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RECORD – A sua paixão turbulenta pelo Sporting acabou por se traduzir num cargo na direcção. Como é que foi?
CARLOS CRUZ – Como sportinguista, senti que devia retribuir ao clube aquilo que ele me tem dado ao longo da vida como pontos de referência. Valores que já tinha, aprendi a respeitar por ser do Sporting. Depois, algum incómodo que sentia como espectador de bancada de ver o Sporting criticado, sem que as pessoas se preocupassem em fazer alguma coisa para o ajudar, foi forte motivo para aceitar o convite muito honroso que o dr. Ernesto Ferreira da Silva me dirigiu para integrar o Conselho Fiscal em 2004, na candidatura do dr. António Dias da Cunha.
R – Ainda assim, parece que a família leonina vive em permanente convulsão.
CC – O Sporting talvez seja o clube mais democrático de todos. É o clube onde há mais assembleias gerais e fóruns de discussão, como o Conselho Leonino, os Leões de Portugal, o Grupo Stromp, os Cinquentenários. E agora vamos realizar o Congresso. A vida do clube é debatida, é importante que o seja, mas não confundo isso com convulsão.
R – O antigo presidente Dias da Cunha é hoje um dos maiores contestatários.
CC – Não posso deixar de me sentir tocado, enquanto membro do Conselho Directivo, pelas declarações que o dr. Dias da Cunha ciclicamente tem proferido. Não ponho em causa o direito de qualquer pessoa exprimir a sua opinião, mas não daquela forma e nos locais errados. São declarações que no fundo, na forma e no momento, representam um acto de desonestidade intelectual.
R – Porquê?
CC – Porque passa um atestado de incompetência à actual direcção do Sporting e verbera a sua actuação nos locais de sempre e de uma forma que não admite o contraditório com declarações avulsas. Não lhe fica bem, sobretudo se nos lembrarmos como saiu do Sporting e o estado em que deixou o clube. O dr. Dias da Cunha não vai ao Conselho Leonino nem me lembro de o ouvir falar numa assembleia. Apesar disso, não se coíbe de utilizar a comunicação social em momentos de alguma agitação ou ansiedade para criticar. Não tem autoridade moral.
R – As acusações que ele faz são infundadas?
CC – Completamente. Dias da Cunha abandonou o Sporting num quadro inédito em termos de dirigismo desportivo. Demitiu-se com o treinador! Além disso, deixou o Sporting numa situação complicadíssima. O clube tinha um passivo de 280 milhões de euros, estava em défault, não cumpria o Project Finance. Esta era a realidade objectiva, por muito que ele diga o contrário. Já para não falar do desmantelamento com que a actual direcção herdou o Sporting: sem SAD, sem treinador. O próprio Dias da Cunha invoca agora direitos de progenitura sobre o treinador e nem isso é verdade.
R – Dias da Cunha diz que estava tudo controlado...
CC – Dias da Cunha não pode dizer, sob pena de estar a mentir, que quando saiu tinha a situação controlada. Não tinha! A actual direcção viu-se confrontada com a urgência de regenerar e restabelecer a imagem do Sporting e renegociar de forma mais favorável ao clube os instrumentos financeiros que tinham sido acordados por Dias da Cunha. Esses acordos deixavam o clube tributário de um conjunto de entidades bancárias e tinham como consequência inevitável o enfraquecimento da capacidade competitiva do Sporting.
R – Hoje a situação está controlada?
CC – O Sporting recuperou o seu crédito como instituição e, como pessoa de bem, paga. Ainda tem pendente a conclusão do projecto financeiro que vai levar à emissão de VMOC. No fundo, está em condições de poder voltar a fazer aquilo que fez este ano: não vender jogadores e promover o plantel mais competitivo.
R – O receio da morte do Sporting com a passagem da Academia para a SAD é então uma previsão exagerada?
CC – O facto de o clube ser titular da Academia criava um conjunto de situações paradoxais. A SAD concentrava todos os fluxos financeiros gerados pela actividade do Sporting, o que criava um círculo vicioso com todos os inerentes riscos de ilegalidade: a SAD financiava o seu principal accionista.
R – Mas é verdade que o clube não sobrevive sem o dinheiro do futebol.
CC – O clube tem de se habituar a viver com as receitas que tem. Ao clube o que é do clube, à SAD o que é da SAD. O que estava a acontecer é que a SAD estava a servir de fonte financeira do clube. O novo modelo torna-se claro e lógico, mas estou de acordo com o apelo que o presidente fez, uma vez que a militância é condição fundamental para que o Sporting continue a revitalizar-se. Mas os sócios voltarão quando puderem rever-se no Sporting.
R – E como é que isso vai ser possível?
CC – Se soubéssemos, já tínhamos posto em prática. Aceito, porém, que a crise explica alguma coisa, pois o momento é de grande retracção.
R – Não haverá outras razões?
CC – Seguramente, como as transmissões televisivas, o preço dos bilhetes, etc. Mas eu (e quase sempre mais de 30 e tal mil) sou daqueles que ia ao estádio durante os 18 anos de sequeiro. Portanto, está mais do que provado que não são eventualmente só os resultados que motivam a afluência.
R – Então será o quê?
CC – Entendo que há problemas de informação e comunicação com a massa associativa que têm de ser ultrapassados. Os sócios são a essência do Sporting e há que fazer com que eles participem e ajudem, para o bem do clube.
R – E a qualidade do jogo?
CC – Admito que sim. Não sou tão insensível aos assobios. Têm o mérito da militância. Talvez muitos assobiem prematuramente e até injustamente. Mas prefiro um sócio que assobie injustamente do que outro que fica em casa. A massa associativa do Sporting tem um grande apego pelo clube e é de grande generosidade. Lembro um caso muito recente: a apoteose delirante que se seguiu aos assobios do intervalo no Sporting-Benfica da Taça da época passada. A recuperação da militância traduzida no aumento de número de sócios, das gameboxes ou do produto que eventualmente vir a substituí-las, a afluência ao estádio é uma preocupação fundamental.
R – As fracas assistências podem ter a ver com algum desgaste da imagem do treinador?
CC – Não vou por aí. O treinador é um elemento integrante e está perfeitamente sintonizado com o rumo que o Sporting pretende imprimir à sua gestão.
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