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É raro encontrar um jogador tão clarividente quanto César Prates. Demonstra uma alegria enorme, vive como poucos o futebol, sabe o que quer da vida e é puro ao ponto de achar normal descrever a forma como forçou o cartão amarelo para cumprir um jogo de suspensão antes do Sporting-FC Porto. Fala abertamente dos assuntos, pois não tem "esqueletos no armário", e é um defesa-direito ambicioso: "Quero finalizar e fazer passes para golo"
FALAR com César Prates é um exercício de "voyerismo verbal", pois o jogador do Sporting não esconde nada e fala de tudo com a ingenuidade de quem não está comprometido com coisa alguma a não ser a sua maneira de ser. Para ele o futebol é alegria, um espaço aberto onde os adeptos se mesclam com os jogadores e criam o espectáculo, e o conceito de defesa-direito extravasa as barreiras tradicionais e transforma-se no verbo "atacar". Acabou de ser pai pela segunda vez (nasceu o David) e o seu rosto não esconde a euforia, e, ao mesmo tempo, a tranquilidade de quem tem no clube de Alvalade um "lar, doce lar".
- Que balanço faz destes primeiros dois meses de competição?
- Podemos dizer que estamos num momento bom, a fazer bons jogos, apesar de um ponto negativo, que é a finalização. Se tivéssemos feito golos em todas as belas oportunidades que criámos, as pessoas que pensam que o Sporting não está bem mudariam de ideia e a expectativa criada em redor deste grande plantel seria confirmada.
- Essa expectativa acabou por ser um problema?
- Criou-se uma expectativa muito grande, que para muitos devia dar resultados logo no princípio, mas que só agora surgem. Estamos a ter essa infelicidade de não transformar as oportunidades em golos. Se tal não acontecesse, ganharíamos os jogos por quatro ou cinco.
- E o balanço pessoal?
- Quando cheguei, comecei a jogar de uma maneira bastante ofensiva e depois houve uns jogos em que eu defendi mais do que ataquei e isso fez parecer que eu estava diferente. Agora que estou tranquilo no Sporting, porque exerceu a opção de compra, tenho de mostrar aos adeptos a sequência do trabalho da época passada. Tenho conversado muito com Inácio, corrigido muitas coisas, sobretudo a parte defensiva, o que faz com que eu me prenda mais nos jogos. Não quer dizer que eu não tenha liberdade...
- Mas porquê essa função mais defensiva?
- Muitas vezes são os adversários que impõem. Primeiro, marca-se, depois ataca-se. Mas quando há oportunidade, vou para a frente. Quando se fala em César Prates, fala-se em ataque e eu quero ser um elemento importante nos jogos, quero finalizar, quero fazer passes para golo. É o que mais quero, atacar, mas sabendo da importância de defender.
- Esse seu posicionamento mais defensivo pode justificar o facto de já ter sido admoestado com cinco cartões amarelos e estar actualmente suspenso?
- Já pensei muito nisso e até conversei com os meus pais e a minha esposa. Desde que comecei a carreira, é a terceira vez que tenho de cumprir uma suspensão devido a cartões amarelos. Só fui expulso uma vez, no início da carreira. E agora já levo cinco amarelos em seis jornadas... não gosto disso, nada mesmo! Mas não estou a tornar-me num jogador violento. Houve um lance em que fiz um carrinho, acertei na bola e levei o cartão. Falei ao árbitro e disse-lhe que não foi falta. É preciso mais seriedade nesta questão. O cartão não foi despenalizado e isso já aconteceu com outros jogadores. Não quero voltar a ser suspenso, acato a lei, mas vou estar atento para ver se os outros clubes recebem o mesmo tratamento.
SEGUNDAS PARTES APÁTICAS
- O que se tem passado com o Sporting nas segundas partes? Começa a ganhar e deixa o adversário empatar ou dar a volta ao resultado.
- No último jogo já não foi assim, mas tivemos alguns onde isso aconteceu: Real Madrid, Bayer Leverkusen e Spartak Moscovo.
- Sp. Braga e Alverca também.
- Isso. Mas o importante é que ganhámos o último jogo de forma atípica: atacámos sempre, até na segunda parte.
- Que explicação tem para essa quebra nas segundas partes?
- Não sei. É a primeira vez que senti isso na minha carreira. A equipa ficava totalmente apática, tentava fazer e não conseguia, mas também houve muitos erros na finalização. Eu mesmo me cobrei muito. No último jogo tive duas oportunidades, uma delas mais clara, em que estava de frente para a baliza e rematei com muita confiança mas a bola saiu ao lado. Não posso criar uma jogada da maneira com a elaborei lá de trás, para depois chegar à frente da baliza e errar. Cobro muito a mim mesmo. Se faço a coisa mais difícil, que é roubar a bola ao adversário e criar toda a jogada, não posso errar o golo. Vou trabalhar para evitar isso. Errar provoca ansiedade na equipa. Às vezes, no primeiro tempo, você mata um jogo. Mas também pode-se errar, errar, errar outra vez e na segunda parte já se está emocionalmente em baixo. Mas no último jogo marcámos na segunda parte e viu-se uma grande melhoria.
DEFESA DE MANUEL TERRÃO
- Falou-se bastante da questão física para justificar essas quebras...
- Olha, o César Prates está correndo...
- E isso quer dizer...
- Falo particularmente. Estou a sentir-me bem fisicamente, embora não esteja ainda como quero. Tenho falado sobre isso com o professor Carlos Bruno e o professor Inácio. Não estou a sentir-me solto, mas no último jogo já actuei de forma alegre e tudo me pareceu fácil, da forma como estou acostumado. E a equipa também está mais solta. A partir de agora, não podemos ficar nesse papo de princípio de época. Já vamos na sétima jornada e jogámos três partidas da Liga dos Campeões, tudo a valer. Não estamos mal fisicamente. A equipa já alcançou um padrão e vai crescer muito mais.
- Mas a questão física já custou o lugar ao preparador físico Manuel Terrão...
- Pelo que sei, saiu por questões particulares. Como profissional, que estava todos os dias a trabalhar com ele, não vejo outras razões. Se não fosse assim eu não estaria a sentir-me bem fisicamente.
- Não viu, portanto, nada de errado em relação à preparação física administrada por Manuel Terrão...
- Nada. Fui trabalhado de uma forma sábia e para mim deu resultado. Por que haveria de dar errado para outros? Isto embora cada jogador tenha o seu tipo de trabalho. Eu, por exemplo, tenho de trabalhar de uma forma diferente dos meus companheiros porque a minha forma de jogar exige muito da velocidade e força. Não posso trabalhar muito a resistência se o que mais uso é a velocidade. Estamos a conversar sobre isso e espero mais resultados em breve. Mas não creio que o professor Terrão tenha ido embora porque não estava a dar certo a parte física. Eu estava a correr, os outros também. Só tínhamos a infelicidade de a equipa decair nas segundas partes. Mas no último jogo já não foi assim.
- Conciliar a Liga dos Campeões com a I Liga também teve influência no começo menos bom?
- Já passei por essa experiência, de jogos às quartas e domingos e viagens, que se tornam cansativas, por não se estar habituado. É difícil. Jogamos a I Liga, sabendo que o princípio é muito importante, embora faltem muitos jogos, e a Liga dos Campeões, com três jogos fora e três em casa, uma competição mais imediata. Depois de empatarmos com o Real Madrid, da forma como foi, já não fomos para o campeonato português com a mesma força, pois ficámos sem a força extra da parte emocional.
- Ficou a impressão de que o Sporting poderia ter alcançado resultados mais positivos nos três jogos da Liga dos Campeões...
- Essa ideia está bem clara. Nós, jogadores, somos os responsáveis, pois estamos a criar todas as oportunidades e a trabalhar bem física e tacticamente. Poderíamos ter feito mais golos nesses jogos. Contra o Spartak foi uma coisa muito clara. É lamentável jogar bem e perder. Fica difícil de explicar e engolir. Acabou o jogo e pensei: “Fiz cruzamentos, passes, rematei e sofri três golos!” Temos de procurar mais a sorte e estou certo de que Deus vai ajudar-nos.
REGRESSAR À SELECÇÃO
- Você tem as características necessárias para ser seleccionável: é um defesa-direito atacante, veloz. Regressar à "canarinha", que já representou quatro vezes, com Mário Zagallo, está nos seus planos?
- É uma questão que muita gente está a colocar. Isso faz crescer o meu ânimo ainda mais. Espero que o novo seleccionador olhe para mim e terei de fazer ainda um pouco mais para ser olhado. Se jogasse no Brasil, seria mais fácil. Tenho de fazer mais golos. Estive agora no Brasil e a Imprensa brasileira está atenta ao meu trabalho no Sporting. A minha meta é voltar à selecção, com certeza.
- A concorrência é séria...
- O Cafu é titular há muito tempo e o Evanilson tem sido convocado. Foi o critério do Wanderley Luxemburgo, mas espero poder encaixar-me no estilo do novo treinador. Posso estar aqui a fazer um bom trabalho, a jogar como o professor Inácio quer e gosta e se calhar o seleccionador não gosta dessas características. Há que levar essas coisas em conta. Hoje eu olho para a selecção de forma diferente de quando tinha 21 anos e fui chamado por Zagallo. Estou com os pés mais assentes na terra, mais experiente e vejo-me com capacidade para representar a minha nação brasileira e também o futebol português.
«FORCEI O QUINTO AMARELO»
- Até lhe deu jeito receber agora o quinto cartão amarelo. Assim cumpre suspensão com o D. Aves e pode defrontar o FC Porto...
- Mas tivemos de fazer uma coisa que não é do meu agrado, mas submeti-me ao que o professor Inácio me colocou, de forçar o cartão amarelo. Poderia muito bem jogar esse jogo e jogar o outro e não tomar o cartão. Mas a gente sabe que existem muitas coisas erradas no futebol e não podemos entrar em grandes detalhes. E hoje, graças a Deus, sei da minha importância dentro do Sporting, da importância do trabalho que estou a desenvolver e os últimos jogos têm dado resultado e tenho ajudado muito a equipa. Mas às vezes existem coisas erradas que prejudicam. Mas já passou. Vou cumprir a suspensão e contra o FC Porto estou pronto para ser opção do professor.
- Disse que forçou o cartão amarelo. Não é o primeiro nem será o último a fazê-lo. Qual é a maneira mais fácil?
- É a segunda vez que tenho de forçar um cartão amarelo. A primeira vez foi complicada. O jogo estava a acabar e eu a pensar: “tenho de tomar o cartão, tenho de tomar cartão". Também defrontava uma equipa inferior a seguir e depois vinha um clássico, como agora. Puxei a camisola do adversário, mas o árbitro conhecia a minha forma de jogar, com um futebol alegre e não violento, e não queria dar o cartão. Voltei a puxar a camisola, empurrei, fiz faltas, até sair o cartão... Agora eu conheço a lei. Fiz a falta e segurei a bola. O adversário veio para pegar a bola, segurei mais um pouco, estávamos a ganhar o jogo [ndr: Sporting-Salgueiros], segurei e quando veio de novo chutei para fora. Então é óbvio que o árbitro teve de dar o cartão amarelo. Foi o meio que encontrei para tomar o cartão mas é difícil porque o que você menos quer é tomar cartão ou ser expulso, mas...
- Foi uma maneira limpa de fazer a coisa...
- Sim, não precisei agredir o adversário ou coisa assim. Fiz uma falta e segurei a bola... Mas é difícil. Na hora eu senti uma coisa... é normal eu largar a bola, nem sequer pegar nela. Mas peguei, segurei e pensei “agora vai-me dar o cartão” e não deu. Dei mais dois passos para trás e não deu. Veio o adversário pegar a bola e aí chutei para a lateral. Então deu o cartão. Mas pronto, vamos esquecer isso!
ACOSTA DEU RESPOSTA COM TRABALHO E GOLOS
- Você está convicto de que o Sporting tem jogado bem na Liga dos Campeões. Nesse espírito, como entendeu as palavras do presidente Dias da Cunha sobre a actuação de Acosta ante o Bayer Leverkusen? Ele afirmou que a equipa estava a jogar com nove a dada altura...
- Foi um ponto que ele colocou e acho que se referiu da maneira como quis, quem sabe de uma maneira infeliz, mas a resposta foi dada pelo Acosta, trabalhando, fazendo golos. No último jogo foram dois.
- Como é que o grupo reagiu a essas críticas?
- Estamos a crescer juntos. Todos os outros clubes estão a jogar contra o Sporting. Como disse no início da época, nós temos de lutar contra nós mesmos. A equipa técnica não pode pensar diferente dos jogadores e muito menos nós podemos pensar diferente da Direcção. Todos devem pensar da mesma forma.
- Mas o presidente tem direito a uma opinião...
- Claro, ele é o presidente e nós somos submissos e ele.
- Mas não seria aquilo que vocês queriam ouvir naquele momento...
- Olhe, eu gosto sempre de ouvir elogios. Isso faz-me crescer dentro de campo e até os "sprints" de cem metros saem com mais facilidade. Se os adeptos me vaiassem, com certeza eu ia dominar a bola e tocar de lado e não conseguiria fazer as jogadas que sei fazer. Quando se ama, tolera-se. Cobra-se mas tolera-se muita coisa. Os adeptos amam o clube, eu também, da mesma forma que amo a minha esposa. Quando erramos eu sei cobrar e ela também, para crescermos. Nos clubes é o mesmo. Há que saber amar e cobrar os jogadores. O presidente tem a sua expressão, a sua liberdade, o livre arbítrio para fazer e falar o que quiser, mas todos temos de pensar numa só direcção, porque está todo o mundo contra o Sporting. É assim que temos de pensar.
- Custa mais ouvir uma crítica do presidente do que de um adepto...
- Com certeza. Mas tudo o que aconteceu foi passageiro. Passou, está resolvido e o importante é que estamos a jogar bem.
«O QUE SCHMEICHEL DIZ A MAIS NÃO SERVE»
- Como é ter Schmeichel aos berros nas suas costas?
- É saber escutá-lo até ao momento em que tem razão e depois deixar passar.
- É assim tão fácil?
- Eu consigo fazer isso. Ele grita "César fecha" e o César fecha, "César isto", eu faço. O que vem a mais não serve. Mas o Schmeichel é um grande guarda-redes.
- Como sabe o que está a mais no que ele diz?
- Às vezes nem compreendo o inglês dele. Só quando fala um pouco de português é que percebo o que diz. Faço o que me pede, fecho o flanco, pronto. Se falou outra coisa... ele é um jogador explosivo e temperamental.
- Considera que por vezes ele exagera?
- É a sua maneira de ser. Claro, ele não pode deixar que essa maneira interfira no querer dos companheiros. Eu também posso mudar e ser um jogador que não sou e reclamar com os companheiros de uma forma que não é necessária. Num treino, o Nuno Santos tentou socar a bola e errou. Ele disse-me: "César, saí certinho, não sei o que aconteceu" e um companheiro foi cobrar dele. Eu disse: "Calma, ele já viu que errou." O importante é isso. Todos nós sabemos quando erramos e o Nuno até pediu desculpa. Temos de estar unidos para um Sporting grande.
- Mas a defesa não responde à letra quando Schmeichel também erra?
- Não cobramos de uma forma tão viril como ele faz. Mas ele tem tomado consciência disso. Todos nós somos humanos e podemos errar. Há que estar tranquilo. Errou..., não se pode perder a confiança. Ele tem feito um bom trabalho, grandes defesas, e nos momentos em que erra percebe que não cobramos da maneira como faz connosco.
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