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RECORD - Que espera encontrar no Sporting?
Liedson - Um ambiente feliz, tranquilo, onde possa dar a minha contribuição à equipa. É uma nova temporada da minha vida, uma fase que espero que seja de vitórias e muitos títulos.
R - O que pensou no momento em que soube da proposta do Sporting?
L - Fiquei feliz, não só por ser um convite oriundo de um grande clube, mas também pelo facto de Portugal ser um país que tem uma cultura parecida com a do Brasil. Falei com alguns amigos que jogaram em Portugal, e todos disseram que seria muito bom para mim. Fiquei ainda mais entusiasmado com a ideia.
R - Quando você contou à sua família que vinha para Portugal, como é que eles reagiram?
L - Ficaram todos muito felizes, tal como eu. Eles sabem que a cultura em Portugal, a língua, o clima, a culinária, é tudo muito parecido com o Brasil. Quando lhes disse que ia para a Ucrânia foi totalmente diferente... Vou ter saudades, mas a minha família entende a situação. Eu tenho de trabalhar e sempre que estiver de férias vou até lá rever os amigos e os meus pais.
R - Algum dos seus familiares vêm viver consigo em Portugal?
L - Bem, até ao final do ano devo ficar só com o meu empresário, o Renato, para dar tempo de me ambientar ao país e ao clube. No próximo ano acho que devo trazer alguém, a minha noiva, Rose, a minha mãe ou o meu pai. Mas só quando estiver um pouco mais estabilizado por cá.
R - Você vai ganhar "algum" dinheiro no Sporting. Já pensou onde vai investir?
L - O dinheiro não é o mais importante. Primeiro, tenho de estar feliz e é o que está acontecer comigo agora. Com saúde e felicidade o dinheiro acaba por vir naturalmente.
R - Há inúmeros casos de bons jogadores brasileiros que, quando chegam à Europa, não conseguem vingar e, muitas vezes, acabam por regressar a casa. Você teme que isso lhe possa acontecer?
L - Nós estamos sujeitos a tudo, mas espero que isso não suceda comigo. Vou procurar adaptar-me o mais depressa possível ao futebol europeu de modo a poder contrariar essa tendência. Quero ambientar-me depressa ao clube, aos companheiros e, claro, conquistar muitos títulos. É esse o meu objectivo.
R - Você gosta de jogar com um ou dois pontas-de-lança? Qual é o esquema táctico que prefere?
L - Gosto de jogar como vinha fazendo no Brasil. Não gosto de ficar preso à área, prefiro cair para os lados, movimento-me bastante. O resto é indiferente.
R - Embora seja um pouco cedo para falarmos nisso, você já pensou quando pretende voltar a jogar no Brasil?
L - Se eu estiver bem em Portugal, acho que não vou voltar tão cedo. A maioria dos jogadores que se dá bem na Europa só regressa a casa depois de encerrar a carreira. Vou tentar fazer bem as coisas e dedicar-me ao máximo para, quem sabe, só voltar quando parar definitivamente de jogar futebol. Mas a minha ideia é jogar sempre na Europa.
R - O Sporting está na Taça UEFA. Isso também é motivador para si?
L - Fiquei muito contente quando me disseram isso, é mais uma oportunidade para todos os jogadores aparecerem e eu espero estar muito bem nessa prova.
R - Roque Citadini, vice-presidente do Corinthians, dizia-nos há dias que os jogadores baianos são preguiçosos. Explicou que da última vez que você foi à Baía demorou dez dias para regressar a São Paulo...
L - Nos clubes por onde passei sempre procurei cumprir com as minhas obrigações e acho que ele disse isso num momento pouco feliz. Até podem existir jogadores preguiçosos, mas eu sempre estive disponível para fazer aquilo que me pediam. Não me considero preguiçoso, pelo contrário, sou uma pessoa disposta a trabalhar muito.
R - E é isso que vai fazer no Sporting?
L - Sem dúvida. Tenho um contrato de três anos e durante esse período pretendo dedicar-me ao máximo, vou empenhar-me bastante. Aliás, o meu nome vai ser trabalho e o meu sobrenome empenho.
R - Como se define enquanto jogador?
L - Sou uma pessoa sossegada e tranquila, mas dentro de campo transformo-me. Só desisto da bola se o árbitro apitar alguma falta, caso contrário, enquanto não consigo recuperá-la para a minha equipa não descanso.
R - Está preparado para jogar na terça-feira, com o FC Porto?
L - Acho que sim, depende muito do treinador e do departamento médico, mas penso que não deve haver problema. Estou a jogar desde Janeiro, sem folgas, quanto a isso não há motivo para preocupação. Fisicamente estou a cem por cento. Aliás, estive somente três dias sem treinar...
R - A sua camisola deverá ostentar o número 7, mas, desde a passagem de Figo pelo Sporting, esse número não tem dado muita sorte ...
L - Não há problema. Espero conseguir o mesmo que o Figo, claro que é muito difícil mas, pelo menos, que chegue bem perto. Todos o conhecem, é um craque que está na melhor equipa do mundo. Se até agora esse número não deu sucesso a ninguém, eu espero contrariar isso. O que eu quero é ser feliz e marcar muitos golos pelo Sporting.
R - Os fotógrafos brasileiros queixam-se de que você não festeja muito os golos...
L - (risos) Eles dizem que eu corro sempre para o lado oposto onde eles estão. Pediam-me que fosse festejar para perto deles quando marcasse, mas eu ia sempre para o lado da "torcida"... Naquela altura você não se lembra das fotografias, só pensa em correr para perto dos "torcedores" e comemorar.
R - Já muitas vezes você foi questionado sobre a possibilidade de os adeptos do Sporting verem em si um novo Jardel. Isso vai trazer-lhe alguma pressão?
L - Não quero ser comparado com ele. O Jardel já fez o seu nome em Portugal nos clubes por onde passou, é muito querido por tudo o que fez, mas é como já disse, quero fazer a minha própria história, não pretendo seguir os passos de ninguém. Claro que, por vezes, temos de estar atentos a alguns exemplos, mas o meu estilo é totalmente diferente. O Jardel é um jogador de área, que actua um pouco mais preso, enquanto eu "caio" para os lados do campo. Por isso, vou procurar jogar à minha maneira, marcar sempre muitos golos, mas sem nenhuma comparação com qualquer jogador.
R - Já estabeleu um número de golos para esta temporada?
L - Não. Claro que quero concretizar muitos, mas não tenho um número definido. Vou trabalhar bastante nesse sentido, de modo a que se repita o que aconteceu no Brasil.
R - Sabe quem são os principais rivais do Sporting?
L - Benfica e FC Porto. São encontros clássicos e espero que, quando jogarmos contra esses clubes, o Sporting consiga a vitória.
«Venho de uma família humilde»
R - Você começou a jogar futebol profissional muito tarde, aos 22 anos. Alguma vez sentiu-se inferior aos seus companheiros por não ter tido uma formação de base?
L - No começo sentia alguma diferença. Faziam-me falta alguns fundamentos apreendidos nas categorias de base. Mas fui aprendendo com as pessoas com quem trabalhei e ouvindo muito. Graças a Deus, já não sinto essas dificuldades que sentia no começo da minha carreira.
R - Quais eram, concretamente, essas dificuldades?
L - O cabeceamemnto, o passe, algumas coisas que normalmente se aprendem desde tenra idade.
R - Teve uma vida difícil antes de começar a jogar futebol profissional?
L - Tal como a maioria dos jogadores brasileiros, eu venho de uma família humilde. Era empacotador num supermercado. Os meus pais são pessoas pobres, mas trabalhadores. Tive muitas dificuldades, senti falta de algumas coisas, mas hoje tenho o meu espaço no Brasil e vou agora tentar fazer o mesmo em Portugal.
R - Lembra-se de quanto ganhava quando era empacotador no supermercado?
L - Sim, 150 reais por mês (perto de 91 euros). Era pouco mas era dinheiro honesto. Consegui ajudar os meus familiares com esse salário.
R - Onde jogava futebol então?
L - Era amador e participava em alguns campeonatos na minha cidade.
R - Se nessa altura alguém lhe dissesse que passados três anos iria jogar na Europa, você acreditaria?
L - Acho que não. Isto foi uma surpresa para mim, tal como foi o facto de eu me profissionalizar aos 22 anos. É raro no futebol um atleta começar a jogar a alto nível tão tarde.
R - A última vez que o vimos tinha os olhos azuis. Hoje são castanhos...
L - (risos) Eram lentes de contacto. Quando vou para casa mudo a cor dos olhos, é pura vaidade. A minha noiva é que me encorajou, ela também usa.R - Você é vaidoso?
L - Sou.