Moniz Pereira: «Novo estádio sem pista causa-me sérios problemas»

MONIZ Pereira, aliás, o prof. Moniz Pereira fez recentemente “quatro vezes 20 anos”, como ele próprio diz. Está um jovem. A sua lei de vida número um é criar um objectivo todos os dias. Motivação não lhe falta. Com o trabalho no terreno entregue aos seus sucessores, o atletismo continua a ser a sua vida. O atletismo e a família. “A família dá-me muita força, e o grande problema da juventude de hoje é não ter uma família a sério.” Depois, tem a música, que continua a compor sem conhecer uma única nota. Senta-se ao piano, faz a música e o maestro Jorge Machado passa-a ao papel. Muita gente canta hoje segundo os acordes de Moniz Pereira, mas o assunto passa ao lado do público consumidor de música.

É um senhor, e não apenas o “Senhor Atletismo”, como é conhecido por toda a gente, que gosta ou não de desporto. O currículo de 25 campeonatos nacionais conquistados em 26 é uma longa colecção de títulos, onde as medalhas de Carlos Lopes e os recordes de Fernando Mamede são a principal referência. De todo o mundo passaram a chamá-lo, para o ouvir falar sobre o treino dos portugueses. Em Barcelona chegaram a querê-lo a tempo inteiro, mas não houve hipótese de o levarem. A família e o fado falaram a linguagem que ele mais aprecia, a do coração. E ficou. Para encher Portugal de alegrias, com as vitórias dos seus atletas.

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Hoje, é vice-presidente do Conselho Directivo do Sporting e vive a alegria dos outros com amargura: Alvalade vai Ter um novo estádio, mas sem pista de atletismo. Aceita o projecto, mas não cala as suas críticas.

– O Sporting vive em estado de euforia, motivado em parte pela construção do novo estádio. Uma vez que é dirigente do clube, e não está particularmente ligado ao futebol, como é que convive nesse clima?

– Tenho de ser sincero, o novo estádio sem pista de atletismo vai causar-me sérios problemas. Eu acho que o estádio devia ter pista de atletismo. Esta ideia moderna de que os sócios, os apoiantes dos clubes, têm de estar em cima do relvado, eu não acredito nada nela. Você sabe que o Bayern de Munique joga no Estádio Olímpico, que tem uma pista igual à nossa, o Roma e a Lazio também jogam no Estádio Olímpico de Roma, e outros mais por essa Europa fora. E não é por isso que deixam de ganhar campeonatos, o que é preciso é jogar bom futebol.

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– Está desiludido?

– Neste momento, já estou conformado, mas esta é uma luta antiga. Estou na Direcção do clube há seis anos e sempre manifestei a minha opinião. Outros interesses se levantaram, interesses não apenas desportivos, mas comerciais. Como lhe digo, tenho pena, porque o atletismo é uma modalidade que está no clube desde a sua fundação, em 1906. Nessa altura, havia apenas quatro secções principais: o ténis, que já desapareceu por não haver “courts” – essa, sim, uma modalidade que podia constituir uma boa fonte de receita –, a ginástica, o atletismo e o futebol. Desde essa altura, à excepção do ténis, essas modalidades mantiveram-se sempre no activo. Outras houve, que até os sócios desconhecem a sua existência no clube, como é o caso do pólo aquático, do qual o Sporting foi campeão duas vezes nos anos vinte. Actualmente, somos campeões da Europa de pista. Está a ver, não é fácil ganhar ao campeão da Rússia, da República Checa, de Espanha, de França, da Alemanha, da Jugoslávia, mas nós conseguimos. Claro que agora estamos a tentar encontrar uma solução para o atletismo.

– Que explicações é que lhe foram dadas quando da apresentação do projecto do novo estádio?

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– Quando eu cheguei a vice-presidente, o assunto já estava resolvido. Sozinho, não tinha força, nem talvez fosse possível alterar o projecto. É óbvio que o atletismo do Sporting não vai deixar de existir, mas esta situação vai prejudicar a preparação de uma equipa que é campeã da Europa, isso vai com certeza. Estamos a tentar encontrar uma solução com a Câmara Municipal de Lisboa, para termos pista, não no estádio, mas que seja nossa.

– Está a falar na construção de uma nova pista de atletismo?

– Ou numa nova pista, a cargo da Câmara Municipal de Lisboa, ou no Estádio Universitário, que tem duas pistas óptimas, havendo a possibilidade de o Sporting poder utilizá-las, provavelmente alugando-as. Porque que acho que não nos convém nada sair desta zona, do Campo Grande, Alvalade, por aqui. Não podemos ir para Oeiras ou Cascais.

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– Mas foram colocadas essas hipóteses?

– Não, não. O que eu acho é que não se deve perder a tradição do local de nascimento. E eu sou muito de tradições.

– O desaparecimento do actual Estádio José Alvalade implica, como já disse, a perda da actual pista de atletismo, a pista baptizada com o seu nome. Esse pormenor também mexe consigo?

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– Não, porque eu nem concordei muito com isso de darem o meu nome à pista, porque ela é do Sporting, não é minha. Mas ali aconteceram coisas muito importantes. Portugal ganhou à Espanha, foi batido o recorde mundial do lançamento do disco, foram batidos muitos recordes de Portugal, o Fernando Mamede bateu o recorde da Europa dos 10 000 metros. Tanta coisa.

– Perde-se um lugar com história...

– É, e repare, o estádio nunca esteve tão bonito como agora. E uma das coisas que escapam às pessoas é que o Sporting tem no estádio a piscina mais bonita de Lisboa.

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– Que também desaparece?

– Não, porque o projecto do estádio novo prevê a existência da piscina.

– Concorda ou não que o Sporting precisa de um espaço mais funcional, moderno, que possa oferecer condições ao público diferentes daquelas que o actual estádio oferece?

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– Acredito que isso seja verdade, só que eu não sou um administrativo, um gestor, sou um técnico de atletismo e voleibol, e é dessas áreas que eu me sinto com capacidade para falar. Admito que o Sporting possa ter maiores vantagens com o novo estádio, na área financeira, na propaganda, tenho dúvidas que o possa ter na área desportiva.

A SAD

– O Sporting-clube tem uma boa convivência com a Sociedade Anónima Desportiva (SAD) que gere o futebol, ou pensa que esta tende a abafar tudo o resto?

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– Olhe, eu gosto de todas as modalidades, também gosto de futebol.

– Costuma frequentar a tribuna de Alvalade nos dias de futebol...

– Sim, sempre, agora, como é óbvio, não vou aos jogos disputados fora de Alvalade, porque não faz parte das minhas atribuições, a minha obrigação, como vice-presidente das modalidades desportivas, é acompanhá-las, estar presente no atletismo, na natação, no andebol, no ténis de mesa. Tenho de as defender e, aliás, o Sporting vai à frente em todas as modalidades, só no futebol é que não. Vai em segundo, já não é mau. Antigamente, as pessoas dirigiam as modalidades, mas só iam ao futebol. Eu fui treinador durante muitos anos e nunca lá via o vice-presidente. Era uma inconsciência tremenda. Actualmente, eu e o prof. Reis Pinto dividimos essa responsabilidade, procurando acompanhar todas as secções. Ao sábado e ao domingo andamos a correr de um lado para o outro.

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– Voltando à pergunta que lhe fiz: a SAD do futebol convive bem com as outras áreas do clube?

– Inicialmente, as coisas não correram bem, porque até parecia que existiam dois clubes. A SAD não funcionava em Alvalade e eu passei meses sem ver certas pessoas. Agora, é diferente. De qualquer maneira, eu compreendo que o futebol seja a principal modalidade do Sporting, só se fosse estúpido é que não aceitava isso, agora, também é preciso dizer que somos um clube ecléctico, temos 23 modalidades. E se as temos não as podemos menosprezar. Não quer dizer que se tenha de ganhar, é preciso tentar ganhar, é diferente.

– Numa entrevista publicada em 1999, admitiu que o futuro das modalidades não está nos clubes de futebol. Mantém esta opinião?

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– Mantenho. Se os clubes tiverem futebol e mais duas ou três modalidades, é possível que haja espaço para todos. Manter o eclectismo actual é difícil, até por faltarem instalações. Uma solução são os clubes de especialidades, como o eram o Algés e Dafundo, com a natação, e o Ginásio Clube Português e o Lisboa Ginásio Clube, com a ginástica. Agora, um clube substituir o Estado na formação não pode ser. Mas, actualmente, em relação a alguns clubes de futebol, há outro fenómeno interessante. Por exemplo, qual é a melhor modalidade da Ovarense, que é um clube de futebol? É o basquetebol. Qual é a melhor modalidade do Sporting de Braga? É o atletismo feminino. Qual é a melhor modalidade do Salgueiros? É o pólo aquático. Qual é a melhor modalidade do Sporting de Espinho? O voleibol. Do Benfica? É o hóquei em patins. Pouca gente pensa nisto. Agora, dinheiro? Só há para o futebol, e é ridículo virem dizer que as modalidades têm de se bastar a si próprias. Por acaso o futebol basta-se a si próprio? É por causa das modalidades que os clubes devem ao fisco? Não brinquem comigo.

– Como é que enquadra o atletismo no Sporting actual?

– Sendo campeão da Europa, não corre qualquer perigo. Este ano, temos uma equipa melhor que a do ano passado, mas isso não quer dizer que voltemos a ganhar em Madrid, no dia 27 de Maio. Nós vamos tentar.

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– A vitória do ano passado foi o resultado de uma carreira?

– Eu, felizmente, já consegui muitas coisas, mas há 30 anos não me passava pela cabeça que pudéssemos ter campeões olímpicos ou bater recordes do mundo. O nosso atletismo era inferior. Nunca pensei que pudéssemos chegar onde chegámos sem instalações. Veja este exemplo: quando o dr. Miranda Calha chegou à Secretaria de Estado do Desporto legislou no sentido de os campos de futebol da I Divisão serem todos relvados. E o futebol melhorou. Como é que o atletismo pode melhorar, se só tem uma pista coberta, em Espinho? E esta Federação tem trabalhado muito, porque quando tomou posse só havia meia dúzia de pistas sintéticas e hoje já há uma trintena.

– Quanto é que custa o atletismo do Sporting?

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– Para ser campeão da Europa, como é, custa 150 mil contos/época.

– O Sporting, nesta altura, para além do Rui Silva, tem outro atleta de referência, Francis Obikwelu, detentor do melhor tempo mundial dos 200 metros...

– É, e foi uma pena ele não ter podido participar no Mundial de pista coberta, por causa de uma operação a que foi sujeito em Janeiro. Se tivesse participado, com certeza que teria ganho. Agora, quando se fala de atletismo, as pessoas questionam: 150 mil contos por ano? Como sabe, esse é o ordenado de um jogador de futebol, às vezes um jogador mediano.

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– Uma das questões que se discute actualmente é a naturalização de Francis Obikwelu. Qual é a sua posição em relação a este tema?

– O Obikwelu vive em Portugal há quase sete anos, quando veio para cá ainda era júnior e corria os 400 metros. Foi cá que o seu treinador, o Fausto Ribeiro, no Belenenses, o transformou num bom “sprinter”, um especialista de 100 e 200 metros. E a naturalização dele não é como a dos espanhóis ou dos belgas, que fazem tudo em 15 dias. O Obikwelu está cá há sete anos e quer ser português. A equipa francesa que ganhou o campeonato de crosse tinha marroquinos, argelinos e só um francês de origem. Cá, dizem que o Moniz Pereira é que deu a volta, porque tem dois estrangeiros, numa equipa de 30. No futebol, entram em campo com sete ou oito estrangeiros e têm mais três no banco.

– Mas qual é a vantagem de ter um Obikwelu português?

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– É ir ao Campeonato da Europa e poder ganhar os 100 e os 200 metros.

Um plano inédito

– Que balanço faz do desporto português nos últimos 25 anos, desde que Carlos Lopes e Armando Marques ganharam as medalhas olímpicas nos Jogos de Montreal?

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– Julgo que foi aí que se deu a grande viragem no desporto português. Pela primeira vez houve um plano de preparação, feito por mim, em 1975. Claro que fui muito criticado, diziam que eu era maluco, que faltava um ano para os Jogos, que íamos gastar muito dinheiro e que não teríamos resultados. O director-geral dos Desportos era o prof. Melo de Carvalho, que tinha sido meu aluno e atleta do Sporting, quando esteve cá a estudar. Talvez por isso o plano tenha sido aprovado.

– Encontra aí alguma raiz política, uma vez que o 25 de Abril estava fresco ainda?

– Desculpe lá, mas de política não sei nada. Só falo daquilo que sei. O meu texto pedia para os atletas condições parecidas às dos que só treinavam, preparando-se para os Jogos. O mínimo era arranjar dispensa para os trabalhadores poderem sair mais cedo dos empregos, para treinarem. Era impossível um atleta fazer oito horas de trabalho e depois ir treinar. Ou nos davam condições, ou era impossível. Aceitaram, mas sabe como são as burocracias, o tipo que estava na companhia de seguros queria sair mais cedo para treinar e diziam-lhe que o papel ainda não tinha chegado. Os do banco diziam a mesma coisa. Estávamos a onze meses dos Jogos e eu tive de ir de chapéu na mão à administração do banco tal pedir para que libertassem um senhor chamado Carlos Lopes, que trabalhava lá e estava a preparar-se para os Jogos Olímpicos. Eles diziam que sim, mas falavam sempre no papel. Talvez porque eu fosse já relativamente conhecido, as coisas iam-se resolvendo. Depois fui à seguradora, e assim sucessivamente. Quando tinha os nove atletas seleccionados, prontos para treinar, juntei-os e disse-lhes: "Meninos, isto é uma grande responsabilidade. Quando tudo acabar, corra como correr, um volta para o banco, outro para os seguros, e outro não sei para onde. Eu, se a coisa correr mal, estou lixado, porque não tenho mais nada para fazer. Desculpem lá, mas têm de fazer tudo o que eu disser." E arrancámos.

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No meu plano tinha previsto fazer três estágios no Algarve, em Dezembro, em Janeiro e em Fevereiro. Logo nessa altura, apareceu um jornalista a escrever: "Moniz Pereira está no Algarve, com os seus atletas, a gastar o dinheiro do povo." Peguei no telefone e perguntei ao fulano: "O Anacleto Pinto por acaso é barão de Viseu, o Carlos Lopes é duque de Vildemoinhos, o Mamede é visconde de Beja? Estes não são também homens do povo? E desliguei. Outro resolveu escrever que eu era um profissional de valor, mas que sabia perfeitamente que não era num ano que ia preparar os atletas para os Jogos. Que ninguém ia ganhar medalhas e eu iria ser muito contestado. No fim, o Lopes ganhou a medalha de prata nos 10 000 metros, o Zé Carvalho foi quinto nos 400 metros barreiras, o Aniceto Simões foi oitavo nos 5000 metros, o Hélder de Jesus e o Fernando Mamede foram às meias-finais dos 1500 metros. Ficou provado que os atletas portugueses, com algumas condições de treino, podiam obter resultados.

– Os Jogos de Sydney foram um ponto de chegada ou de partida?

– Eu penso que nós estamos sempre a partir, porque ainda estamos a meio caminho. Ainda não temos infra-estruturas básicas, nem o número de técnicos suficientes. E as pessoas precisam ganhar cultura desportiva, para saberem apreciar o trabalho dos atletas.

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– As críticas feitas aos atletas presentes nos Jogos de Sydney foram justas?

– Não, é evidente que não. Nem todos estiveram bem, mas basta estes terem falhado, para que os outros fossem diminuídos pelos críticos. O que aconteceu aos portugueses aconteceu com outros, que eram favoritos e chegaram lá e perderam. As pessoas que fizeram o cálculo das medalhas é que falharam. Não foi brilhantíssima a missão portuguesa, mas esteve bem. Repare que concorreram 200 países e nós na estúpida classificação das medalhas ficámos na 66ª posição. Que categoria tem o nosso desporto para exigir melhor?

– Como observa a anunciada restrição de apoios oficiais às federações desportivas?

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– Ainda não tenho informações concretas a esse respeito, mas se isso se confirmar, é lamentável, porque confirmar-se-á que o tal 2004 estará a prejudicar o desporto nacional.

– O Euro-2004 é um perigo?

– Acho que sim. Será bom para o futebol, para o turismo e outras áreas, mas para o desporto em si tenho muitas dúvidas. Principalmente se começarem a restringir o orçamento das outras modalidades.

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– Está em risco o ciclo olímpico que culmina nos Jogos de Atenas, em 2004?

– Pode estar, se se confirmarem essas restrições. Agora, eu também acho que – e já o disse publicamente – teríamos vantagem em seleccionar as modalidades em que temos mais hipóteses, as modalidades que já nos deram medalhas.

– Defende a criação de uma elite?

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– Acho que sim, pois caso contrário é que não há dinheiro para nada. Nós já ganhámos 17 medalhas nos Jogos Olímpicos, no atletismo, na vela, no hipismo, no tiro, no judo e na esgrima. A estas acrescente-se o voleibol de praia, porque é muito bom o que eles conseguiram, dois quartos lugares consecutivos. Tenho umas certas dúvidas, mas talvez fosse de investir também no andebol e no voleibol. Porque os outros não têm categoria internacional. Não está em causa o seu trabalho, mas depois não interessa irem lá gozar o prémio do apuramento. Aquilo não é prémio nenhum, é para a elite.

«Benfica faz muita falta»

A rivalidade marcou toda a carreira de Moniz Pereira, mas o seu “fair play” permitiu-lhe sempre conviver com esse fenómeno de forma sã. É por isso que hoje a ausência do Benfica no atletismo lhe causa alguma tristeza.

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– Que comentário lhe merece o desinvestimento do Benfica em algumas modalidades?

– É óbvio que cada uma faz as suas opções. Eu gosto mais de atletismo, outros gostam mais de hóquei em patins e outros de basquetebol, mas, neste momento, o Benfica faz muita falta ao atletismo.

– Deseja o regresso do Benfica ao atletismo?

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– Com certeza. Não sei se sabe, mas eu falei na assembleia geral do Benfica a esse respeito, quando foi a posse de Manuel Vilarinho. A dada altura foi perguntado se os representantes dos clubes queriam falar, eu olhei, vi que ninguém estava disposto a fazê-lo e pedi a palavra. E foi para dizer que clubes que tantos valores deram ao desporto português não podiam deixar de o fazer, nem podiam estar de costas voltadas para outros, só por causa de um jogador de futebol. Saí de lá quase em ombros. Fiquei muito satisfeito.

«Com a idade do Rui Silva ninguém fez melhor do que ele»

O relacionamento diário de Moniz Pereira com grandes atletas permite-lhe hoje falar com absoluta autoridade sobre o perfil de cada um deles. Mais recentemente despontou um novo craque, mas já sob a orientação do seu sucessor em Alvalade, o treinador Bernardo Manuel. A opinião de Moniz Pereira sobre o campeão do mundo dos 1500 metros, em pista coberta, é linear.

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– Qual é a definição que tem para o Rui Silva?

– Ao longo da minha carreira, passaram-me pelas mãos alguns atletas de categoria internacional. E as pessoas, por serem portugueses, desconfiavam, como sempre fazem. O Rui Silva é um caso muito sério. Com a idade dele, nenhum atleta português conseguiu os resultados que ele já fez. Isto não quer dizer que não venha a ser muito melhor, porque ele já é muito bom. Se ele continuar a ser como tem sido: compenetrado, inteligente, assíduo aos treinos, disponível para receber todas as indicações que lhe são feitas pelo seu técnico, pode ir muito longe. Eu nunca fui treinador dele, mas tive o Lopes, o Mamede e o Domingos Castro.

– Que eram...

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– Grandes atletas. O Mamede e o Lopes foram primeiro e segundo do mundo nos 10 000 metros, terceiro e quarto dos 5000. O Lopes ainda hoje tem o recorde olímpico da Maratona, e já lá vão 16 anos. O Mamede esteve dois anos e meio sem perder qualquer prova de 5000 metros. Nos “meetings”, porque nos campeonatos havia aquele problema psicológico inexplicável. O Domingos Castro foi medalha de prata dos 5000 metros, no Mundial de Roma, em 1987.

– Como é que os recrutou?

– O Lopes ficou em terceiro lugar num campeonato de juniores, atrás do Anacleto Pinto e do Salvé Rainha, e eu fui buscá-lo para o Sporting. Ao fim de dez anos de trabalho começaram a aparecer os primeiros resultados. Dez anos. O Mamede ganhou o campeonato da Mocidade Portuguesa, em Beja, em mil novecentos e carqueja, e também veio para Alvalade. Mais sete ou oito anos de trabalho e resultados a aparecer. Com o Domingos Castro foi a mesma coisa, fui vê-lo correr a Vigo, quando ele ainda estava em Fermentões, e convidei-o a vir para o Sporting. Agora foi a vez do Rui Silva, que era do Estrela Ouriquense, de Vila Chã de Ourique. Acha que se eles não tivessem vindo, alguma vez teríamos campeões e recordistas? Mas isto tudo aconteceu porque o Sporting acreditou em mim, um tipo que tinha 24 anos. Eu dei tudo, e se não dei tudo foi porque não soube. Estou muito grato ao Sporting, um sentimento que escapa à juventude de hoje. Não sabem o que é a gratidão.

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– Percebo nas suas palavras alguma mágoa. Algum dos seus campeões não reconheceu o seu trabalho?

– É evidente que ao longo da vida houve algumas coisas, mas eu nunca fui de ficar amuado. Passados poucos dias já estava tudo bem.

– Quem segue o atletismo à distância pensa que o seu relacionamento com Carlos Lopes e Fernando Mamede não é o melhor? É assim, de facto?

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– Não, nós temos boas relações. É evidente que quem está junto de manhã, à tarde e à noite, às vezes zanga-se. Houve até algumas declarações infelizes, de parte a parte, mas isso acabou. Problemas dos humanos.

«Não concordo com os comunitários»

Moniz Pereira resolveu criar a Associação de Amizade Portugal-Portugal, em meados da década de oitenta, respondendo à chegada massiva de estrangeiros e à importação de influências culturais externas. A organização foi sempre pouco mais do que simbólica.

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– A Associação de Amizade Portugal-Portugal ainda faz sentido?

– Quando começou, em 1986, toda a gente dizia que acabava daí a uns meses. Já lá vão 15 anos.

– Faz sentido, no tempo da globalização, quando cada vez existem menos fronteiras?

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– Não concordo nada com menos fronteiras, nem com comunitários. Pode até ser falta de conhecimento da minha parte, mas eu sou muito português. E nós temos de continuar a mostrar que temos gente de grande categoria em todas as áreas da cultura.

Manual do treinador em discurso directo

"Certos treinadores, principalmente estrangeiros, chegam aí e decretam: 'ninguém fuma!', e eles puxam do charuto; 'ninguém bebe', e eles estão no tinto. A minha vantagem é que fiz sempre a vida do atleta. Levantei-me mais cedo do que ele e fui para a cama à mesma hora que ele. Dei sempre o exemplo. A falta de pontualidade é outro problema. O treino é às 9.30, o treinador chega às dez, está tramado. Comigo o treino foi sempre pela hora TMP, Tempo Médio de Moniz Pereira. O atleta chegava dois minutos atrasado e dizia bom dia. Eu respondia com boa tarde. 'Ó professor, foram só dois minutos'. ‘Pois é, em dois minutos dá-se volta e meia à pista, perdemos 600 metros de treino’. Diziam eles, 'professor, amanhã não venho porque faço anos'. 'Ah é, olha, eu faço anos hoje e estou cá, tu amanhã tens de vir', respondia. O treino fazia-se independentemente das condições atmosféricas. E essa foi exactamente a coisa mais importante que eu fiz no atletismo português, incutir o gosto pelo treino, pelo trabalho.

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É falso que os portugueses não gostem de trabalhar, precisam é de ter o exemplo de quem está à frente. Estava a chover torrencialmente, punha aquele fato impermeável de almeida e ia para o meio do campo. A malta vinha pelo túnel, espreitava e lá estava eu. 'Então professor, hoje não há treino. Com esta chuva...'. 'Porquê, vamos bater algum recorde do mundo? Nós vamos treinar para um dia tentarmos bater o recorde, hoje são só dez séries de 200 metros. Depois vão tomar um banhinho quente (às vezes a caldeira estava avariada, mas eles não sabiam)'. Era assim”.

Irritações

"Irrita-me muito que se façam comentários deste tipo: fulano de tal marcou golo porque não tinha ninguém a marcá-lo. O João Pinto só marcou o golo ao FC Porto, nas Antas, porque o Nélson se atrasou. Então o João Pinto não teve mérito, não foi muito mais rápido? Isto irrita-me"

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"Também me irrita que queiram justificar os resultados dos jogos com o árbitro. O caso do Boavista-Marítimo, da Taça de Portugal, foi flagrante. O campo estava péssimo e o trabalho do árbitro naquelas condições até foi bom. Dizer que perderam por causa dele é uma violência"

"Um jogador está a seis metros da baliza, mas falha, no fim diz-se que até jogou bem. O árbitro fez um bom trabalho, mas deixou passar um fora-de-jogo, é um problema. As críticas feitas aos árbitros são muito mais rigorosas. Com os jogadores, há maior condescendência"

"A ver um jogo de futebol, há muitas pessoas que demonstram falta de cultura, facciocismo e parcialidade. É óbvio que eu gosto que o Sporting ganhe, mas não gosto de ver as pessoas constantemente a reclamarem sempre que um jogador entra na área e cai. Há muita falta de 'fair play'"

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"Irrita-me que os nossos jornais desportivos – que até são diários – dêem 30 e tal páginas ao futebol, seis ou sete às modalidades e nestas ainda incluam os 'pópós' e a NBA, porque a NBA tem de ter uma página inteira todos os dias. Depois, quando um atleta vai aos Jogos Olímpicos e fica em quarto dizem que não foi mau, mas falhou a medalha. Ora o futebol já foi aos Jogos, ficou em quarto, mas foi bestial. E, aqui para nós, até apanhou cinco do Brasil"

"Acho muito curioso que os jornalistas se entretenham a descrever os golos dos treinos de futebol. Dos treinos! Escrever sobre a peladinha de 12 contra 13 em meio-campo, isso não é nada. E depois ainda se diz que os jogadores deram bons indícios para o jogo de domingo"

"Quando o Rui Silva ganhou o Campeonato do Mundo de pista coberta, os jornais lá lhe deram a primeira página. Estive para deitar foguetes. Agora, quando sicrano almoça com beltrano, só falta vir o menu na capa do jornal. Isto não é desporto, é um jornal de comes e bebes"

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"O Domingo Desportivo, para que lhe chamam desportivo? Aquilo é o Domingo Futebolístico. É a I Liga, a II, os femininos, o campeonato de Espanha, de Itália e de Inglaterra. Depois metem os 'flashes", a bola no cesto, a meta a ser cortada pelo vencedor e já está. É a ditadura"

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