A longa margem até à Revolução

Tomé lembra que alguém disse que "havia milhares de mortos", mas que a preocupação de um dos acompanhantes do Sporting foi outra: "Eh, pá!, e eu que deixei o carro na Baixa..."

A longa margem até à Revolução
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Fernando Tomé não conseguiu pregar olho na noite de 24 para 25 de abril de 1974. “Passei o tempo a ‘puxar’ a bola para a baliza. Foi um pesadelo!”, lembra o então médio do Sporting, recordando o lance de golo desperdiçado nos últimos instantes do jogo que os leões realizaram em Magdeburgo, na 2.ª mão da meia-final da Taça das Taças. “Tentei desviar tanto a bola dos dois alemães que atirei ao lado”, conta Tomé que, com humor, refere que “os sportinguistas só se lembram de mim a 24 de abril...”

Depois da vitória em Alvalade (1-0), os leões perderam por 2-1. Se Tomé tivesse marcado, o Sporting ficava qualificado para a final (com o Milan). “Teria sido uma época de ouro, pois ganhámos o campeonato e a Taça.”

A viagem dos leões à República Democrática Alemã coincidiu com o fim de outro pesadelo, esse com 50 anos, e que a Revolução de Abril pôs termo.

O Sporting jogou a 24 de abril em Magdburgo. “No dia seguinte, acordámos cedo e viajámos de autocarro para Frankfurt, na Alemanha Ocidental”, conta Marinho, autor do golo leonino no Ernst Grube. “Foi aí que soubemos que havia uma revolução em Portugal”. Tomé lembra que alguém disse que “havia milhares de mortos”, mas que a preocupação de um dos acompanhantes do Sporting foi outra: “Eh, pá!, e eu que deixei o carro na Baixa...”

De Frankfurt, a comitiva seguiu para Madrid e com o presidente João Rocha sempre à procura de soluções – e já com informação fidedigna de acordo com os acontecimentos que realmente decorriam em Portugal –, os leões voltaram viajar de autocarro, agora para Badajoz. Aí chegados e impedidos de atravessar a fronteira que estava fechada, os jogadores foram distribuídos por vários quartos de hotéis, pensões, residenciais, “o que se encontrou disponível”. Os primeiros a ser instalados “foram os 11 que iriam jogar com o Belenenses no domingo”. Outros dormiram no autocarro “mas só quando os Vapores do Rego [n.d.r.: a primeira claque leonina organizada e que era formada por um grupo de jovens brasileiros] pararam de batucar...”

No dia 26, o Sporting beneficiou de uma autorização especial para entrar no país. O autocarro leonino foi seguido por outras viaturas, entre elas a do toureiro Mário Coelho, um dos raros matadores portugueses, que tinha atuado em Espanha.

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