da baliza.

A IMPORTÂNCIA DA RUA

- Falou de rua como uma ajuda para o seu crescimento futebolístico. Não o preocupa que actualmente exista cada vez menos rua na vida das crianças?

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- Preocupa, porque a rua é uma grande escola para a gente aprender, para aperfeiçoar o toque de bola e dimensionar o prazer pelo jogo. Na Europa, creio eu, esse fenómeno tem a ver acima de tudo com a cada vez maior falta de espaço nos grandes centros. No Brasil a coisa é parecida, as cidades estão crescendo muito. E, depois, existe também o problema da criminalidade, dos roubos, das drogas, dos raptos. É cada vez mais difícil ver pais deixando as crianças sozinhas na rua a brincar, a jogar à bola, a fazer no fundo aquilo que eu, por exemplo, tive oportunidade de fazer quando era criança.

- Você vivia numa grande cidade?

- Não, eu vivia num bairro sossegado e afastado dos grandes centros, todos nos conhecíamos e nos dávamos bem. Então a gente tinha liberdade para viver a maior parte do tempo fora de casa. Isso agora já não é possível ou, pelo menos, é muito mais difícil.

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- Vistas as coisas agora, que importância atribui a essa fase da sua infância para o jogador em que se tornou?

- Foi importante, não tenha dúvidas. Como havia lá no bairro muito espaço, costumávamos jogar em terrenos horríveis. A bola não corria normalmente, andava sempre aos altos e baixos e isso serviu para aprimorar a técnica individual.

SAUDADES DO BRASIL

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- Você saiu do Brasil há dez anos...

- Há dez anos e um pouquinho, sim...

- Tem saudades?

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- Tenho, claro, é a minha terra, nasci e cresci lá, tive a honra de a representar através do futebol, enfim existem muitos laços que me ligam ao Brasil. Mas a minha vida daqui para a frente acho que vai ser na Europa. Quando saí e durante muito tempo, o meu objectivo foi sempre regressar, mas a partir de certa altura acabei vendo que o meu futuro estava aqui.

- Quais são as suas perspectivas para o futuro, quando deixar de ser jogador?

- Não posso dizer ainda com segurança, de qualquer modo estou convencido de que vou ser treinador. É uma coisa a estudar, embora hoje seja essa a inclinação. Tenho de avaliar bem as coisas para tomar a decisão correcta.

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- Também ainda não está muito preocupado...

- Não estou, mas de repente a gente começa a pensar no futuro e conclui que o tempo passa rápido. Não damos conta, mas, quando olhamos, “opa!, já temos 25 anos”. Logo depois estamos com 30 e ontem parece que tínhamos 18 anos. A vida é assim mesmo.

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